O II Congresso Internacional de Literatura e Psicanálise erige-se como ágora de confluências interdisciplinares, vocacionado a congregar pesquisadoras, pesquisadores e demais espíritos inquietos que se deixem interpelar pelas zonas de fricção entre literatura e psicanálise. Pretende-se, neste espaço, não somente reiterar a herança freudiana — inaugural e matricial — mas também perscrutar os múltiplos desdobramentos, bifurcações e, no sentido lacaniano, "heresias" que lhe sucederam, constituindo uma verdadeira cartografia rizomática: Lacan, Ferenczi, Melanie Klein, Anna Freud, Winnicott, Bion, Adler — para nomear apenas alguns dentre tantos que, em conformidade com a imagem evocada por Mezan, proliferam em troncos e ramos, cujos sucos vitais nutrem ainda hoje os campos de saber.
No âmago desse encontro, encontra-se a literatura — artefato que, longe de ser mero adorno estético, opera como território privilegiado de inscrição do indizível, de dramatização das ruínas da linguagem e de corporificação das fantasias mais obscuras. Se a psicanálise se ocupa dos labirintos da subjetividade, a literatura, em seu gesto inaugural, engendra a tessitura simbólica pela qual esses labirintos se tornam narráveis, ainda que em forma de enigma, alegoria ou fragmento. Há, pois, uma cumplicidade paradoxal: a literatura, ao oferecer figura ao infigurável, torna-se o espelho turvo da psicanálise; e a psicanálise, ao decifrar a trama do inconsciente, revela-se como hermenêutica das máscaras literárias. Trata-se de uma interlocução (im)precisa, precária e, justamente por isso, fecunda — sempre à beira do colapso, sempre ameaçada pela impossibilidade de saturar o sentido.
Desde os primórdios da vida psíquica, sujeitos são lançados numa economia de introjeções e expulsões, de exílios e fusões, de desamparos e fantasias. É nesse terreno movediço que se forja a subjetividade, ora pacificada pelo amor que mitiga, ora devastada pelo ódio que fragmenta. O indivíduo, em sua indigência simbólica, sobrevive armado de devaneios e alucinações, cujos contornos dependerão da resposta — sempre parcial e equívoca — do outro/Outro. E se, no contemporâneo, assistimos à proliferação de vínculos rarefeitos, vínculos esvaziados de densidade e incapazes de sustentar a alteridade, é justamente porque as formas do existir se apresentam cada vez mais corroídas pela lógica da indiferença, pela erosão da empatia e pela incapacidade de habitar a falta.
É nesse cenário — de subjetividades colapsadas, de vínculos rarefeitos, de linguagens exauridas — que se inscreve o II Congresso Internacional de Literatura e Psicanálise, promovido pelo Grupo de Pesquisa Ligepsi (Literatura, Gênero e Psicanálise – UFPB). O evento propõe-se a acolher múltiplas vozes, nacionais e estrangeiras, dispostas a problematizar o artefato literário em sua dimensão estética, artística e cultural, mas também em sua pregnância política, enquanto dispositivo que fabrica e desfaz os modos de dizer e de sofrer. Porque, afinal, tanto a literatura quanto a psicanálise, cada uma a seu modo, são artes de escuta do que resiste: fragmentos, lapsos, restos, fantasmas — aquilo que, recusando-se a calar, continua a assombrar o presente. O evento, híbrido e totalmente gratuito, no período de 23 a 27 de fevereiro de 2026. Para sua arquitetura, múltiplas atividades foram cuidadosamente planejadas: palestras, mesas-redondas, minicursos e simpósios.
As inscrições como ouvintes deverão ser efetuadas por meio do preenchimento de formulário eletrônico, na plataforma SigEventos (https://sigeventos.ufpb.br/eventos/login.xhtml), observando-se os prazos estabelecidos e as vagas ofertadas em cada modalidade (palestras, minicursos e mesas-redondas).
As inscrições para ouvintes e apresentadores de trabalhos vão até o dia 18 de fevereiro de 2026.