18/08/2026

Quem é Éris (Ἔρις) na Mitologia Grega?

Na tradição mitológica da Grécia Antiga, a figura de Éris (Ἔρις) personifica a discórdia, o conflito e a rivalidade. Enquanto entidade cosmogônica e psicológica, a essência por trás de Éris espelha a percepção helênica de que o universo não é governado unicamente pela ordem pacífica, mas também moldado por tensões perpétuas e forças antagônicas. Sua contrapartida direta na cosmologia grega é Harmonia, a deusa da concordância e da união, ao passo que na religiosidade latina foi assimilada sob a alcunha de Discórdia. A análise das fontes literárias clássicas revela que a compreensão de Éris não era uniforme, oscilando entre uma visão puramente maléfica e destrutiva e uma concepção sociológica mais sutil, na qual o estímulo da competição atua como motor do progresso humano.

A sua genealogia também varia conforme a tradição poética consultada, demonstrando as camadas de interpretações que a cultura grega desenvolveu ao longo dos séculos. Na tradição hesiódica, registrada na Teogonia, Éris é uma das filhas de Nix, a Noite primordial, criada sem a necessidade de uma união masculina. Essa filiação à Noite posiciona a discórdia ao lado de outras forças sombrias e incontornáveis do destino e da psique, tais como a Morte, o Sono e as Queres. Como progenitora, Éris concebeu uma vasta e terrível prole de personificações que flagelam a existência humana e social. Entre seus descendentes diretos figuram Ponos, a fadiga dolorosa; Lete, o esquecimento; Limos, a fome devastadora; Algea, as dores e aflições humanas; além das Hisminas, Macas, Fonos e Androctasias, que encarnam, respectivamente, as disputas verbais, as batalhas, os assassinatos e as carnificinas nos campos de combate. Somam-se a essa linhagem desastrosa Neikea, as querelas; Pseudólogos, as palavras mentirosas; Anfilogias, as ambiguidades e dúvidas; Disnomia, a ausência de leis ou a má governança; Até, a cegueira moral e a ruína; e Horcos, o juramento que pune severamente aqueles que cometem perjúrio.

Por outro lado, na tradição épica liderada por Homero na Ilíada, Éris ganha contornos mais diretos e antropomórficos ao ser apresentada como irmã e companheira inseparável de Ares, o deus da guerra sangrenta, o que a coloca por vezes como descendente direta de Zeus e Hera. Nos relato homéricos, a deusa percorre os campos de batalha incitando o ódio irrefreável entre os combatentes. A poesia epicoclássica descreve Éris inicialmente como um ser pequeno e insignificante que, à medida que a peleja se intensifica, se agiganta de tal modo que sua cabeça passa a tocar os céus enquanto seus pés continuam a pisar a terra. Quando todos os demais deuses se retiram do cenário estarrecedor do combate, chocados com a violência do massacre, Éris permanece no campo de batalha, regozijando-se em meio ao caos, ao sangue derramado e ao sofrimento dos mortais.

Um dos momentos teóricos e filosóficos mais fascinantes da literatura arcaica ocorre quando Hesíodo, em sua obra posterior intitulada Os Trabalhos e os Dias, revisa e aprofunda a natureza da deusa. O poeta afirma que não existe no mundo apenas uma Éris, mas sim duas deusas com o mesmo nome e qualidades diametralmente opostas. A primeira Éris é a herdeira da crueldade e da guerra, detestada pelos homens por promover o conflito destrutivo, a violência sem sentido e as contendas judiciais injustas. No entanto, a segunda Éris, mais velha e gerada por Cronos no éter superior, é benevolente para com a humanidade. Esta deusa positiva representa a rivalidade saudável, a emulação e o desejo de superação. Quando um homem observa seu vizinho prosperar por meio do trabalho árduo, da agricultura ou do artesanato, essa segunda Éris acende nele o desejo construtivo de trabalhar com igual afinco para alcançar a mesma prosperidade. Assim, o pensamento grego reconhece que a discórdia, quando canalizada sob a forma de competição nobre, funciona como uma força propulsora da civilização, do comércio e das artes.

A despeito dessa visão dual e abstrata, o mito mais célebre envolvendo Éris refere-se à sua intervenção decisiva no ciclo troiano, onde seu papel catalisador desencadeou o maior conflito da mitologia greco-romana. Durante as festividades do matrimônio do mortal Peleu com a Nereida Tétis nas alturas do Monte Pélion, todos os olímpicos foram convidados, à exceção de Éris. Os deuses temiam que sua mera presença arruinasse a harmonia da celebração. Sentindo-se ultrajada pelo desprezo, a deusa infiltrou-se sutilmente no recinto e atirou no meio do salão de banquetes um pomo de ouro colhido no Jardim das Hespérides, gravado com a célebre inscrição têi kallistêi, que se traduz por "para a mais bela".

O gesto sutil de Éris foi o suficiente para instaurar uma vaidade incontrolável e um impasse imediato entre três das mais poderosas divindades do Olimpo: Hera, a rainha dos deuses; Atena, a deusa da sabedoria e da guerra estratégica; e Afrodite, a deusa do amor e da beleza. Nenhuma delas aceitou abrir mão do título sugerido pelo pomo. Evitando tomar um partido que fatalmente lhe traria a inimizade eterna de duas das disputantes, Zeus ordenou que o mensageiro Hermes conduzisse as três deusas ao Monte Ida, onde o jovem príncipe troiano Páris atuava como pastor. Páris foi incumbido de proferir o julgamento e decidir quem merecia o fruto dourado. Cada uma das deusas tentou suborná-lo com dádivas grandiosas: Hera ofereceu-lhe o domínio político sobre toda a Ásia; Atena prometeu-lhe a sabedoria invencível e o triunfo em todas as batalhas; enquanto Afrodite lhe garantiu o amor da mortal mais bela do mundo, Helena, esposa do rei espartano Menelau. Páris concedeu a maçã a Afrodite, ato que resultou no rapto de Helena, na quebra das leis sagradas da hospitalidade e na imediata mobilização das forças gregas para o cerco e eventual destruição de Tróia.

Referências Bibliográficas

BRANDÃO, J. S. Mitologia grega: 21ª ed. Petrópolis: Editora Vozes, 2015. 3 v.

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GRIMAL, P. Dicionário da mitologia grega e romana. [Tradução de Victor Jabouille]. 7ª ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1993.

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HESÍODO. Teogonia: A Origem dos Deuses.[Tradução de Jaa Torrano]. São Paulo: Editora Iluminuras, 2000.

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HESÍODO. Trabalhos e dias.[Tradução de Christian Werner]. 2. ed. São Paulo: Editora Hedra, 2022.

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HOMERO. Ilíada. Tradução de Frederico Lourenço.1. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.

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KÉRÉNYI, K. Os Deuses dos Gregos. São Paulo: Cultrix, 1997.

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CLEAN, C. Código Limpo: Habilidades Práticas do Agile Software. 1. ed. Rio de Janeiro: Alta Books, 2009.

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Como referenciar este artigo no seu trabalho científico:
SILVA, Frederico de Lima. Quem é Éris (Ἔρις) na Mitologia Grega?. Blog Frederico Lima, 18/08/2026. Disponível em: <https://www.fredericolima.com.br/2026/09/eris-mitologia-grega.html>. Acesso em: ....

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