Introduzido por Sigmund Freud, inicialmente em suas correspondências com Wilhelm Fliess e sistematizado de forma mais robusta em obras como A Interpretação dos Sonhos (1900) e Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade (1905), o conceito descreve o conjunto organizado de desejos amorosos e hostis que a criança experimenta em relação aos seus pais.
Para compreender o Édipo, é preciso, primeiro, abster-se de uma visão puramente biológica ou sociológica da família e adentrar o campo da fantasia inconsciente. Na psicanálise, o "pai" e a "mãe" não são apenas indivíduos de carne e osso, mas funções e imagos que operam no teatro interno do sujeito. O drama edípico marca a transição do estado de natureza para o estado de cultura, sendo o motor da constituição do Supereu e a base da escolha de objeto na vida adulta.
A gênese do desejo e a triangulação do espaço psíquico
O desenvolvimento do Complexo de Édipo está intrinsecamente ligado à teoria da libido e às fases do desenvolvimento psicossexual. Inicialmente, o bebê vive uma relação dual, narcísica e fusional com a figura cuidadora (geralmente a mãe). Neste estágio pré-edípico, o infante busca ser o falo da mãe, ou seja, o objeto que completa o desejo materno. Não há, ainda, a percepção de uma alteridade radical; o mundo é uma extensão das necessidades pulsionais da criança.
A emergência do Édipo ocorre quando essa dualidade é rompida pela percepção de um terceiro elemento. A criança descobre que a mãe não está voltada exclusivamente para ela; o desejo da mãe aponta para fora, para um "terceiro" que detém o que lhe falta. Esta triangulação é fundamental. O sujeito sai de um regime de completude imaginária para entrar na ordem do desejo, que é, por definição, marcado pela falta.
Freud descreve duas formas do complexo: a forma positiva e a forma negativa. No Édipo positivo, apresenta-se o desejo pela morte do rival do mesmo sexo e o desejo sexual pelo progenitor do sexo oposto. No Édipo negativo, ocorre o inverso: amor pelo progenitor do mesmo sexo e ódio ciumento pelo do sexo oposto. Na clínica, o que se observa é o Complexo de Édipo Completo, uma flutuação ambivalente entre essas duas tendências, onde as identificações e os investimentos libidinais se entrelaçam, revelando a bissexualidade constitutiva do ser humano.
A função paterna e o advento da Lei
Um erro comum é confundir a figura biológica do pai com a Função Paterna. Na metapsicologia freudiana, e posteriormente na releitura lacaniana, o pai é aquele que encarna a Lei da Proibição do Incesto. Ele é o agente da castração simbólica, aquele que intervém na relação simbiótica entre mãe e filho para dizer "não".
Este "não" tem uma função dupla e paradoxal: ao mesmo tempo que proíbe o acesso ao corpo da mãe como objeto de satisfação total, ele libera a criança para buscar seus próprios objetos no mundo social. O pai não proíbe por sadismo, mas como representante de uma ordem cultural preexistente. É através da aceitação desta proibição que o sujeito se submete à linguagem e à cultura.
A eficácia do Complexo de Édipo reside na sua capacidade de organizar a economia pulsional. Sem a intervenção da função paterna, o sujeito corre o risco de permanecer capturado em uma psicose ou em uma perversão, onde o limite entre o Eu e o Outro não se estabelece de forma estável. A "ameaça de castração", que para o menino é o medo da perda do pênis e para a menina é a constatação de sua ausência, funciona como o motor para a renúncia aos desejos incestuosos. É o reconhecimento de uma incompletude que funda a ética do sujeito.
O declínio do complexo e a herança do Supereu
O destino do Complexo de Édipo não é o desaparecimento, mas o seu sepultamento ( Untergang ). Freud utiliza este termo forte para indicar que o complexo não é apenas reprimido, mas idealmente destruído e transformado em estrutura. Quando a criança sucumbe à ameaça de castração e renuncia à posse do objeto primordial, ela internaliza a autoridade parental.
