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Como a formação em psicanálise contribui para a clínica de casos de transtornos de ansiedade grave?

A ansiedade grave, em suas múltiplas manifestações clínicas (ataques de pânico, fobias incapacitantes, ansiedade generalizada severa, quadros obsessivos intensos, entre outros) constitui um dos desafios mais complexos da prática clínica contemporânea. Embora a psiquiatria e as abordagens cognitivo-comportamentais tenham desenvolvido protocolos eficazes para manejo sintomático, a psicanálise oferece uma via distinta, centrada na compreensão profunda da subjetividade, dos conflitos inconscientes e das formas singulares pelas quais cada sujeito organiza sua relação com o desejo, o corpo e o outro. A formação psicanalítica, nesse contexto, não se limita a transmitir técnicas: ela transforma o olhar clínico, amplia a capacidade de escuta e sustenta uma ética que permite trabalhar com o sofrimento psíquico em sua dimensão mais radical.

A escuta psicanalítica como ferramenta para acessar a lógica singular do sintoma ansioso

A formação em psicanálise coloca a escuta no centro da prática clínica. Não se trata de ouvir apenas o conteúdo manifesto do discurso, mas de captar suas falhas, repetições, lapsos, silêncios e contradições. A ansiedade grave, frequentemente vivida pelo paciente como um fenômeno caótico e sem sentido, ganha outra dimensão quando o analista se dispõe a escutar o que nela se articula como mensagem.

A ansiedade, para a psicanálise, não é apenas um excesso fisiológico ou uma resposta desregulada do sistema nervoso. Ela é um afeto que surge quando o sujeito se confronta com algo que escapa ao controle consciente, um desejo recalcado, uma fantasia ameaçadora, uma perda simbólica, uma angústia de separação, ou mesmo a irrupção do real que não encontra representação. A formação psicanalítica prepara o clínico para reconhecer essas camadas e para não se precipitar em interpretações ou intervenções diretivas que poderiam reforçar defesas ou intensificar o sofrimento.

A escuta psicanalítica permite:

  • Identificar a função do sintoma: a ansiedade pode operar como defesa contra algo ainda mais angustiante; compreender isso evita intervenções precipitadas.
  • Acompanhar o sujeito na construção de sentido: o paciente passa a localizar a origem de seu mal-estar em sua história, em suas relações e em seus conflitos internos.
  • Criar um espaço onde o indizível pode emergir: muitas vezes, a ansiedade grave está ligada a experiências traumáticas ou a fantasias que o sujeito nunca pôde simbolizar.

Essa escuta, que exige formação rigorosa e análise pessoal, é uma das contribuições mais valiosas da psicanálise para o tratamento da ansiedade grave.

A compreensão do inconsciente e dos mecanismos de defesa na estruturação da ansiedade

A formação psicanalítica oferece ao clínico um repertório teórico robusto para compreender como a ansiedade se articula com mecanismos inconscientes. Freud já apontava que a ansiedade é um sinal de que algo recalcado ameaça retornar, e que o ego mobiliza defesas para evitar esse retorno. Em quadros graves, essas defesas podem se tornar rígidas, ineficazes ou paradoxalmente geradoras de mais ansiedade.

O analista, ao compreender esses mecanismos, pode trabalhar com eles de forma cuidadosa e estratégica. Por exemplo:

  • Recalque e retorno do recalcado: conteúdos intoleráveis são expulsos da consciência, mas retornam sob a forma de sintomas ansiosos.
  • Projeção: o sujeito atribui ao mundo externo perigos que pertencem ao seu mundo interno, gerando fobias ou medos difusos.
  • Formação reativa: comportamentos excessivamente controlados ou moralistas podem mascarar impulsos que geram ansiedade.
  • Deslocamento: a ansiedade é transferida para objetos ou situações aparentemente desconectados da causa original.
  • Clivagem e dissociação: em casos mais graves, partes da experiência psíquica são isoladas para evitar colapso emocional.

A formação psicanalítica permite ao clínico reconhecer esses movimentos sem julgá-los, compreendendo-os como tentativas do psiquismo de lidar com conflitos internos. Essa compreensão evita que o terapeuta interprete a ansiedade apenas como disfunção ou fraqueza, e permite que ele ajude o paciente a reconstruir modos mais integrados de lidar com suas emoções.

Além disso, a psicanálise oferece ferramentas para trabalhar com a transferência e a contratransferência, elementos fundamentais na clínica da ansiedade grave. Pacientes ansiosos frequentemente projetam no analista expectativas de proteção, medo de abandono, desconfiança ou idealização. A formação psicanalítica prepara o clínico para sustentar essas projeções sem agir impulsivamente, transformando-as em material de trabalho.

