O conceito de POSIÇÃO ESQUIZO-PARANOIDE para a Psicanálise

 Por Douglas Glass - https://wellcomeimages.org/indexplus/image/L0018518.html archive, CC BY 4.0.

Diferente do conceito de "fase" de desenvolvimento, que sugere uma linearidade cronológica superável, Klein introduz o termo posição para descrever uma constelação de defesas, ansiedades e relações de objeto que persistem ao longo de toda a vida. A posição esquizo-paranoide é a primeira organização da vida mental, emergindo logo após o nascimento e dominando os primeiros meses de vida. Ela é caracterizada pela luta primitiva do ego para lidar com a pulsão de morte e pela utilização de mecanismos de defesa intensos para preservar a integridade do self contra a aniquilação.

Neste estágio inicial, o ego é imaturo e frágil, mas já possui a capacidade de experienciar ansiedade e de estabelecer relações de objeto, ainda que de forma parcial. A ansiedade predominante nesta posição é a ansiedade paranoide (ou persecutória), que surge do medo de que o ego seja destruído por objetos internos ou externos sentidos como malévolos. Para Melanie Klein, o bebê nasce com uma tensão intrínseca entre a pulsão de vida () e a pulsão de morte (). O ego, para se proteger da desintegração causada pela pulsão de morte interna, realiza uma manobra defensiva fundamental: a deflexão da pulsão de morte para fora, projetando-a no objeto.

A Cisão como Mecanismo Estruturante do Objeto Parcial

O conceito de cisão (ou splitting) é o pilar central da posição esquizo-paranoide. Como o ego incipiente não consegue integrar a ambivalência, a ideia de que a mesma mãe que nutre é a que frustra, ele divide o objeto em dois. Surge então o objeto bom e o objeto mau. O seio que alimenta e acalma é introjetado como um seio idealizado, uma fonte de vida e segurança. Por outro lado, o seio que demora a vir, ou que é sentido como ausente durante a fome, é investido com a pulsão de morte projetada do bebê, tornando-se o seio perseguidor.

Essa divisão não ocorre apenas no objeto, mas no próprio ego. Uma parte do ego identifica-se com o objeto bom (idealização), enquanto outra parte é projetada ou isolada para lidar com o objeto mau. A função dessa cisão é puramente defensiva: ao manter o seio bom e o seio mau rigorosamente separados, o bebê protege o seio idealizado da contaminação pelo ódio e pela destrutividade atribuídos ao seio perseguidor. Sem essa separação radical, a ansiedade de que o "bom" seja aniquilado pelo "mau" tornaria a vida psíquica insuportável. É um estado de "preto e branco", onde não há espaço para nuances, gratidão complexa ou culpa, apenas para a necessidade de sobrevivência emocional.

A natureza dessas relações é definida como relação de objeto parcial. O bebê não se relaciona com uma "mãe" como pessoa total, dotada de sentimentos e vida própria, mas sim com partes (o seio, as mãos, o olhar) que são julgadas exclusivamente pela sua capacidade de satisfazer ou frustrar desejos imediatos. O objeto parcial é um objeto de função. Se ele cumpre a função de alívio, é o "tudo"; se falha, é o "inimigo". Esse funcionamento esquizoide, termo que remete à fragmentação e à divisão, é o que dá nome à posição, refletindo a descontinuidade da experiência subjetiva primordial.

Identificação Projetiva e a Dinâmica das Defesas Arcaicas

Além da cisão, a identificação projetiva constitui o mecanismo dinâmico mais sofisticado e violento desta posição. Klein descreve esse processo como a fantasia de projetar partes do self (especialmente as partes "más" ou carregadas de ódio) para dentro do objeto, com o intuito de controlá-lo, possuí-lo ou danificá-lo a partir de dentro. Quando o bebê projeta seu próprio sadismo no seio materno, ele passa a perceber o seio como um agressor sádico. O objeto torna-se então o receptáculo dos aspectos indesejados do ego, o que intensifica a sensação de estar cercado por perseguidores.

A identificação projetiva cria um ciclo de feedback perigoso. Quanto mais o ego projeta sua agressividade, mais o mundo externo é sentido como perigoso, o que, por sua vez, exige mais projeção e mais cisão para manter o controle. Esse mecanismo também serve para a comunicação primitiva: ao projetar um sentimento insuportável na mãe, o bebê "obriga" o cuidador a sentir e processar aquela agonia. Na clínica psicanalítica, isso se manifesta na contratransferência, onde o analista sente pressões intensas emanadas do paciente, que tenta externalizar partes de seu mundo interno fragmentado.

