18/08/2026

O que é Tritagonista na Teoria da Literatura?

Quando nos referimos aos estudos do texto dramático e da narrativa romanesca, a atenção crítica recai, frequentemente e de modo quase automático, sobre as figuras hipertrofiadas do protagonista, personagem que carrega o desejo ou a imperfeição fundamental da trama, e do deuteragonista, que se estabelece como a segunda voz de maior peso na escala dramática, atuando como aliado de primeira ordem, opositor direto ou contraponto dialético. Contudo, a mecânica narrativa exige, com grande frequência, um elemento mediador e catalisador, capaz de desestabilizar equilíbrios preexistentes, tensionar alianças ou prover o impulso revelador que desencadeia a anagnórise e a catástrofe. Esse papel vital pertence ao tritagonista.

O conceito de tritagonista possui raízes profundas na Antiguidade Clássica, especificamente na evolução da tragédia grega. No alvorecer do teatro ateniense, as representações limitavam-se ao coro e a um único ator, o protagonista, a quem cabia o diálogo e a personificação dos mitos. Foi Ésquilo quem promoveu uma verdadeira revolução dramatúrgica ao introduzir o segundo ator, o deuteragonista, ampliando exponencialmente a capacidade de conflito dialógico em cena. Posteriormente, Sófocles realizou um avanço decisivo para a consolidação do drama ocidental ao incluir o terceiro ator: o tritagonista. Essa inovação não representou um mero adendo numérico, mas sim uma transformação qualitativa na própria substância da narrativa dramática. A presença simultânea de três atores em cena permitiu que as relações humanas fossem retratadas não apenas como dualidades estáticas, mas como arranjos triangulares dinâmicos, nos quais alianças podem ser forjadas, segredos transmitidos e dilemas morais aprofundados sob o olhar de uma terceira perspectiva.

Na Grécia Antiga, o tritagonista era muitas vezes associado a papéis operacionais, como mensageiros, profetas, reis secundários ou figuras de autoridade que impunham ordens externas sobre a dupla principal. Contudo, ao migrar do teatro grego para a literatura narrativa, abarcando o romance, a novela e a dramaturgia moderna, o conceito ultrapassou a simples limitação física do número de atores em palco e converteu-se em uma categoria teórica de análise funcional de personagens. No âmbito da narratologia contemporânea, o tritagonista é compreendido como a terceira figura em hierarquia de relevância e impacto estrutural na economia interna do texto. Ele não possui o protagonismo da ação transformadora principal, tampouco compartilha a intensidade direta do confronto travado pelo deuteragonista; no entanto, sua existência é indispensável para que o enredo alcance sua resolução teórica e emocional.

As funções do tritagonista na literatura são múltiplas e altamente sofisticadas. Uma de suas atribuições mais recorrentes é a de vetor catalisador. Em vastas arquiteturas romanescas, o conflito entre o protagonista e o deuteragonista pode estagnar em um impasse psicológico ou moral. Nesses momentos, cabe ao tritagonista introduzir um fato novo, uma revelação inesperada ou uma ação que força os eventos a saírem da inércia. O tritagonista atua também como o espelho reflexivo, a voz da razão pragmática ou o pivô das incertezas do leitor. Em muitas instâncias, ele encarna a perspectiva do espectador e do leitor dentro do universo fictício, formulando as perguntas que a audiência faria ou expressando os receios que a dupla principal tenta ocultar.

Para ilustrar de forma contundente a atuação do tritagonista, cumpre examinar exemplos marcantes da história da literatura ocidental. Retornando ao teatro grego de Sófocles, especificamente na tragédia Antígona, observamos uma dinâmica triangular exemplar. Antígona figura inquestionavelmente como a protagonista heroica que desafia a lei dos homens em nome dos deveres piedosos e familiares. Creonte, o tirano de Tebas que proíbe o sepultamento de Polinices, atua como o deuteragonista, o antagonista direto cuja intransigência cria o conflito motor. Nesse cenário, o papel de Ismênia, irmã de Antígona, adquire a densidade exata do tritagonista. Ismênia representa a prudência terrena, o temor à autoridade e a moderação. Sua recusa inicial em ajudar Antígona sublinha a coragem quase sobre-humana e trágica da protagonista, enquanto seu posterior desejo de compartilhar a culpa evidencia a dimensão Trágica do sacrifício familiar. A presença de Ismênia é o fiel da balança que humaniza o embate monumental entre o Estado e a religião.

