Crítica do filme/DVD - O Babadook (2014)


O terror contemporâneo encontrou na metáfora clínica o seu terreno mais fértil, mas poucos filmes operam essa transição do literal para o psíquico com a precisão cirúrgica de O Babadook (2014), obra de estreia da diretora australiana Jennifer Kent. À primeira vista, o longa se estrutura como uma clássica história de invasão domiciliar por uma força sobrenatural. No entanto, sob as lentes da psicanálise, as paredes cinzentas da casa de Amelia (Essie Davis) não guardam uma assombração exterior, mas sim o colapso de uma psique que se recusa a elaborar o trauma.

O Retorno do Recalcado e o Livro Pop-Up

A trama acompanha Amelia, uma viúva que cria sozinha seu filho Samuel (Noah Wiseman), um garoto cujo comportamento limítrofe e obsessão por monstros testam diariamente os limites da sanidade materna. O estopim do horror se dá pela leitura de um livro infantil misterioso: Mister Babadook.

Na teoria freudiana, o recalque (ou repressão) é o mecanismo que empurra desejos, impulsos ou traumas intoleráveis para o inconsciente. O marido de Amelia morreu em um acidente de carro exatamente a caminho da maternidade. Há sete anos, o nascimento do filho e a morte do companheiro estão fundidos no mesmo nó traumático. Amelia tenta desesperadamente performar a "mãe perfeita", soterrando sua dor, seu luto e, fundamentalmente, o ressentimento inconsciente que nutre pelo próprio filho.

O Babadook é, essencialmente, o retorno do recalcado. O livro não surge do nada; ele se materializa na estante como a literatura do próprio inconsciente da protagonista. A icônica frase do livro resume o mecanismo de defesa que falhou:

"If it's in a word, or if it's in a look, you can't get rid of the Babadook" (Se está em uma palavra, ou em um olhar, você não pode se livrar do Babadook).

Tentar destruir o livro (rasgá-lo, queimá-lo) surte o mesmo efeito que tentar ignorar um sintoma neurótico: ele retorna ainda mais violento, colado com fita adesiva, exigindo ser olhado.

Luto Psicológico vs. Melancolia

Em seu ensaio Luto e Melancolia (1917), Freud diferencia a reação saudável à perda do adoecimento psíquico. No luto normal, o indivíduo passa pelo doloroso processo de desinvestir sua energia do objeto perdido, assimilando a realidade da ausência. Na melancolia (o que hoje chamamos de depressão clínica), o ego se identifica de tal forma com a perda que o mundo se torna pobre e vazio, e o próprio sujeito passa a se autodestruir.

Amelia não vive o luto; ela habita a melancolia. A casa é desprovida de cores quentes, a iluminação é expressionista e claustrofóbica, mimetizando a apatia cinzenta da depressão. As roupas do marido falecido continuam intocadas no porão, a representação física do inconsciente topográfico da casa. O Babadook usa as roupas desse homem e adota a sua voz. O monstro é a projeção da sombra do objeto perdido que caiu sobre o ego de Amelia, transformando-se em uma força punitiva que a priva do sono, da fome e da capacidade de desejar.

A Psicose Coletiva e o "Monstro" Materno

O desfecho do segundo ato flerta diretamente com a psicose (a perda de contato com a realidade). À medida que a privação de sono e a depressão isolam Amelia do laço social, o Babadook a possui. O horror mais profundo do filme não é o medo de que o monstro pegue o garoto, mas o medo tabu de que a mãe destrua o filho.

Sob a influência da criatura, Amelia manifesta o sadismo reprimido: verbaliza que preferia que Samuel tivesse morrido no lugar do pai e tenta estrangulá-lo. O monstro é o veículo que permite a vazão dos impulsos mais sombrios do Id (a instância psíquica dos impulsos primitivos), livre das amarras do Superego (a moralidade social da maternidade).

No entanto, o arco de Samuel é o que ancora a cura. Ele atua como o terapeuta sintomático da mãe. Suas armas caseiras e sua insistência em "proteger a mãe" mostram que a criança sempre soube que o perigo morava dentro da própria dinâmica familiar. Ao abraçar a mãe em fúria e dizer "eu sei que você me ama", Samuel oferece o afeto integrador que quebra o ciclo simbiótico do trauma.

Conclusão: O Porão como Espaço Terapêutico

O grande triunfo de O Babadook está em sua recusa por um final feliz hollywoodiano clássico, optando por uma resolução profundamente clínica. O monstro não é destruído por um exorcismo ou por um ato de coragem física; ele é domesticado.

Diferente do cenário tradicional do terror, onde a ameaça é banida para que a vida volte a uma normalidade absoluta, aqui a resolução exige que o monstro seja reconhecido e realocado. O trauma não é simplesmente superado ou esquecido; o luto é integrado à rotina.

Na cena final, o Babadook é confinado ao porão. Amelia desce até lá para alimentá-lo com minhocas. Ele ainda ruge, ainda assusta, mas perdeu o controle sobre o andar de cima.

Jennifer Kent entrega aqui uma das metáforas mais brilhantes sobre a saúde mental no cinema: a depressão e o trauma não desaparecem magicamente com um estalar de dedos. O tratamento, a análise, consiste em tirar o monstro da sala de estar, levá-lo para o divã do porão e aprender a coexistir com as nossas próprias sombras, alimentando-as apenas o suficiente para que não nos devorem.

Avaliação: ★★★★½ (4.5 / 5)

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Sobre o Autor: Frederico Lima

Doutor em Letras pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB), escritor, pesquisador com trabalhos publicados em periódicos científicos, capítulos de livros e anais de eventos. Possui experiência na editoração digital de revistas científicas.