A idealização excessiva surge como o contraponto necessário ao terror persecutório. Para combater o medo dos perseguidores, o bebê infla as qualidades do objeto bom, transformando-o em algo onipotente e infalível. Essa idealização é uma negação da realidade da frustração. Se o objeto é perfeito, o mal não pode alcançá-lo. Entretanto, essa defesa é instável, pois qualquer falha mínima do seio idealizado pode transformá-lo instantaneamente em um perseguidor terrível, provocando uma queda abrupta da exaltação para o pânico. O termo "esquizo-paranoide" captura precisamente essa oscilação entre a fragmentação (esquizo) e o medo de retaliação externa (paranoide).

A Inveja Primária e a Destrutividade do Self

Um dos acréscimos mais polêmicos e profundos de Melanie Klein à teoria da posição esquizo-paranoide é o conceito de inveja primária. Diferente do ciúme, que envolve três pessoas e a disputa por um objeto, a inveja é uma relação dual. É o sentimento irado de que o objeto (o seio) possui algo valioso (o leite, o conforto, a vida) e o retém de forma egoísta. Enquanto a frustração gera ódio pelo objeto mau, a inveja é dirigida ao objeto bom. O bebê invejoso deseja estragar a fonte de bondade para que ela não cause mais o sentimento de inferioridade ou dependência.

A inveja é particularmente destrutiva porque ataca a própria base da segurança do bebê: o objeto idealizado. Se o bebê estraga, através de fantasias sádicas e projetivas, o seio que o alimenta, ele fica sem nada em que confiar. Isso interfere no processo de introjeção estável de um objeto bom, dificultando a transição para a posição seguinte, a posição depressiva. A presença de uma inveja constitucional excessiva torna a cisão mais rígida e menos funcional, pois o ego não consegue encontrar refúgio nem mesmo naquilo que é positivo.

A luta na posição esquizo-paranoide é, portanto, uma busca constante por equilíbrio entre a pulsão de vida e os ataques internos e externos. Quando as experiências de gratificação (o seio bom) superam as experiências de frustração e agressão, o ego ganha força. A introjeção repetida de um objeto bom e estável permite que o ego comece a integrar suas partes cindidas. Aos poucos, a criança percebe que o "perseguidor" e o "ideal" são a mesma pessoa. Esse início de integração marca o declínio da predominância esquizo-paranoide e o nascimento da capacidade de sentir culpa e preocupação pelo objeto, características da posição depressiva. Contudo, os mecanismos paranoide-esquizoides nunca desaparecem totalmente, ressurgindo em situações de crise, trauma ou em patologias graves, como as psicoses e os transtornos de personalidade borderline.

Implicações Clínicas e a Manifestação na Vida Adulta

Na prática clínica, a posição esquizo-paranoide não é vista apenas como um estágio infantil, mas como um modo de funcionamento psíquico. Pacientes que operam predominantemente nesta posição tendem a ver o mundo de forma polarizada: pessoas são "santas" ou "vilãs", ideias são "perfeitas" ou "lixo". Há uma dificuldade enorme em tolerar a ambiguidade e o conflito interno. Quando confrontados com suas próprias falhas, esses indivíduos utilizam a identificação projetiva para culpar o analista ou o mundo externo, evitando o sofrimento da culpa ao transformá-lo em ressentimento paranoide.

O analista, ao lidar com essa posição, deve ser capaz de conter as projeções do paciente (função de reverie ou continente). O objetivo do tratamento não é "curar" a posição esquizo-paranoide, mas permitir que o paciente flexibilize suas defesas e consiga transitar para a posição depressiva, onde a realidade pode ser aceita com mais nuance. A aceitação de que o objeto amado também é o objeto odiado é o passo fundamental para a maturidade emocional. Sem a passagem pelo "fogo" das ansiedades persecutórias da posição esquizo-paranoide, o ego não teria os mecanismos iniciais para se diferenciar do mundo, evidenciando que, apesar de sua natureza angustiante, essa posição é a base necessária para a estruturação de todo o edifício psíquico humano.

A persistência de traços esquizo-paranoides na vida social é observável em fenômenos de massa, como o preconceito e o fanatismo, onde um "grupo externo" é investido de toda a maldade (projeção e cisão) enquanto o "grupo interno" é visto como puramente bom (idealização). Assim, o estudo de Klein ultrapassa o consultório, oferecendo uma lente para compreender a agressividade humana e a resistência à alteridade. A posição esquizo-paranoide é, em última análise, a expressão da fragilidade humana diante da vastidão dos afetos e da inevitável dependência do outro.

Referências Bibliográficas

HINSHELWOOD, Robert D. Dicionário do pensamento kleiniano. 2. ed. Porto Alegre: Artes Médicas, 1992.

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