Olá! É um prazer receber você nesta nossa aula de Teoria da Literatura. Acomode-se, pois hoje nos dedicaremos a investigar um dos conceitos mais fundamentais, complexos e divisores de águas dos estudos literários modernos: a literariedade.

Para compreender a fundo o que esse termo significa, precisamos fazer um recuo histórico e nos posicionar no início do século XX. Imagine o cenário dos estudos sobre arte e literatura até aquele momento. A crítica literária tradicional era profundamente marcada pelo biografismo, pelo psicologismo e pelo historicismo. Isso significa que, se alguém quisesse analisar um poema de Álvares de Azevedo ou um romance de Machado de Assis, o foco quase sempre recaía sobre a vida do autor, seu estado psicológico no momento da escrita ou o contexto social e político da época. A obra em si era tratada quase como um pretexto, um documento histórico ou um sintoma da mente do escritor. O texto literário, portanto, carecia de um estatuto de autonomia; ele não era estudado por aquilo que era, mas pelo que refletia.

É justamente contra essa postura que se levanta um grupo de jovens intelectuais na Rússia, por volta de 1915, fundando o que mais tarde conheceríamos como o Formalismo Russo. Nomes como Roman Jakobson, Viktor Shklovsky, Boris Eikhenbaum e Yuri Tynianov provocaram uma verdadeira revolução epistemológica. Eles perceberam que, para que os estudos literários pudessem reivindicar o status de ciência, uma ciência da literatura, era preciso delimitar com clareza o seu objeto de estudo. E o objeto da ciência literária, como propôs dramaticamente Roman Jakobson, não é a literatura em sua totalidade vaga, mas sim a literariedade (literaturnost).

Nas palavras célebres de Jakobson, o objeto da ciência da literatura não é a literatura, mas a literariedade, isto é, aquilo que faz de uma determinada obra uma obra literária. Para os formalistas, o historiador da literatura tradicional se comportava como a polícia que, querendo prender uma determinada pessoa, entrava em uma casa e saía levando tudo o que encontrava pela frente: os móveis, as roupas, os moradores e até os transeuntes da rua. Ou seja, a crítica antiga misturava sociologia, psicologia, filosofia e história, mas esquecia-se do principal: a materialidade do próprio texto.

A literariedade, portanto, pressupõe a existência de uma especificidade na linguagem literária que a distingue de qualquer outro tipo de discurso. Não se trata de buscar a "essência" metafísica ou a "beleza" abstrata do texto, mas sim de observar os procedimentos técnicos e formais que operam na linguagem para transformá-la em arte. A grande virada teórica reside no fato de que o foco se desloca do conteúdo (o "quê" o texto diz) para a forma (o "como" o texto diz). A mensagem literária deixa de ser um meio de transmissão de informações ou de sentimentos para se tornar o próprio fim da comunicação.

Para aprofundarmos essa mecânica textual, precisamos recorrer a outro conceito basilar formulado por Viktor Shklovsky: o estranhamento, também traduzido do russo como desfamiliarização (ostranenie). Shklovsky argumentava que, no nosso cotidiano, a percepção que temos do mundo e das palavras se torna automatizada. Nós não vemos os objetos; nós apenas os reconhecemos pelo hábito. Se andamos pela rua, olhamos para uma árvore e automaticamente a catalogamos como "árvore", sem de fato perceber sua textura, suas cores ou a forma como a luz incide sobre suas folhas. O mesmo acontece com a linguagem cotidiana, que busca a máxima transparência e eficiência: usamos as palavras como ferramentas utilitárias para transmitir recados rápidos, dar ordens ou expressar necessidades imediatas. A palavra, na vida prática, é um vidro transparente através do qual olhamos para a realidade.

A arte, por outro lado, atua como um elemento perturbador dessa automação. O procedimento do estranhamento consiste em retirar o objeto de sua percepção habitual, fazendo com que ele pareça novo, estranho e, consequentemente, visível em toda a sua densidade. Na literatura, o escritor não usa a linguagem para nos fazer reconhecer as coisas, mas para nos fazer ver as coisas através de uma percepção renovada. A linguagem literária, longe de ser um vidro transparente, comporta-se como um vidro opaco, trabalhado, facetado, que chama a atenção para a sua própria superfície. Nós deixamos de olhar apenas através da palavra e passamos a olhar para a palavra.

Esse processo de desautomatização linguística é a engrenagem viva da literariedade. O escritor manipula o ritmo, a sonoridade, a sintaxe, as metáforas e a disposição das palavras na página de modo a desacelerar a leitura. Essa desaceleração é intencional. Ao criar uma resistência na leitura, o texto literário prolonga o tempo da nossa percepção estética. Nós saboreamos a forma, percebemos as colisões fonéticas, as ambiguidades semânticas e as tensões estruturais que constituem o tecido textual. A literariedade, sob essa ótica, é o resultado de uma violência organizada praticada contra a linguagem comum.

