Sigmund Freud, o pai da psicanálise, descreveu a pulsão como um "conceito-limite" entre o psíquico e o somático. Não se trata meramente de um instinto biológico, mas de uma exigência de trabalho imposta ao aparelho psíquico em razão de sua ligação com o corpo.
A Distinção Fundamental entre Pulsão e Instinto
Um dos erros mais comuns ao estudar a obra freudiana, muitas vezes acentuado por traduções imprecisas, é a confusão entre os termos alemães Instinkt (instinto) e Trieb (pulsão). Embora ambos se refiram a forças motivadoras, suas naturezas são radicalmente distintas.
O instinto pertence ao reino da biologia e da etologia. Ele é hereditário, possui um objeto fixo e uma finalidade pré-determinada para a sobrevivência da espécie. Por exemplo, um animal nasce com o "instinto" de caçar ou de se reproduzir de uma maneira específica; há um padrão de comportamento herdado que é disparado por estímulos ambientais e satisfeito por um objeto biológico específico (alimento, parceiro sexual da mesma espécie).
Já a pulsão é uma construção puramente humana e psíquica. Ela não possui um objeto pré-determinado e não visa apenas a sobrevivência biológica. A pulsão é caracterizada por sua plasticidade e sua natureza incessante. Enquanto a fome (instinto) cessa quando o estômago está cheio, o desejo pulsional nunca é plenamente satisfeito por um objeto real. A pulsão é o que resta quando as necessidades biológicas são atendidas, mas o sujeito continua a "querer algo mais". Ela representa o impacto da cultura e da linguagem sobre o corpo biológico, transformando a necessidade orgânica em desejo psíquico.
Os Quatro Elementos Constitutivos da Pulsão
Para definir a dinâmica da pulsão, Freud isolou quatro componentes essenciais em seu ensaio de 1915, As Pulsões e suas Vicissitudes. Esses elementos ajudam a visualizar como essa "força constante" opera dentro da economia psíquica.
A Pressão (Drang): É o fator motor, a quantidade de força ou a exigência de trabalho que a pulsão representa. A pulsão nunca dorme; ela é uma tensão constante que pressiona o sujeito à ação. É a essência da própria pulsão, definida como uma atividade pura.
A Fonte (Quelle): É o processo somático que ocorre num órgão ou parte do corpo, cujo estímulo é representado na vida mental pela pulsão. Freud localizou essas fontes nas chamadas zonas erógenas (boca, ânus, genitais, pele), mas, em última análise, qualquer parte do corpo pode se tornar uma fonte pulsional.
O Objeto (Objekt): Este é o elemento mais variável da pulsão. O objeto não está originariamente ligado à pulsão; ele é aquilo por meio do qual a pulsão pode atingir sua meta. O objeto pode ser uma pessoa, uma parte do próprio corpo (narcisismo), ou até algo imaterial (conhecimento, arte). O objeto é o que há de mais contingente na pulsão.
A Meta (Ziel): A meta final de toda pulsão é a satisfação. Contudo, essa satisfação consiste no descarregamento da tensão provocada pela pressão pulsional. É importante notar que, na psicanálise, a meta pode ser atingida de formas parciais ou desviadas, como ocorre na sublimação.
A relação entre esses elementos mostra que a pulsão é essencialmente parcial. Ela não nasce "completa", mas fragmentada em torno de diferentes orifícios e funções corporais, o que nos leva à compreensão da sexualidade infantil e da polimorfia perversa constitutiva do ser humano.
A Dualidade Pulsional: Do Princípio do Prazer à Pulsão de Morte
A teoria das pulsões de Freud não foi estática; ela evoluiu conforme os impasses da clínica psicanalítica surgiam. Inicialmente, Freud dividia as pulsões entre Pulsões Sexuais (preservação da espécie/libido) e Pulsões de Autopreservação (pulsões do ego, como a fome).
