A figura de linguagem APÓSTROFE

A apóstrofe é uma figura de linguagem que consiste na interpelação direta e emotiva de algo ou alguém, real ou imaginário. É um chamamento, um vocativo enfático, feito geralmente com paixão, súplica ou indignação.

Basicamente, é quando o orador ou escritor interrompe o discurso para se dirigir diretamente a:

  • Pessoas (presentes ou ausentes).

  • Seres inanimados (objetos, paisagens, elementos da natureza).

  • Conceitos abstratos (justiça, amor, tempo, saudade).

  • Divindades.

Uso e Pontuação

A apóstrofe é marcada gramaticalmente pelo uso do vocativo, frequentemente isolado por vírgulas ou seguido por um ponto de exclamação, dependendo da intensidade da emoção.

O "Ó" interjetivo é muito comum antes do termo que está sendo interpelado, mas não é obrigatório.

Exemplos Comuns de Apóstrofe

Veja como a apóstrofe é aplicada:

  1. Interpelando uma Divindade/Conceito:

    • "Ó, Tempo, volta e apaga a memória da dor!"

    • "Deus, por que me abandonaste neste momento?"

  2. Interpelando Seres Inanimados/Natureza:

    • "Mar, espelho do meu pranto, reflete a minha tristeza!"

    • "Ó, Noite amiga, acolhe a minha solidão."

  3. Interpelando Pessoas (em um discurso retórico):

    • "Cidadãos, porventura vos esquecestes de vossas promessas?"

    • "Mãe querida, perdoa-me por tudo que te fiz."

Em resumo, a apóstrofe quebra o fluxo normal da narrativa ou argumento para fazer um apelo direto, intensificando a carga emocional da mensagem.

A figura de linguagem PERÍFRASE

A perífrase é uma figura de linguagem que consiste em substituir um nome próprio, um ser, um lugar ou um objeto por uma expressão ou frase longa que o caracterize de forma inconfundível.

Em outras palavras, em vez de usar o nome direto, você utiliza uma volta de palavras (uma circunlóquio) para se referir a ele, destacando uma de suas características mais notórias.

Uso e Objetivo

O principal objetivo da perífrase é:

  • Evitar a repetição de nomes próprios no texto, tornando-o mais elegante.

  • Enfatizar ou destacar uma qualidade ou um atributo famoso da pessoa ou do lugar em questão.

  • Enriquecer a expressão, mostrando um conhecimento cultural compartilhado.

Exemplos Comuns de Perífrase

A perífrase é muito comum quando se refere a figuras históricas, geográficas ou conceitos culturais:

Perífrase (Volta de Palavras)Nome/Lugar Direto (Referência)Característica Destacada
"O Rei do Futebol"PeléSua importância no esporte.
"A Cidade Luz"ParisSeu apelido famoso.
"O Astro-Rei"O SolSeu brilho e centralidade.
"O Poeta dos Escravos"Castro AlvesSeu tema principal.
"A Terra da Garoa"São PauloSua característica climática.
"O Leão da Terra"O Fisco / A Receita FederalSua natureza de cobrar impostos (simbolismo).
"O Pai da Aviação"Santos DumontSua invenção notória.

A perífrase depende de que o leitor ou ouvinte conheça a referência para que a figura de linguagem seja eficaz.

A figura de linguagem PARADOXO

A paradoxo é uma figura de linguagem que consiste na apresentação de ideias que se contradizem no plano lógico, mas que, quando colocadas juntas, carregam um sentido profundo, expressivo ou inusitado.

Diferente da antítese (que usa ideias opostas que podem coexistir, como "luz e sombra"), o paradoxo junta ideias que são aparentemente absurdas ou ilógicas para criar uma nova percepção.

Exemplo e Sentido

O paradoxo força o leitor a ir além da interpretação literal, buscando um sentido figurado ou metafórico na contradição.

Um dos exemplos mais famosos da literatura em língua portuguesa é o verso de Luís Vaz de Camões:

"Amor é fogo que arde sem se ver; / É ferida que dói e não se sente;"

A análise da contradição:

  • Fogo que arde sem se ver: O fogo, por natureza, é visível. A contradição aponta para a natureza interior e invisível da paixão.