Anos mais tarde, o próprio Roman Jakobson, já integrando as discussões do Estruturalismo e da Linguística, refinou essa teorização ao propor o modelo das funções da linguagem. Ele postulou que a comunicação humana se articula em torno de seis elementos: o emissor, o receptor, a mensagem, o contexto, o código e o canal. A cada um desses elementos corresponde uma função linguística predominante. Quando o discurso está centrado no contexto, temos a função referencial, focada na informação objetiva. Quando está centrado no emissor, temos a emotiva. No entanto, quando o foco do discurso se volta inteiramente sobre a própria mensagem, sobre a sua própria construção e organização interna, estamos diante da função poética.

A função poética é a tradução linguística da literariedade. Jakobson explicou que essa função opera projetando o princípio da equivalência do eixo da seleção sobre o eixo da combinação. Trata-se de uma formulação técnica densa, mas que pode ser desmistificada. No cotidiano, quando construímos uma frase, operamos em dois eixos. Primeiro, selecionamos palavras em um estoque de sinônimos (eixo da seleção) e, depois, combinamos essas palavras seguindo as regras gramaticais (eixo da combinação). Na linguagem comum, escolhemos as palavras pela sua adequação ao sentido que queremos transmitir. Na função poética, a seleção é feita não apenas pelo sentido, mas pela equivalência de som, de ritmo, de rima e de métrica. As palavras são combinadas de modo que sua proximidade física no texto gere novos sentidos e sonoridades inesperadas. O plano da expressão caminha de mãos dadas com o plano do conteúdo, de forma indissociável.

É fundamental ressaltar que a literariedade não é uma propriedade fixa, imutável ou uma essência perene que habita certas palavras e abandona outras. O próprio desenrolar da Teoria da Literatura tratou de relativizar e dinamizar o conceito formalista inicial. Com o avanço dos estudos estruturalistas e, posteriormente, com a Estética da Recepção e a Semiótica, compreendeu-se que a literariedade possui um caráter marcadamente histórico, social e institucional. O que funciona como literário em uma determinada época pode perder essa condição em outra, assim como textos originalmente produzidos sem qualquer intenção artística podem passar a ser lidos como literatura devido a uma mudança nos códigos de leitura de uma comunidade.

Pensemos, por exemplo, nas cartas de navegação do período dos descobrimentos ou nos diários de viagem dos cronistas do século XVI. Em sua origem, esses textos possuíam uma função puramente prática, referencial e documental; eram relatórios destinados a reis e investidores. Contudo, ao longo dos séculos, esses mesmos documentos passaram a ser lidos e estudados sob a ótica da historiografia literária, pois passamos a enxergar neles procedimentos narrativos, construções metafóricas e uma densidade retórica que ativam a nossa percepção estética. O estatuto de literariedade, portanto, também é conferido pelo olhar do leitor e pelas convenções da comunidade crítica.

Yuri Tynianov, outro brilhante formalista, já antecipava essa percepção ao tratar a literatura como um sistema dinâmico. Ele percebeu que as formas literárias sofrem um processo inevitável de desgaste e envelhecimento. Um procedimento que hoje provoca estranhamento e desautomatização pode, pelo uso repetido e pela imitação exaustiva, tornar-se ele próprio automatizado e clichê amanhã. Quando uma metáfora se torna desgastada, como a clássica associação entre os cabelos brancos e a neve, ela perde sua literariedade primordial e se transforma em mero automatismo linguístico. Para que a literatura continue viva, o sistema exige uma renovação constante de seus procedimentos, uma nova quebra de expectativas que empurre a linguagem de volta para a zona do estranhamento.

Essa dinâmica nos mostra que a literariedade não reside no vocabulário em si. Não existem palavras inerentemente poéticas ou palavras intrinsecamente prosaicas. O termo mais chulo, a gíria urbana mais efêmera ou o jargão técnico mais árido podem ser elevados à condição de literariedade dependendo da forma como são articulados, friccionados e estruturados dentro do arranjo textual. A literariedade provém da arquitetura do texto, da sintonia fina entre suas partes e do modo como o autor subverte a gramática da obviedade.

A importância desse conceito para a consolidação da Teoria da Literatura como disciplina autônoma não pode ser subestimada. Ao isolar a literariedade como seu objeto de inquérito, a crítica literária rompeu com o amadorismo impressionista que dominava os jornais e as academias. Deixou-se de lado o julgamento meramente subjetivo baseado no "gosto" pessoal ou na busca moralista por uma mensagem edificante. A crítica passou a dispor de ferramentas analíticas precisas para esquadrinhar o texto, demonstrando como as rimas de um soneto de Camões criam uma rede de correspondências semânticas, ou como a fragmentação temporal e o fluxo de consciência em James Joyce ou Virginia Woolf emulam e reconstroem a própria textura da experiência psicológica humana.

Ao longo do pós-estruturalismo, teóricos como Roland Barthes e Jacques Derrida expandiram e tensionaram ainda mais as fronteiras desse debate. Barthes nos alertou para o prazer do texto e para a sua pluralidade constitutiva. A literariedade, sob a ótica barthesiana, está ligada à capacidade que o texto tem de se abrir a múltiplas leituras, de resistir a uma interpretação única e fechada. Um texto utilitário ou informativo é um texto legível: nós o consumimos e extraímos dele um sentido unívoco. Já o texto literário é escrevível: ele exige a participação ativa do leitor na cocriação do sentido, pois suas frestas, suas ironias e suas metáforas impedem o fechamento dogmático do significado.

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