O nome Dada, ou Dáda, possui uma gênese profundamente humana e cotidiana. Trata-se de uma palavra expressiva e onomatopaica, originada diretamente da linguagem infantil primordial. É fascinante notar como o balbucio das crianças reverbera através de diferentes culturas e dialetos indo-europeus para designar figuras de afeto, cuidado e parentesco dentro do núcleo familiar. Encontramos esse mesmo fenômeno no grego antigo com os termos tēthē, tēthē e títhē, utilizados para designar a avó, a vovó ou a ama. Não se trata de uma expressão exclusiva do ambiente helênico, já que essa raiz fonética se propaga por outras paragens linguísticas antigas, como se observa no eslavo antigo com a forma dĕdŭ e no russo com o termo ded, ambos significando avô. Do mesmo modo, o vêneto deda evoca a figura da tia, enquanto o ilírio dada se refere à ama. Portanto, ao ser transportada para o plano mitológico, a palavra abdica de sua condição de substantivo comum do idioleto infantil para batizar uma heroína, mantendo, contudo, uma aura de proximidade, ancestralidade e cuidado.
No âmbito estritamente narrativo e dinástico, Dada insere-se no complexo ciclo de lendas que conectam a ilha de Creta à região da Tróada, um prelúdio geográfico essencial para as posteriores tradições homéricas. Ela era a esposa legítima de Sâmon, um destacado herói cretense. Sâmon desempenhou um papel geopolítico crucial na proto-história mítica ao auxiliar Escamandro, o célebre herói e posterior divindade fluvial, em sua campanha militar para se apoderar e colonizar a Tróada, a península onde mais tarde se ergueria a mítica cidade de Troia. Essa aliança demonstra que Dada pertencia à mais alta aristocracia guerreira de seu tempo, partilhando indiretamente dos riscos e das glórias decorrentes das expedições de expansão territorial.
A trajetória de Dada, contudo, transforma-se de um épico de conquistas para uma tragédia de proporções íntimas e morais após a morte de Sâmon, que tomba fatalmente em um combate. A viúva, encontrando-se em uma posição de vulnerabilidade social comum às mulheres do período heroico, decide reorganizar sua vida e buscar a segurança jurídica e familiar que apenas um novo matrimônio poderia proporcionar. Com o intuito de contrair segundas núpcias em uma cidade vizinha, Dada toma as devidas precauções exigidas pelo decoro e pela segurança da época, contratando um arauto para conduzi-la na jornada. Na antiguidade clássica, o arauto era uma figura revestida de sacralidade, um funcionário cujo ofício era protegido pelos deuses, especialmente por Hermes, o que deveria garantir a absoluta segurança da viagem.
Todavia, o destino reserva a Dada uma quebra absoluta desse pacto sagrado. No decorrer da viagem, o acompanhante que deveria ser o garante de sua integridade comete o ato supremo de traição e a violenta. A agressão perpetrada pelo arauto destrói não apenas a integridade física da heroína, mas viola o próprio tecido moral que sustentava as relações de confiança mútua na sociedade grega. Diante do horror do estupro e consumida por um sentimento devastador de vergonha, Dada toma uma decisão drástica que reflete o rigor ético de sua casta. Ela utiliza a espada de seu primeiro marido, Sâmon, uma arma que trazia constantemente consigo como relíquia de seu passado digno, para pôr fim à própria vida. O suicídio com a espada do esposo falecido carrega um simbolismo pungente, unindo a memória da honra perdida ao instrumento de sua libertação trágica.
O desfecho do mito de Dada ilustra a ação da justiça retributiva e a importância da memória coletiva na bacia do Egeu. Quando os cretenses tomaram conhecimento do crime abominável e do trágico fim da heroína, a reação foi imediata e comunitária. Eles se dirigiram ao exato local onde o estupro fora praticado e executaram o arauto culpado por lapidação, uma punição coletiva que purificava a sociedade do sangue da traição.
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Dicionário de mitologia grega e romana
por Mário da Gama Kury
Com aproximadamente 3.000 verbetes, este dicionário é fundamental para o conhecimento das civilizações grega e romana, sua pré-história, sua mentalidade, sentimentos, instituições. Como a mitologia grega chegou à nossa língua a partir da mitologia romana, as formas tradicionais dos nomes próprios são seguidas, aqui, das formas originais gregas transliteradas em caracteres latinos. Kury é também tradutor do "Dicionário Oxford de Literatura Clássica", de "A Trilogia Tebana" de Sófocles e "Oréstia" de Ésquilo, todos publicados por esta editora.
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