  • Ferida que dói e não se sente: Uma ferida que dói é, por definição, sentida. O paradoxo sugere que a dor do amor é uma dor da alma, não física.

Outros Exemplos Comuns de Paradoxo

Veja outros exemplos que evidenciam a contradição ilógica:

  1. "Ele é um ausente presente em minha vida."

    • Como alguém pode estar presente e ausente ao mesmo tempo? (Sentido: A pessoa está fisicamente longe, mas constantemente lembrada.)

  2. "Para ganhar a vida, é preciso perdê-la um pouco."

    • Perder a vida para ganhá-la é uma contradição. (Sentido: Para ter uma vida plena e feliz, é preciso se dedicar e abrir mão de alguns prazeres ou desejos imediatos.)

  3. "O silêncio era ensurdecedor."

    • O silêncio (ausência de som) não pode ensurdecer. (Sentido: O silêncio era tão absoluto e profundo que se tornou perturbador ou notável como um barulho.)

  4. "O ódio é uma guerra fria."

    • Uma guerra, por natureza, é quente, ativa. (Sentido: O ódio é um conflito passivo e silencioso, mas destrutivo.)

Antítese vs. Paradoxo

Figura de LinguagemRelação das IdeiasConsequência
AntíteseOpostas (claro/escuro)Coexistência lógica e separada.
ParadoxoContraditórias (fogo que não se vê)Contradição ilógica que gera um novo sentido expressivo.

A figura de linguagem PROSOPOPEIA

A prosopopeia (também conhecida como personificação ou animismo) é uma figura de linguagem que consiste em atribuir características, ações ou sentimentos humanos a seres inanimados, animais ou conceitos abstratos.

Em outras palavras, ela dá vida, voz e emoção a algo que não é humano.

Objetivo e Uso

O principal objetivo da prosopopeia é:

  • Humanizar objetos ou conceitos, tornando-os mais vívidos e expressivos.

  • Facilitar a compreensão de ideias abstratas ao associá-las a ações concretas.

  • Enriquecer o texto, sendo amplamente usada em fábulas, poemas e obras literárias em geral.

Exemplos Comuns de Prosopopeia

Veja como a prosopopeia é aplicada em frases:

  1. "O vento sussurrava segredos nas árvores."

    • Sussurrar (ação humana) é atribuído ao vento (ser inanimado).

  2. "O sol sorriu para a manhã que começava."

    • Sorrir (ação humana) é atribuído ao sol (ser inanimado).

  3. "A saudade rasgava o meu peito."

    • Rasgar (ação humana) é atribuído à saudade (conceito abstrato).

  4. "As flores dançavam com a brisa da tarde."

    • Dançar (ação humana) é atribuído às flores (seres inanimados).

  5. "A notícia correu pela cidade em segundos."

    • Correr (ação humana) é atribuído à notícia (conceito abstrato).

Em todos esses casos, a figura de linguagem cria uma imagem expressiva ao emprestar qualidades humanas a elementos não humanos.

A figura de linguagem HIPÉRBOLE

A hipérbole é uma figura de linguagem que consiste no uso intencional de exagero para expressar uma ideia, um sentimento, ou uma situação de forma muito mais intensa do que a realidade.

O objetivo é causar um grande impacto ou ênfase no que está sendo comunicado.

Uso e Objetivo

A hipérbole é comumente utilizada tanto na linguagem cotidiana quanto na literatura (principalmente em textos humorísticos ou líricos) para:

  • Enfatizar uma qualidade ou um acontecimento.

  • Expressar emoções fortes (como dor, alegria, cansaço ou surpresa).

  • Criar um efeito dramático ou cômico.

Exemplos Comuns de Hipérbole

Muitas expressões hiperbólicas já fazem parte do nosso dia a dia:

  1. "Estou morrendo de fome."

    • Exagero para dizer que a pessoa está com muita fome.

  2. "Ele chorou rios de lágrimas."

    • Exagero para indicar que a pessoa chorou muito.

