18/08/2026
Breve resenha crítica da obra O Meu Pé de Laranja Lima, de José Mauro de Vasconcelos
Publicado originalmente em 1968, o romance O Meu Pé de Laranja Lima, escrito por José Mauro de Vasconcelos (1920–1984), é considerada uma das obras mais lidas, traduzidas e adaptadas da ficção nacional. Nascido no bairro carioca de Bangu e criado em Natal, o autor transitou por múltiplos ofícios e experiências de vida, de operário e garimpeiro a ator de cinema e repórter, antes de consagrar sua carreira literária. Vinculado cronologicamente à fase pós-modernista da literatura brasileira, Vasconcelos construiu uma obra que se distancia dos experimentalismos radicais das vanguardas paulistas para se aproximar de uma vertente neo-realista de forte acento subjetivo e afetivo, na qual a crueza da subsistência social contrasta com o lirismo da descoberta da linguagem e do mundo.
O núcleo funcional do romance estrutura-se a partir de um foco narrativo autodiegético, em que o protagonista Zezé, um menino de cinco para seis anos, atua simultaneamente como centro focalizador e narrador retrospectivo de sua própria história.
O grande eixo de transição interna do protagonista ocorre pela divisão entre o mundo empírico e a esfera fantástica construída como mecanismo de defesa psíquica. Diante do isolamento afetivo e das rotineiras punições corporais impostas pelos adultos sob a justificativa de corrigir seu comportamento, Zezé projeta no quintal de sua nova residência um espaço de alteridade interativa. É nesse ambiente que ele elege uma pequena muda de laranja-lima, batizada de Minguinho, como seu principal interlocutor.
A construção dos personagens ganha adensamento dramático quando a narrativa introduz uma figura exógena ao núcleo familiar: Manuel Valadares, o "Portuga". A relação entre Zezé e esse homem mais velho evolui de um antagonismo inicial, motivado por uma travessura do garoto que resulta em repreensão pública, para um laço de paternidade eletiva e refúgio afetivo. O Portuga funciona na economia do romance como o catalisador do amadurecimento do protagonista. Através dos passeios de automóvel e das conversas despretensiosas, estabelece-se um espaço de escuta qualificada que a estrutura familiar precarizada pela miséria não consegue fornecer. A convivência com Valadares ensina a Zezé o significado da ternura, conceito que o próprio menino define não como um sentimento abstrato, mas como a transformação do afeto em presença concreta e cuidado mudo.
José Mauro de Vasconcelos emprega uma prosa direta, caracterizada pelo uso frequente do discurso direto e por uma coloquialidade calculada que reproduz os ritmos da oralidade suburbana da época. O autor explora a sensorialidade através de metáforas simples, porém de forte apelo plástico, vinculadas à natureza e ao cotidiano infantil. O contraste entre a crudeza da violência doméstica e a delicadeza dos diálogos entre Zezé e Minguinho cria uma tensão tonal constante. A linguagem transita do registro popular, pontuado por termos do vocabulário da infância das décadas de 1920 e 1930, para momentos de densa carga poética, nos quais a interioridade do menino é revelada através de solilóquios e confissões.
A dimensão trágica da obra ganha seus contornos mais expressivos na segunda metade do texto, quando duas ameaças iminentes desestabilizam o universo simbólico construído pelo garoto. A primeira é a notícia do projeto de alargamento da rua, que implicará no desmatamento do quintal e no consequente corte do pé de laranja-lima. A segunda envolve um grave acidente nas vias férreas locais, envolvendo o carro de Manuel Valadares e o trem conhecido como Mangaratiba. A iminência do desaparecimento físico de seus dois esteios de sustentação emocional, o amigo real e o amigo fantasioso, desencadeia em Zezé uma severa crise psicossomática. É nesse ponto que o romance atinge seu ápice reflexivo: a perda da inocência não ocorre por um processo gradual de envelhecimento, mas pelo choque abrupto com a mortalidade e com a irreversibilidade do tempo.
O amadurecimento de Zezé se dá pela internalização do sofrimento, marcando a passagem do pensamento mágico para a percepção da realidade concreta. Quando a fantasia deixa de ser suficiente para estancar a dor do mundo real, o pé de laranja-lima perde gradativamente a capacidade de falar, sinalizando que a infância poética do protagonista foi definitivamente encerrada.
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O Meu Pé de Laranja Lima
por José Mauro de Vasconcelos
Um clássico da literatura brasileira, com adaptações para a televisão, o cinema e o teatro, O Meu Pé de Laranja Lima é desses livros que marcam época. Lançado em 1968, trata-se de uma história fortemente autobiográfica, que demonstra a mão de um escritor experiente, ciente do efeito que pode provocar nos leitores com suas cenas e a composição de seus personagens.
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