Vamos analisar minuciosamente o conceito de Estranhamento, uma formulação teórica que alterou definitivamente a nossa percepção sobre o que é o fenômeno literário e como a linguagem artística opera em nossa cognição.
Para compreender o estranhamento em toda a sua densidade teórica, precisamos nos transportar para as primeiras décadas do século vinte, mais especificamente para o ambiente de efervescência intelectual da Rússia pré e pós-revolucionária. Foi nesse contexto que se consolidou o Formalismo Russo, um movimento de crítica literária determinado a conferir um estatuto estritamente científico aos estudos da literatura. Os formalistas estavam profundamente insatisfeitos com a crítica de sua época, que tendia a reduzir a obra literária a uma mera extensão da biografia do autor, a um reflexo sociológico de seu tempo ou a um tratado filosófico em prosa. Para pensadores como Viktor Chklovski, Roman Jakobson, Boris Eikhenbaum e Iuri Tynianov, a literatura precisava ser estudada a partir de seus próprios elementos constitutivos, ou seja, a partir de sua forma e de sua linguagem.
Foi nesse cenário, precisamente no ano de mil novecentos e dezessete, que Viktor Chklovski publicou um ensaio que se tornaria o manifesto inaugural dessa nova abordagem crítica: A Arte como Procedimento. É nesse texto que o autor cunha o termo ostranenie, traduzido para o português como estranhamento ou, em algumas vertentes acadêmicas, como desautomatização ou desfamiliarização. A tese central de Chklovski parte de uma observação perspicaz sobre a psicologia da percepção humana e a forma como interagimos com o mundo cotidiano que nos cerca.
O teórico argumenta que, à medida que realizamos as mesmas ações, vemos os mesmos objetos e utilizamos a mesma linguagem repetidamente, nossa percepção passa por um processo inexorável de automação. Nós deixamos de ver as coisas e passamos apenas a reconhecê-las. Quando andamos por uma rua que percorremos todos os dias, não estamos verdadeiramente apreendendo a textura das paredes, a tonalidade exata das folhas das árvores ou o desenho arquitetônico das janelas; nós apenas identificamos esses elementos como sinalizadores espaciais necessários para a nossa locomoção. A vida, quando imersa nessa rotina cognitiva, perde o seu frescor e a sua vivacidade. Chklovski chega a afirmar textualmente que a automatização devora os objetos, os hábitos, os móveis, as roupas e até mesmo o medo da guerra. Se a vida complexa de tantas pessoas passa inconscientemente, diz ele, então essa vida é como se não tivesse sido.
É exatamente para combater essa anestesia sensorial, essa morte em vida provocada pelo hábito, que surge a arte. A função da arte, portanto, não é fazer-nos compreender uma mensagem moral ou transmitir um conteúdo factual que poderia ser facilmente comunicado por outros meios. A função da arte é devolver-nos a sensação da vida, fazer-nos sentir os objetos, fazer com que o que é de pedra seja verdadeiramente de pedra. Para alcançar esse objetivo humanitário e cognitivo, a arte utiliza o procedimento do estranhamento.
O estranhamento consiste, essencialmente, em retirar o objeto de sua percepção habitual, tornando-o deliberadamente difícil, desconhecido ou bizarro, de modo que o receptor da obra seja forçado a demorar-se na sua contemplação. Em vez de uma percepção automatizada que se resolve em uma fração de segundo através do mero reconhecimento, a obra de arte impõe uma percepção laboriosa, uma recepção retardada. O tempo de recepção na arte é um fim em si mesmo e deve ser prolongado ao máximo. A literatura realiza isso manipulando o seu material exclusivo: a linguagem.
Na linguagem cotidiana, aquela que utilizamos para comprar pão, redigir um relatório técnico ou pedir direções na rua, a palavra funciona como uma espécie de moeda de vidro. Ela é perfeitamente transparente. Nós olhamos através dela para atingir o referente, o significado prático que está por trás. Se alguém diz que o dia está chuvoso, a atenção do interlocutor se volta imediatamente para a necessidade de buscar um guarda-chuva, e não para a sonoridade das palavras ou para a tessitura sintática da frase. Na literatura, contudo, ocorre o oposto. A linguagem literária opõe resistência ao leitor. Ela se torna opaca, rugosa, densa. O leitor é obrigado a olhar para a palavra, para a sua forma, para o seu ritmo, para as suas ambiguidades, antes de conseguir atravessá-la em direção ao sentido.