A ética da psicanálise como sustentação para o manejo de crises e intensidades emocionais

A ansiedade grave frequentemente se manifesta em crises intensas, ataques de pânico, sensação de despersonalização, medo de enlouquecer ou de morrer. Para o paciente, esses episódios são vividos como ameaças reais e imediatas. A formação psicanalítica oferece ao clínico uma ética que o ajuda a sustentar esses momentos sem se deixar capturar pela urgência aparente do sintoma.

Essa ética se expressa em vários aspectos:

  • Não ceder ao apelo de oferecer soluções rápidas: embora tentador, isso pode reforçar a dependência e impedir o sujeito de elaborar suas próprias respostas.
  • Manter a posição de analista mesmo diante da angústia extrema: o clínico não se torna amigo, conselheiro ou salvador; ele permanece como alguém que escuta e interpreta.
  • Respeitar o tempo do sujeito: a ansiedade grave muitas vezes está ligada a traumas ou conflitos profundos que não podem ser abordados de forma brusca.
  • Evitar interpretações invasivas: em momentos de crise, interpretações precipitadas podem aumentar a angústia.
  • Sustentar o enquadre: horários, frequência e regras do setting oferecem ao paciente uma estrutura que ajuda a conter a ansiedade.

Essa ética não é apenas um conjunto de normas; ela é resultado da própria formação do analista, que passa por sua análise pessoal e por supervisão clínica. Isso o capacita a reconhecer seus próprios limites, ansiedades e reações, evitando que interfiram no tratamento.

A formação psicanalítica como caminho para compreender a história do sujeito e sua relação com o corpo

A ansiedade grave não é apenas um fenômeno mental; ela se manifesta no corpo de forma intensa: taquicardia, sudorese, tremores, falta de ar, dores, tensões musculares, sensação de desmaio, entre outros. A psicanálise, desde Freud, reconhece que o corpo é palco de inscrições psíquicas. A formação psicanalítica permite ao clínico compreender como o corpo fala quando a palavra falha.

Essa compreensão é essencial em casos graves, pois:

  • O corpo pode expressar conflitos que o sujeito não consegue simbolizar.
  • A ansiedade pode ser uma resposta a experiências precoces de desamparo.
  • O corpo pode carregar marcas de traumas não elaborados.
  • A relação com o corpo pode estar atravessada por fantasias inconscientes de punição, controle ou ameaça.

A formação psicanalítica também prepara o clínico para trabalhar com a história do sujeito de forma não linear. Em vez de buscar causas diretas ou eventos específicos, o analista acompanha o paciente na reconstrução de sua narrativa, permitindo que ele encontre sentidos antes inacessíveis. Isso é especialmente importante na ansiedade grave, onde o sujeito muitas vezes sente que “não sabe por que está assim”.

Ao longo do processo analítico, o paciente pode:

  • Reconhecer padrões repetitivos em suas relações.
  • Identificar expectativas inconscientes que alimentam a ansiedade.
  • Compreender como experiências infantis moldaram sua forma de lidar com o mundo.
  • Construir novas formas de simbolizar o que antes era vivido apenas como ameaça corporal.

Essa reconstrução subjetiva não elimina a ansiedade de forma mágica, mas transforma sua função e reduz seu poder paralisante.

A psicanálise como espaço de elaboração e transformação subjetiva em casos de ansiedade grave

Por fim, a formação psicanalítica capacita o clínico a oferecer um espaço onde o sujeito pode transformar sua relação com a ansiedade. Em vez de tentar eliminá-la, o que muitas vezes é impossível ou contraproducente, a psicanálise busca compreender o que ela revela sobre o sujeito e como ele pode reorganizar sua vida psíquica a partir dessa compreensão.

Essa transformação ocorre de várias maneiras:

  • A ansiedade deixa de ser vivida como ameaça absoluta e passa a ser reconhecida como sinal de algo que precisa ser elaborado.
  • O sujeito aprende a nomear suas emoções, desejos e medos, reduzindo a sensação de caos interno.
  • A análise permite que o paciente se aproprie de sua história, em vez de ser dominado por ela.
  • A relação transferencial oferece um laboratório para experimentar novas formas de se relacionar com o outro.
  • O sujeito desenvolve maior tolerância à frustração, à incerteza e ao desconhecido, fatores centrais na ansiedade grave.

A formação psicanalítica, ao enfatizar a singularidade, a profundidade e a complexidade da experiência humana, oferece ao clínico ferramentas para acompanhar o paciente em um processo de transformação que vai além do alívio sintomático, permitindo que o tratamento da ansiedade grave seja não apenas um manejo de crises, mas um caminho de reconstrução subjetiva.

 
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