Entretanto, em 1920, com a obra Além do Princípio do Prazer, Freud introduziu uma mudança radical que divide a psicanálise em "antes e depois": a dualidade entre Eros (Pulsão de Vida) e Tânatos (Pulsão de Morte).
Eros representa a tendência de unir, de criar vínculos, de preservar a vida e a complexidade. É a força que busca a síntese e a coesão. Por outro lado, a Pulsão de Morte descreve uma tendência inerente ao organismo de retornar ao estado inorgânico, de reduzir as tensões a zero e de desmanchar ligações.
A Pulsão de Morte explica fenômenos clínicos difíceis, como a compulsão à repetição (quando o sujeito repete situações traumáticas ou dolorosas), o masoquismo e a reação terapêutica negativa. A vida psíquica é, portanto, o resultado do "amálgama" ou da luta constante entre essas duas forças. Nunca encontramos uma pulsão de morte pura (exceto talvez na destruição absoluta), pois ela está sempre ligada ou mitigada por Eros. Essa tensão dialética é o que confere ao ser humano sua complexidade e sua inerente autodrutividade.
O Destino das Pulsões e a Sublimação
Como a pulsão é uma força constante que exige satisfação, o aparelho psíquico precisa encontrar formas de lidar com essa pressão sem que o sujeito entre em colapso ou sofra repressão excessiva. Freud identifica quatro destinos principais para os impulsos pulsionais: a reversão no seu oposto (ex: sadismo em masoquismo), o retorno em direção ao próprio eu (narcisismo), o recalque (repressão) e a sublimação.
A Sublimação é, talvez, o destino mais nobre da pulsão. Nela, a energia pulsional é desviada de uma meta puramente sexual ou agressiva para objetivos socialmente valorizados, como a produção artística, a investigação intelectual ou o trabalho científico. Na sublimação, a pulsão encontra satisfação sem que haja a necessidade de repressão. O objeto é trocado por um "ideal", mas a pressão (Drang) encontra um escoamento produtivo.
Contudo, é fundamental entender que nem toda pulsão pode ser sublimada. Existe sempre um "resto", um resíduo pulsional que não se traduz em cultura ou linguagem. Esse resto é o que Jacques Lacan chamaria mais tarde de objeto a, o objeto causa de desejo, que mantém o motor do sujeito girando em busca de uma satisfação que, por definição, é impossível de ser totalizada.
A Pulsão na Visão de Lacan: O Circuito e o Objeto Pequeno a
Jacques Lacan, em seu "retorno a Freud", deu uma nova roupagem matemática e linguística ao conceito de pulsão. Para Lacan, a pulsão é fundamentalmente ligada à linguagem. Ele define a pulsão como uma "montagem" ou um circuito.
Diferente do instinto, que vai direto ao objeto para consumi-lo, a pulsão lacaniana faz um trajeto de ida e volta. Ela contorna o objeto. O objetivo da pulsão não é "alcançar" o objeto, mas sim realizar o seu próprio circuito, sair da zona erógena, contornar o objeto e retornar ao corpo. Esse retorno ao corpo produz o que Lacan chama de Gozos (Jouissance), uma satisfação que muitas vezes é vivida como sofrimento pelo ego, mas que alimenta a economia da pulsão.
Nesta perspectiva, o objeto da pulsão é o objeto pequeno a. Este não é um objeto real (como uma maçã ou uma pessoa), mas um vazio, uma falta em torno da qual a pulsão gira. A pulsão é o que conecta o corpo ao campo do Grande Outro (a cultura, a lei, a linguagem). Ela mostra que o desejo humano é sempre o desejo do Outro e que o sujeito está preso em uma repetição circular em busca de algo que ele perdeu no momento em que entrou no mundo da fala.
Ao entender a pulsão dessa maneira, percebemos que ela é a base do que nos torna humanos: seres desejantes, nunca plenamente satisfeitos, constantemente impulsionados a criar, a falar e a repetir, em uma dança complexa entre a vida e a finitude.
Até a próxima! Fiquem bem!
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