Para ilustrar como esse procedimento funciona na prática textual, Chklovski recorre frequentemente às obras de Liev Tolstói. O romancista russo era um mestre supremo do estranhamento, utilizando-o como uma ferramenta de crítica social e filosófica. Em várias de suas narrativas, Tolstói descreve episódios e instituições humanas perfeitamente familiares como se os estivesse vendo pela primeira vez, abstendo-se de nomear as coisas pelos seus nomes habituais e descrevendo-as como se fossem fenômenos completamente inéditos e incompreensíveis.
Um dos exemplos mais célebres ocorre no conto Kholstomer, no qual toda a história é narrada sob o ponto de vista de um cavalo. Ao adotar a perspectiva equina, Tolstói consegue estranhar o conceito estritamente humano de propriedade privada. O cavalo expressa sua absoluta perplexidade diante do fato de que os homens usam palavras como meu e teu para se referirem a seres vivos, à terra e a objetos que eles sequer utilizam. O animal não consegue compreender como um homem que nunca o montou e que jamais cuidou dele pode afirmar que é seu dono, enquanto aqueles que de fato convivem com ele não possuem esse direito legal. Ao deslocar o foco interpretativo para os olhos de um ser exterior à cultura humana, o texto literário despe a propriedade privada de sua aura de naturalidade, revelando-a como uma convenção social arbitrária, absurda e potencialmente violenta.
O mesmo procedimento é empregado por Tolstói em Guerra e Paz ao descrever uma noite na ópera. Em vez de utilizar o jargão teatral ou a terminologia musical que normalizaria a experiência para o leitor aristocrático, o narrador descreve o espetáculo como uma sucessão de panos pintados, tábuas de madeira serradas e pessoas vestidas de maneira ridícula que se movem de um lado para o outro emitindo gritos modulados sem qualquer razão aparente. O efeito desse estranhamento é duplo. Primeiramente, ele renova a nossa percepção sensorial do que é um espetáculo teatral, despindo-o de suas convenções automáticas. Em segundo lugar, ele funciona como uma fina ironia contra a artificialidade dos costumes da alta sociedade russa, que encontrava seriedade e elevação moral em um ritual que, visto de forma puramente factual, beira o absurdo.
Essa capacidade da literatura de desnaturalizar o mundo é o que nos permite traçar uma distinção rigorosa entre a linguagem literária e a linguagem comum. Roman Jakobson, outro pilar do Formalismo Russo, desdobraria essas intuições na formulação do conceito de literalidade, ou seja, aquilo que faz de uma determinada obra uma obra literária. Para Jakobson, a literatura se caracteriza pela predominância da função poética da linguagem, que ocorre quando a mensagem se volta sobre si mesma, quando a seleção e a combinação das palavras adquirem uma relevância estética superior à mera transmissão de informações. O estranhamento de Chklovski é, fundamentalmente, a manifestação perceptiva dessa função poética descrita por Jakobson.
É de suma importância ressaltar que o estranhamento não é uma propriedade intrínseca e imutável de certas palavras ou de determinados temas. O estranhamento é uma relação dinâmica que se estabelece entre o texto e o horizonte de expectativa de uma determinada época histórica. Um procedimento que causou profundo estranhamento e escândalo estético no século dezenove pode, perfeitamente, transformar-se em um clichê desgastado no século vinte e um. Quando os poetas românticos começaram a utilizar uma linguagem mais próxima do falar cotidiano e a tematizar elementos da natureza interior em oposição ao rigor clássico das musas greco-romanas, eles causaram um choque de estranhamento em seus leitores contemporâneos. Com o passar das décadas, contudo, a própria dicção romântica foi assimilada, normatizada e automatizada pela tradição literária, exigindo que os movimentos subsequentes, como o Realismo e o Simbolismo, criassem novos procedimentos de ruptura para restabelecer a opacidade da arte.