  3. "Esperei por você um século."

    • Exagero para expressar que a espera foi muito longa.

  4. "Eu já te falei um milhão de vezes!"

    • Exagero para indicar que repetiu a informação muitas vezes.

  5. "O sol estava rachando de quente."

    • Exagero para expressar que a temperatura estava extremamente alta.

A hipérbole, portanto, não deve ser interpretada literalmente, mas sim como um recurso de intensificação da mensagem.

A figura de linguagem GRADAÇÃO

A gradação é uma figura de linguagem que consiste na apresentação de ideias em uma sequência progressiva, seja ela ascendente (do menor para o maior, do mais fraco para o mais forte) ou descendente (do maior para o menor, do mais forte para o mais fraco).

Ela cria um efeito de intensidade ou atenuação, dando um ritmo crescente ou decrescente à expressão.

Tipos de Gradação

A gradação pode se manifestar de duas formas principais:

1. Gradação Ascendente (Clímax)

É a progressão de ideias que vão aumentando em intensidade. O ponto final é o ápice ou o clímax.

  • Exemplo: "Nasci, cresci e morri." (Sequência de eventos aumentando em importância cronológica.)

  • Exemplo: "Primeiro foi uma dúvida, depois uma certeza, e, por fim, uma convicção inabalável."

2. Gradação Descendente (Anticlímax)

É a progressão de ideias que vão diminuindo em intensidade ou força.

  • Exemplo: "O vento forte se tornou uma brisa, um sussurro e, depois, calmaria total."

  • Exemplo: "Começou com um grito, passou a um murmúrio e terminou em silêncio."

Objetivo da Gradação

O principal objetivo da gradação é:

  • Intensificar ou atenuar o sentido da mensagem.

  • Prender a atenção do leitor ou ouvinte através da construção de um momento de ápice (clímax) ou de relaxamento (anticlímax).

  • Organizar as ideias de forma lógica e expressiva, mostrando a evolução de um processo ou sentimento.

A figura de linguagem EUFEMISMO


A
eufemismo é uma figura de linguagem que consiste em suavizar ou atenuar uma ideia, palavra ou expressão considerada desagradável, chocante, rude, violenta ou ofensiva.

Em essência, ela substitui um termo direto por um mais brando, elegante ou eufônico (que soa bem).

Objetivo e Uso

O principal objetivo do eufemismo é evitar o impacto negativo da linguagem. É usado frequentemente para tratar de assuntos tabus, como morte, deficiências, pobreza, desemprego ou atos criminosos.

Exemplos Comuns de Eufemismo

Veja como o eufemismo é aplicado na prática:

Expressão Direta (Desagradável)Expressão Eufemística (Suavizada)
Ele morreu.Ele faleceu, partiu, descansou em paz, ou entregou a alma a Deus.
Ele roubou dinheiro.Ele se apropriou indevidamente dos fundos, ou desviou dinheiro.
Ela é feia.Ela não é dotada de beleza.
Ele é mentiroso.Ele faltou com a verdade.
Ele está desempregado.Ele está em busca de uma recolocação profissional.
Ele é pobre.Ele é uma pessoa menos favorecida ou humilde.
Ele está bêbado.Ele bebeu demais ou está com o copo na mão.

A figura de linguagem ANTÍTESE

A antítese é uma figura de linguagem que consiste no emprego de palavras ou ideias de sentidos opostos em uma mesma frase, verso ou parágrafo, sem que haja contradição lógica.

O objetivo da antítese é realçar a oposição e o contraste entre os conceitos, dando mais força e expressividade à ideia.

Diferença para o Paradoxo

É comum confundir antítese com paradoxo (ou oxímoro), mas eles têm uma diferença sutil e importante:

Figura de LinguagemCaracterísticaExemplo
AntíteseOposição de palavras ou ideias que podem coexistir logicamente."Eu sou a luz e você é a sombra." (Luz e sombra são opostas, mas podem existir no mesmo lugar/momento).
ParadoxoOposição de ideias que geram um absurdo ou uma contradição lógica no sentido."Fogo de amor que arde sem se ver." (Como um fogo pode arder sem ser visto? Contradição).