Aprofundando a análise na literatura clássica moderna, a dramaturgia de William Shakespeare oferece refinados exemplos de tritagonismo funcional. Em Otelo, o Mouro de Veneza, Otelo constitui o centro trágico e protagonista da obra, enquanto Iago personifica o deuteragonista e arqui-inimigo que tece a teia de manipulação. Contudo, a tragédia não alcançaria sua eficácia trágica e seu desfecho devastador sem a figura de Cássio. Cássio atua rigorosamente como o tritagonista da trama: é a sua virtude, sua beleza e sua proximidade ingênua com Desdêmona que fornecem a matéria-prima para os ciúmes doentios de Otelo. Embora Cássio não busque ativamente o confronto e permaneça ignorante quanto às maquinações de Iago, sua posição na estrutura social e afetiva de Veneza torna-o o catalisador involuntário da ruína do protagonista.

No terreno da narrativa romanesca, a prosa de ficção refinou a utilização do tritagonista para além do palco dramático. Na obra-prima Dom Casmurro, de Machado de Assis, a estrutura de sentimentos e suspeitas baseia-se em um triângulo de forças narrativas. Bento Santiago constitui o protagonista e o narrador não confiável que reconstrói a memória de sua vida; Capitu surge como a deuteragonista incontestável, o centro magnético em torno do qual orbitam o fascínio, a paixão e a paranoia do narrador. Onde reside, contudo, a chave para o desmoronamento psicológico de Bento? Na figura de Ezequiel Escobar. Escobar é o tritagonista por excelência do romance realista machadiano. Sua amizade íntima com Bento, suas habilidades financeiras, seu modo de olhar e sua morte prematura por afogamento funcionam como a faísca que consolida a obsessão do protagonista em relação ao suposto adultério. Sem Escobar, o conflito interno de Bento permaneceria no plano das abstrações; a presença material do amigo torna-se a pedra de tropeço ontológica e a obsessão central da narrativa.

Outro exemplo formidável encontra-se no romance de formação e fantasia de J.R.R. Tolkien, O Senhor dos Anéis. Se analisarmos a jornada da destruição do Um Anel sob a ótica da estrutura clássica de personagens, Frodo Bolseiro ocupa o posto de protagonista carregador do fardo existencial. Samwise Gamgee firma-se como o deuteragonista leal, a fundação moral e o sustentáculo físico sem o qual a missão fracassaria. A figura de Gollum, contudo, surge como o tritagonista perfeito da saga. Gollum não é meramente um obstáculo incidental; ele é o guia ambíguo, a sombra especular do que Frodo pode se tornar sob a corrupção do anel e, crucialmente, a força involuntária que viabiliza a destruição do artefato no Monte da Perdição. A dinâmica entre Frodo, Sam e Gollum exemplifica a riqueza de um triângulo dramático perfeitamente articulado, no qual o tritagonista altera constantemente os vetores de confiança e perigo entre os personagens.

Referências Bibliográficas

ARISTÓTELES. Poética. [Tradução, introdução e notas de Paulo Pinheiro]. 1ª ed. São Paulo: Editora 34, 2015.

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ASSIS, Machado de. Dom Casmurro. 1. ed. Rio de Janeiro: Livraria Garnier, 2024.

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BARTHES, Roland et al. Análise estrutural da narrativa. 8. ed. Petrópolis-RJ: Vozes, 2011.

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FORSTER, E. M. Aspectos do romance. 1ª ed. São Paulo: Globo, 2005.

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PROPP, Vladimir. Morfologia do Conto Maravilhoso. 2. ed. Rio de Janeiro: Forense Universítaria, 2006.

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REUTER, Yves. A análise da narrativa. 4. ed. Rio de Janeiro: DIFEL, 2002.

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SHAKESPEARE, W. Otelo. [Tradução de Lawrence Flores Pereira]. 1ª ed. São Paulo: Penguin-Companhia, 2017.

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SÓFOCLES. Antígona. Tradução de Lawrence Flores Pereira. 1. ed. São Paulo: Penguin-Companhia, 2023.

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TOLKIEN, J. R. R. O Senhor dos Anéis. Tradução de Ronald Kyrmse. 1. ed. Rio de Janeiro: HarperCollins, 2025.

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