Esse caráter histórico e evolutivo da literatura foi amplamente teorizado por Iuri Tynianov em seu ensaio Da Evolução Literária. Tynianov concebe a literatura como um sistema dinâmico no qual as formas literárias estão em constante luta e transformação. Uma forma artística não evolui de maneira pacífica e linear; ela se transforma por meio da paródia, da contestação e da recontextualização de formas anteriores que se tornaram automatizadas. O estranhamento, portanto, é o motor propulsor da própria história da literatura. Quando um determinado gênero ou estilo literário perde a sua capacidade de desautomatizar a percepção, ele entra em declínio, abrindo espaço para que novas vanguardas subvertam essas convenções e devolvam ao leitor a experiência do choque estético.
Podemos expandir essa reflexão teórica ao colocá-la em diálogo com outras correntes da Teoria da Literatura que absorveram e ressignificaram o conceito formalista. O caso mais emblemático é o do dramaturgo e teórico alemão Bertolt Brecht, que desenvolveu o conceito de efeito de distanciamento para o seu teatro épico. Embora Brecht tenha formulado sua teoria com objetivos eminentemente políticos e ideológicos, as bases cognitivas de seu pensamento dialogam diretamente com a ostranenie de Chklovski.
No teatro aristotélico tradicional, o espectador é convidado a mergulhar em uma ilusão realista, identificando-se emocionalmente com os personagens através da catarse. Brecht argumentava que essa identificação emocional contínua adormecia o senso crítico do espectador, fazendo-o aceitar as injustiças sociais apresentadas no palco como se fossem o destino inevitável da condição humana ou leis imutáveis da natureza. Para combater essa passividade, o teatro épico brechtiano utiliza uma série de procedimentos de distanciamento, como a interrupção das cenas por canções, a exposição explícita dos refletores de luz, a leitura de cartazes informativos e a atuação distanciada dos atores, que não devem se transformar plenamente nos personagens, mas sim apresentá-los criticamente ao público.
O objetivo do distanciamento brechtiano é fazer com que o espectador olhe para a realidade social representada, o desemprego, a exploração do trabalho, a guerra, e perceba que esses fenômenos não são naturais nem eternos, mas sim construções históricas realizadas por seres humanos e que, portanto, podem ser transformadas pela ação humana. Vemos aqui como o estranhamento, originalmente concebido pelos formalistas russos como um procedimento estético focado na renovação da percepção sensorial e linguística, adquire uma dimensão profundamente política e revolucionária na práxis teatral do século dezenovo e vinte. A literatura e a arte em geral deixam de ser apenas um refúgio contemplativo e passam a atuar como ferramentas de desmistificação da ideologia dominante.
Ao analisarmos a literatura contemporânea, percebmos que o conceito de estranhamento continua perfeitamente válido e necessário para darmos conta das experimentações narrativas atuais. Pensemos, por exemplo, na literatura de Franz Kafka. Em sua obra-prima A Metamorfose, o estranhamento é levado a um paroxismo radical logo na primeira frase do texto, quando o caixeiro-viajante Gregor Samsa acorda de sonhos intranquilos metamorfoseado em um inseto monstruoso. O que torna o texto kafkiano tão perturbador e esteticamente denso não é apenas o fato fantástico da transformação em si, mas a forma como esse fato é narrado. Gregor Samsa não reage à sua nova condição com o desespero metafísico ou o terror que esperaríamos de uma situação sobrenatural; sua principal preocupação imediata é o fato de ter perdido o trem das cinco da manhã e a bronca que receberá de seu chefe no escritório.
Ao tratar o monstruoso e o absurdo com a linguagem sóbria, burocrática e naturalizante de um relatório comercial, Kafka exerce um duplo estranhamento. Ele estranha o fantástico ao torná-lo cotidiano, e estranha o próprio cotidiano e a rotina do trabalho assalariado ao revelar que a vida sob o capitalismo burocrático é tão desumanizante que acordar transformado em um inseto é encarado como um mero contratempo profissional. O leitor é arrancado de sua zona de conforto interpretativa, sendo forçado a reavaliar as estruturas de alienação que regem a sua própria existência.
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