Exemplos Comuns de Antítese

Veja a aplicação da antítese em frases e versos:

  1. "O dia era claro, mas a noite escura."

    • Oposição entre: dia × noite e claro × escura.

  2. "Estou entre o bem e o mal, a vida e a morte."

    • Oposição entre: bem × mal e vida × morte.

  3. "A alegria da vitória é tão intensa quanto a tristeza da derrota."

    • Oposição entre: alegria × tristeza e vitória × derrota.

A figura de linguagem SINESTESIA


A sinestesia é uma figura de linguagem que consiste na mistura ou cruzamento de diferentes sentidos humanos em uma única expressão.

Em outras palavras, ela atribui uma percepção que é típica de um sentido (como a visão, o olfato, o paladar, a audição ou o tato) a outro sentido.

Exemplos Comuns de Sinestesia

A sinestesia é frequentemente usada na literatura, especialmente na poesia, para criar imagens mais ricas e sensoriais.

Veja alguns exemplos:

  • "Perfume doce e macio."

    • Doce refere-se ao paladar; macio refere-se ao tato. O olfato (perfume) é descrito com sensações de outros sentidos.

  • "O grito áspero da multidão."

    • Grito refere-se à audição; áspero refere-se ao tato. A sensação tátil é usada para descrever a auditiva.

  • "Sons claros e brilhantes."

    • Sons refere-se à audição; claros e brilhantes referem-se à visão. A audição é descrita com qualidades visuais.

  • "A cor quente do pôr do sol."

    • Cor refere-se à visão; quente refere-se ao tato.

O objetivo da sinestesia é intensificar a experiência sensorial e evocar uma sensação mais profunda e incomum no leitor ou ouvinte.

O que é CHISTE (Witz) para a psicanálise?

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O chiste, em alemão Witz, é um dos conceitos mais fascinantes e reveladores da psicanálise freudiana, sendo uma das chamadas "formações do inconsciente", ao lado dos sonhos e dos atos falhos. Em sua obra seminal de 1905, "O Chiste e Sua Relação com o Inconsciente", Sigmund Freud o eleva de uma simples piada ou gracejo a um complexo fenômeno psíquico e social, demonstrando que ele partilha a mesma origem e mecanismos de funcionamento do sonho. Para a psicanálise, o chiste não é apenas algo engraçado; é uma engenhosa via de escape que permite ao sujeito liberar tensões e expressar desejos ou pensamentos que seriam, de outra forma, severamente reprimidos ou censurados pela consciência ou pela moral social.

A característica central do chiste reside em sua técnica e na economia de gasto psíquico que ele proporciona. A técnica de elaboração do chiste é notavelmente similar à do sonho, utilizando mecanismos como a condensação (a fusão de duas palavras ou ideias em um neologismo, como no famoso exemplo freudiano do "familionário", que combina "familiar" e "milionário") e o deslocamento (a transferência de ênfase ou sentido de um elemento para outro). Essa astúcia linguística permite que um pensamento, muitas vezes agressivo, obsceno ou cínico, seja revestido de um verniz de comicidade, driblando a censura do Super-eu. A satisfação obtida com o chiste vem, primeiramente, da economia de esforço psíquico que seria necessário para manter o conteúdo reprimido. O riso, nesse contexto, é a descarga da energia que não precisou ser utilizada para manter a repressão, um prazer de liberação.

Freud distingue entre os chistes inocentes e os chistes tendenciosos. Os chistes inocentes, ou não tendenciosos, buscam prazer na mera técnica verbal e na astúcia intelectual, no jogo com as palavras e os pensamentos. Já os chistes tendenciosos possuem um propósito mais profundo: eles servem ao desejo, seja ele de natureza agressiva/hostil (como o sarcasmo ou a zombaria) ou obscena/sexual. É nesses chistes que o conteúdo inconsciente se manifesta de forma mais nítida, embora disfarçada. Um dito espirituoso que ridiculariza uma figura de autoridade ou que aborda um tema sexual "proibido" permite uma satisfação substitutiva de tendências que o indivíduo não ousaria manifestar abertamente no discurso cotidiano.