Dessa interiorização nasce o Supereu ( Über-Ich ). O Supereu é o herdeiro do Complexo de Édipo; ele perpetua a proibição do incesto internamente, atuando como uma instância de censura, ideal e consciência moral. As energias libidinais que antes estavam investidas nos pais são dessexualizadas e sublimadas, transformando-se em identificações.
O sucesso desse processo determina a saúde psíquica do indivíduo. Uma resolução incompleta ou mal conduzida do Édipo resulta em fixações que se manifestarão na vida adulta sob a forma de neuroses. O neurótico é aquele que não conseguiu processar plenamente a perda do objeto edípico, permanecendo fixado em fantasias de rivalidade ou dependência infantil. O fim do Édipo marca o início da latência, um período em que as pulsões sexuais são desviadas para fins sociais, educativos e intelectuais, permitindo a inserção do sujeito na civilização.
A particularidade feminina e o enigma do pré-edípico
Freud admitiu que sua teoria inicial do Édipo era excessivamente focada na trajetória masculina (o "monismo fálico"). Ao analisar o Complexo de Édipo Feminino, ele encontrou complexidades adicionais que o levaram a reformular parte de sua teoria em ensaios como Feminilidade (1933).
Para a menina, o Édipo exige uma mudança de objeto e uma mudança de zona erógena. Enquanto o menino mantém a mãe como primeiro objeto de desejo, a menina precisa trocar seu investimento libidinal original (a mãe) pelo pai. Essa transição é mediada pelo complexo de castração e pelo que Freud denominou Penisneid (inveja do pênis), um conceito frequentemente mal compreendido como inferioridade biológica, mas que na psicanálise refere-se ao pênis como símbolo de poder e privilégio fálico.
A relação pré-edípica da menina com a mãe é marcada por uma ambivalência intensa e prolongada. A descoberta da diferença anatômica entre os sexos leva a menina a culpar a mãe por tê-la enviado ao mundo "insuficientemente equipada". O afastamento da mãe em direção ao pai é uma tentativa de obter dele o falo (frequentemente simbolizado pelo desejo de ter um filho do pai). Essa trajetória tortuosa faz com que o Édipo feminino seja menos "explosivo" e mais duradouro que o masculino, influenciando de maneira distinta a formação do Supereu feminino, que Freud teorizou ser menos rígido, embora esta visão tenha sido amplamente debatida e refinada por analistas posteriores, como Melanie Klein e Karen Horney.
A universalidade estrutural e a clínica contemporânea
Embora o modelo de "família nuclear burguesa" de Viena do século XIX tenha mudado drasticamente, a psicanálise sustenta a universalidade estrutural do Complexo de Édipo. Isso ocorre porque o Édipo não depende de uma configuração biológica específica, mas da necessidade de introduzir uma alteridade no campo do desejo do sujeito. Em famílias monoparentais, reconstituídas ou homoafetivas, as funções (materna, paterna e o lugar da criança) continuam operando.
Na clínica contemporânea, o Complexo de Édipo é o mapa que permite ao analista situar onde o desejo do paciente está "engatado". Através da transferência, o analisando reedita seus conflitos edípicos com a figura do analista, permitindo que os afetos de amor, ódio e rivalidade sejam revividos e, desta vez, elaborados simbolicamente.
O Édipo, dessa forma, é a tragédia que todo ser humano é convocado a encenar. Ele representa o sacrifício da satisfação pulsional imediata em troca do acesso ao mundo da linguagem, da alteridade e da lei. Como Sófocles ilustrou e Freud sistematizou, a tentativa de ignorar as coordenadas do nosso desejo inconsciente, ou de fugir da "verdade" do nosso lugar na genealogia, é o que nos conduz ao sofrimento neurótico. A análise não visa eliminar o Édipo, mas permitir que o sujeito escreva sua própria versão da história, não mais como um destino cego, mas como uma escolha subjetiva.
Até a próxima! Fiquem bem!
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