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A Dualidade dos Princípios do Funcionamento Mental
Para Sigmund Freud, o aparelho psíquico é regido por dois princípios fundamentais que determinam como processamos estímulos e buscamos satisfação.
- Princípio do Prazer: É o funcionamento primário do psiquismo. Sua meta é a busca imediata de prazer e a descarga de tensão (desprazer). É impulsionado pelas pulsões do Id, que não conhece o "não", o tempo ou a lógica.
- Princípio de Realidade: É um princípio secundário que se desenvolve à medida que o indivíduo amadurece. Ele não anula o prazer, mas o modifica, introduzindo a capacidade de adiar a satisfação em prol de uma segurança maior ou de um ganho futuro.
A Evolução do Conceito na Obra de Freud
Freud formalizou essa distinção em 1911, no artigo "Formulações sobre os dois princípios do funcionamento mental". Ele descreve que, inicialmente, o bebê vive sob o domínio quase exclusivo do princípio do prazer. Quando sente fome, o bebê alucina o seio ou chora para obter satisfação imediata.
No entanto, a realidade se impõe. O seio nem sempre aparece no instante do desejo. Essa frustração é o motor do desenvolvimento psíquico. Para sobreviver, o ego precisa aprender a distinguir entre a representação interna (o desejo) e a percepção externa (o objeto real).
A Transformação das Funções Psíquicas
Com a instauração do princípio de realidade, várias funções mentais sofrem adaptações:
- Consciência: Deixa de apenas registrar prazer/dor para observar o mundo externo.
- Atenção: Passa a rastrear o ambiente em busca de dados, antes que a necessidade se torne urgente.
- Memória: Começa a estocar informações sobre o mundo para prever resultados.
- Julgamento: Decide se uma ideia é verdadeira ou falsa com base na realidade, e não apenas se é agradável.
O Adiamento do Prazer: Não é Renúncia, mas Estratégia
É um erro comum pensar que o princípio de realidade é o oposto do prazer no sentido de ser "punitivo". Na verdade, ele é um princípio de proteção.
Imagine alguém que deseja comer um banquete, mas sabe que a comida está estragada. O princípio do prazer diria "coma agora". O princípio de realidade intervém: "se você comer agora, terá uma dor terrível depois; espere e procure comida fresca".
"A substituição do princípio do prazer pelo princípio de realidade não implica a deposição do primeiro, mas apenas sua salvaguarda" (Freud, 1911).
Portanto, o princípio de realidade serve ao prazer a longo prazo. Ele permite que o ser humano suporte o desprazer temporário para evitar um sofrimento maior ou para alcançar uma gratificação mais estável.
O Papel do Ego e a Realidade Objetiva
No modelo estrutural de Freud (Id, Ego e Superego), o Ego é o grande mediador. É ele quem opera sob o princípio de realidade.
Enquanto o Id é um caldeirão de pulsões cegas, o Ego avalia as condições do ambiente. Ele utiliza o pensamento como uma forma de "ação experimental". Em vez de agir impulsivamente, o indivíduo "pensa", o que consome menos energia e permite avaliar as consequências antes do fato consumado.
O Teste de Realidade
Uma das funções mais vitais do Ego é o teste de realidade. É a capacidade de distinguir o que provém de dentro (fantasias, sonhos, medos) do que provém de fora (fatos concretos). Quando o teste de realidade falha, entramos no terreno da psicose, onde o mundo interno é projetado no externo sem filtro.
Princípio de Realidade e Civilização
Em sua obra tardia, especialmente em "O Mal-Estar na Civilização" (1930), Freud expande essa ideia para o nível social. A civilização só é possível porque os indivíduos aceitam o princípio de realidade em escala coletiva.
Para vivermos em sociedade, precisamos renunciar a certas satisfações pulsionais imediatas (como a agressividade ou o sexo sem restrições). As leis, a moral e o trabalho são extensões do princípio de realidade. Nós trabalhamos hoje (sacrifício de lazer) para garantir a sobrevivência e o conforto amanhã.
No entanto, Freud nota que essa renúncia tem um preço: o sentimento de culpa e o mal-estar. O conflito entre o que desejamos (Id) e o que a realidade/sociedade permite (Ego/Superego) é a fonte perene da neurose humana.
A Fantasia: O Refúgio do Prazer
Mesmo com a vitória do princípio de realidade, o psiquismo humano reserva um "espaço seguro" onde o princípio do prazer ainda reina absoluto: a fantasia.
Freud compara a criação de um reino de fantasia com a reserva de um parque nacional onde a natureza pode crescer livremente, sem as interferências da urbanização (realidade). As artes, o brincar das crianças e os devaneios adultos são formas de retorno ao princípio do prazer, permitindo-nos suportar as durezas da vida real.
Implicações Clínicas: A Cura pela Realidade
Na prática psicanalítica, muitos pacientes sofrem porque estão "presos" ao princípio do prazer ou têm um princípio de realidade excessivamente rígido.
- Neurose e Princípio do Prazer: O neurótico muitas vezes tenta resolver conflitos reais através de sintomas ou fantasias, fugindo da realidade que lhe causa dor. O tratamento busca fortalecer o Ego para que ele possa enfrentar a realidade sem fragmentar-se.
- O Desejo do Analista: O processo de análise em si é um exercício do princípio de realidade. O paciente quer respostas imediatas, amor do analista ou alívio instantâneo (prazer). O analista, ao manter o enquadre e o silêncio, impõe uma frustração que força o paciente a pensar e a amadurecer seus processos psíquicos.
O Princípio de Realidade na Contemporaneidade
Hoje, vivemos em uma era de "gratificação instantânea" (redes sociais, compras em um clique, entretenimento onipresente). Alguns teóricos contemporâneos sugerem que estamos vivendo uma erosão do princípio de realidade.
Quando o ambiente externo tenta satisfazer todos os nossos desejos imediatamente, a capacidade do Ego de tolerar a frustração e pensar criticamente diminui. Isso pode levar a um aumento de patologias do impulso e a uma dificuldade crônica em lidar com perdas e limitações.
Conclusão
O Princípio de Realidade não é um inimigo do desejo, mas a condição para que o desejo possa ser realizado de forma sustentável no mundo. Ele representa a transição da infância psíquica para a maturidade. Sem ele, seríamos escravos de impulsos momentâneos; com ele, tornamo-nos capazes de planejar, construir e criar cultura.
Compreender este princípio é entender a própria essência do humano: um ser que deseja o infinito, mas que aprende a caminhar dentro dos limites do possível.
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