Além de sua função interna, o chiste possui um caráter inerentemente social. Diferentemente do humor, que pode ser fruído a sós, o chiste requer uma audiência; ele precisa de, no mínimo, uma segunda pessoa (o ouvinte) para ser realizado. O chiste cria um laço social, uma cumplicidade entre o proponente e o ouvinte, que ri e, assim, compartilha e valida o prazer da quebra da censura. É preciso "ser da paróquia" para rir de um chiste, o que significa que o riso depende de um substrato cultural e de repressões compartilhadas, cuja suspensão momentânea é o que gera a satisfação. Em um contexto clínico, o chiste do paciente pode ser uma valiosa pista para o analista, revelando, de soslaio, temas e conflitos inconscientes que o sujeito se sente inseguro em trazer à tona de forma direta, funcionando como um breve e relâmpago atalho para o inconsciente.

Sugestão de leitura sobre essa temática

O chiste e sua relação com o inconsciente

O livro investiga as fontes inconscientes do prazer que sentimos com gracejos, piadas, trocadilhos etc. A característica principal de um chiste não se acha em seu conteúdo, mas em sua técnica: o pensamento é condensado por meio de uma palavra modificada, como quando um pobre coitado diz: "Rothschild me tratou como um igual, de modo bem "familionário" (juntando "familiar" e "milionário")". Processos similares ocorrem nos sonhos, mas, à diferença destes, os chistes requerem uma audiência, têm uma função social. Eles geram uma "economia do gasto psíquico", ao permitir que obtenhamos prazer de assuntos reprimidos. Brincando, podemos dizer as coisas mais sérias.

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Quem foi JOSEF BREUER e qual a sua importância para a Psicanálise?

Josef Breuer

A história da psicanálise, embora indissociavelmente ligada ao nome de Sigmund Freud, tem sua gênese nas obras e descobertas de Josef Breuer (1842–1925), um médico e fisiologista austríaco cuja contribuição inicial foi fundamental para pavimentar o caminho das futuras teorias do inconsciente. Nascido em Viena em 15 de janeiro de 1842, Breuer foi criado por sua avó materna após a morte prematura de sua mãe, enquanto seu pai, Leopold Breuer, era professor de religião na comunidade judaica de Viena. Após completar o Ginásio Acadêmico, decidiu-se pela carreira médica, diplomando-se em 1867. Sua formação sólida e seu interesse pela pesquisa o mantiveram na Universidade de Viena como assistente de Johann Oppolzer até 1871.

Apesar de ter deixado a pesquisa universitária para se dedicar à clínica em 1871, Josef Breuer demonstrou ser um dos mais eminentes fisiologistas do século XIX. Sua carreira científica produziu cerca de 20 trabalhos importantes em fisiologia nervosa. Em 1868, em colaboração com Ewald Hering, ele publicou seu primeiro trabalho de relevância, demonstrando a natureza reflexa da respiração, um mecanismo autônomo do sistema nervoso dos mamíferos que hoje é conhecido como reflexo de Hering-Breuer. Pouco depois, em 1873, voltando sua atenção para a fisiologia do aparelho auditivo, ele fez uma descoberta notável ao elucidar a função dos canais semicirculares do ouvido interno e sua relação com a sensação de equilíbrio do corpo, solidificando sua reputação científica.

O momento que mudaria o curso da história da medicina e da psicologia ocorreu no início da década de 1880, por meio do tratamento de uma paciente que se tornaria famosa na literatura psicanalítica sob o pseudônimo de Anna O. O nome verdadeiro da jovem, Bertha Pappenheim, era uma mulher de 21 anos que apresentava um quadro complexo de depressão e nervosismo, repleto de diversos sintomas histéricos, como paralisias intermitentes, distúrbios visuais, contraturas musculares, perda de sensibilidade e a incapacidade temporária de falar seu idioma nativo, o alemão.

