Breve resenha crítica da obra O Alienista, de Machado de Assis

A publicação de O Alienista, originalmente serializada no periódico A Estação entre outubro de 1881 e março de 1882 e posteriormente reunido no livro Papéis Avulsos (1882), marcou um momento decisivo na trajetória literária de Machado de Assis (1839–1908). Autodidata, afrodescendente e oriundo de camadas populares da sociedade carioca do Segundo Reinado, Machado de Assis consolidou-se como a figura central da literatura brasileira ao transitar do Romantismo para um Realismo com características singulares, sem maniqueísmos típicos da literatura da época e profundamente marcado pela depuração estilística. No contexto do final do século XIX, período dominado pelo entusiasmo em torno do cientificismo, do positivismo e do determinismo biológico, a narrativa machadiana foi na contramão dessas perspectivas, ao trazer à tona representações ficcionais que desconstruíram as ilusões racionalistas que pretendiam catalogar a experiência humana sob leis inflexíveis.

A estrutura composicional de "O Alienista" oscila entre o conto longo e a novela, valendo-se de um foco narrativo em terceira pessoa que simula a postura de um cronista ou historiador imparcial. O narrador consulta fictícios arquivos da vila de Itaguaí para reconstruir os eventos em torno da fundação da Casa Verde, a instituição psiquiátrica criada pelo protagonista. Esse recurso de aproximação historiográfica serve como um dispositivo de distanciamento crítico: ao adotar a linguagem sóbria, solene e documental das crônicas coloniais, a voz narrativa imprime uma objetividade aparente que intensifica a carga irônica do enredo. O narrador intrusivo, contudo, revela suas frestas por meio da seleção vocabular e das elipses, revelando a fragilidade das fontes históricas e a volatilidade das certezas institucionais.

O eixo dramático articula-se em torno de Dr. Simão Bacamarte, médico formado em Coimbra e Pádua que encarna o protótipo do cientista oitocentista. Alimentado por uma devoção quase religiosa ao saber psiquiátrico, o alienismo, Bacamarte subordina todas as esferas da existência individual e social aos imperativos da razão pura. A construção do personagem renuncia ao sentimentalismo romântico: suas decisões matrimoniais, por exemplo, orientam-se estritamente por critérios fisiológicos e reprodutivos ao escolher D. Evarista, mulher destituída de dotes estéticos marcantes, mas supostamente beneficiada por uma constituição física propícia à maternidade. Ao redor do alienista orbita a elite local de Itaguaí, composta por figuras arquetípicas como o boticário Crispim Soares, cuja subserviência ao saber médico reflete o alinhamento da pequena burguesia aos discursos de autoridade; o Padre Lopes, que contrapõe a prudência eclesiástica aos excessos da ciência profana; e Porfírio, o barbeiro demagogo que instrumentaliza o descontentamento popular para alçar-se ao poder político.

A dinâmica do enredo desenvolve-se a partir da inauguração da Casa Verde, construída com a corroboração da câmara municipal para abrigar e estudar os desvarios da mente. Inicialmente, o rigor de Bacamarte restringe-se aos casos patológicos evidentes. Todavia, à medida que a investigação psiquiátrica se aprofunda, o médico expande progressivamente os limites conceituais da loucura, enquadrando qualquer desvio da perfeita neutralidade psicológica ou moral como sintoma de desequilíbrio mental. Traços como a vaidade excessiva, a prodigalidade, a devoção religiosa intensa, a avareza e até mesmo a modéstia exemplar passam a ser diagnosticados como patologias dignas de internação. A consequência direta dessa espiral é o enclausuramento de grande parcela da população itaguaiense, transformando o asilo na própria norma social e redefinindo o cenário moral da vila.

Fica explicito que a expansão da Casa Verde ocorre como uma alegoria da arbitrariedade do poder disciplinar e da violência epistêmica. A ciência, representada por Bacamarte, deixa de ser um instrumento de emancipação para converter-se em um mecanismo totalitário de controle social. A linguagem médica, saturada de jargões e categorizações, adquire status dogmático contra o qual o senso comum e a liberdade individual se mostram impotentes. O enredo ilustra com precisão o conceito de biopolítica avant la lettre, na medida em que a gestão da vida, dos comportamentos cotidianos e dos afetos passa a ser chancelada pela autoridade do perito, cujo saber não aceita contestações fora do próprio círculo de validação acadêmica.

A dimensão política do texto ganha relevância com o episódio da Revolta dos Canjicas, insurreição popular liderada pelo barbeiro Porfírio contra as internações arbitrárias praticadas por Bacamarte. A movimentação dos habitantes locais, contudo, é desprovida de um projeto emancipatório genuíno. Tão logo assume o controle do governo municipal após a deposição das autoridades constituídas, Porfírio cede às conveniências do poder e estabelece uma aliança pragmática com o próprio alienista, selando a manutenção e a ampliação das prerrogativas da Casa Verde. A volatilidade das pautas revolucionárias e a facilidade com que o discurso libertário se degrada em cooptação fisiológica evidenciam a visão desencantada de Machado de Assis em relação aos movimentos sociais e às elites dirigentes do Brasil imperial.

Do meu ponto de vista, O Alienista exemplifica bem a ironia machadiana, recurso que o autor utilizou sobretudo em sua vertente realista, que ia além do mero chiste eventual para se tornar como postura epistemológica na sua obra, algo que pode ser notado na proliferação de termos pseudo-científicos no discurso de Bacamarte é parodiada pelo narrador, que expõe o caráter tautológico das teorias psiquiátricas do século XIX. As digressões e quebras de expectativa que vemos no decorrer da narrativa funcionam como alavancas estéticas que desestabilizam o leitor, impedindo adesões acríticas tanto ao dogmatismo da ciência quanto às reações ingênuas da população.

Podemos considerar que a reflexão sobre a sanidade em "O Alienista" antecipa, pelo menos aqui no Brasil, debates contemporâneos da filosofia e da história da psiquiatria ao problematizar o caráter binário das discussões sobre o que era normal e patológico, que ganhariam contornos mais relevantes no início do século XX. Quando Bacamarte percebe a insustentabilidade lógica de manter a maioria da população encarcerada e decide inverter a premissa de sua tese, declarando que a perfeita orientação mental e a virtude inabalável constituem as verdadeiras anomalias estatísticas, o texto atinge seu momento mais interessante. A oscilação permanente do critério diagnóstico mostra que a definição de loucura não decorre de um dado ontológico objetivo, mas de uma convenção exterior imposta por quem detém o monopólio do discurso legítimo.

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Capa do livro Nome do Livro

O Alienista

por Machado de Assis

📖 Páginas: 304 🏢 Editora: Antofágica Minha Avaliação: 5/5

Obstinado e fatalmente fiel à ciência, o médico não permitirá que nada – nem a população, nem o Estado, nem o senso comum – impeça sua nobre investigação sobre a razão humana.Publicada pela primeira vez em 1882, esta novela curta e sagaz foi uma das obras mais impactantes de Machado de Assis, um marco de sua voz questionadora e irônica e de sua visão tão certeira sobre questões inerentemente humanas.

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