Em 1880, Breuer descobriu acidentalmente que, ao induzir a paciente a relatar sob hipnose as experiências traumatizantes que havia sofrido, especialmente as relacionadas à morte de seu pai, os sintomas podiam ser aliviados. A própria Bertha Pappenheim apelidou o tratamento de "cura pela conversa" (talking cure) ou de "limpeza de chaminé" (chimney sweeping). Breuer, estimulando a paciente a falar sem rodeios, percebeu que a hipnose poderia ser gradualmente dispensada se a conversa fosse habilmente conduzida para provocar a recordação das vivências mais difíceis. Ele descobriu que os sintomas histéricos eram conexões simbólicas com recordações dolorosas que haviam sido reprimidas, e que ao trazer esses processos inconscientes à consciência, eles desapareciam. A esse processo de descarga emocional e alívio de sintomas pela revivência do trauma, Breuer deu o nome de catarse.

Contudo, a profundidade do caso de Anna O. revelou a Breuer o principal problema do método que acabara de inventar: os fenômenos de transferência e contratransferência, termos que seriam subsequentemente conceituados e desenvolvidos por Freud. A intensidade do interesse de Breuer por Bertha, que culminou em uma forte atração mútua, gerou uma crise matrimonial que o forçou a interromper o tratamento. O episódio se encerrou dramaticamente quando Bertha enviou um chamado falso, dizendo-se grávida e em trabalho de parto, um último e desesperado ato de transferência que levou Breuer a se afastar definitivamente da paciente e a viajar com a esposa para restaurar a vida conjugal.

Dessa experiência, Breuer extraiu a conclusão científica de que os sintomas neuróticos eram o resultado de processos inconscientes. Embora não quisesse continuar a prática terapêutica inovadora nem publicar de imediato seus achados, ele compartilhou seu método e suas conclusões com seu jovem colega e amigo, Sigmund Freud. Essa parceria intelectual resultou em um artigo conjunto em 1893 e, dois anos depois, no livro seminal "Estudos sobre a Histeria" (Studien über Hysterie, 1895). Este livro, que detalhava o caso de Anna O. e outros casos tratados por Freud, é universalmente considerado o marco inicial da psicanálise.

Apesar de ter sido o catalisador do novo campo, a parceria entre Breuer e Freud foi interrompida devido a uma divergência central. Breuer não aceitava o crescente ponto de vista de Freud de que as recordações infantis de sedução relatadas pelas pacientes eram reais; ele insistia que eram fantasias infantis. Breuer, que havia sido alvo de críticas dolorosas por parte de seus colegas vienenses após a publicação dos "Estudos sobre a Histeria", não seguiu o caminho das modificações introduzidas por Freud, mantendo-se fiel à técnica de catarse sem adotar a ênfase na etiologia sexual da neurose. Mais tarde, o próprio Freud reconheceria que Breuer estava certo ao contestar o caráter universalmente real dos traumas de sedução.

Josef Breuer faleceu em Viena em 20 de junho de 1925, deixando um legado de eminência na fisiologia e uma herança intelectual que, embora ele próprio tenha se distanciado da psicanálise em sua forma final, foi indispensável para o nascimento da disciplina. Sua filha Dora, mais tarde, com a ascensão do nazismo, preferiria o suicídio a cair nas mãos dos alemães, enquanto outros membros da família foram forçados à emigração ou foram vítimas da perseguição, um trágico epílogo para a vida de um dos grandes pioneiros da ciência médica de Viena.

Sugestão de leitura sobre essa temática

Estudos sobre a histeria

Sigmund Freud e Josef Breuer

No final do século XIX as neuroses que se manifestavam por meio de somatizações, alucinações e angústias eram chamadas de “histerias”. Para estudar esse fenômeno, Freud escreveu junto com o médico Breuer os Estudos sobre a histeria - obra essencial para a compreensão da psicanálise. Relatando os casos de cinco pacientes - entre elas a célebre Anna O. -, eles argumentam que os histéricos sofrem por haverem sufocado a memória dos eventos que originaram a doença. É preciso, então, trazer à luz esses traumas, inicialmente por meio da hipnose. Mas, como isso não funciona com alguns pacientes, Freud passa a recorrer à associação livre, tornando seu método ainda mais complexo.

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