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06/09/2026

O que é Neocrítica na Teoria da Literatura?

A Neocrítica, também conhecida como Nova Crítica, é considerada um dos movimentos mais influentes da teoria literária do século XX. Surgida nos Estados Unidos na década de 1920, ela se consolidou como uma reação às abordagens biográficas e sociológicas que dominavam a crítica literária até então. Seu princípio fundamental é a autonomia do texto: a obra literária deve ser analisada como um objeto em si mesmo, independente das intenções do autor ou das circunstâncias históricas e sociais que a cercam. Essa perspectiva inaugura uma corrente textualista, que privilegia a leitura atenta e minuciosa, voltada para os elementos internos da obra, como linguagem, estrutura, ritmo, metáforas e imagens.

O marco teórico da Neocrítica foi o livro The New Criticism (1941), de John Crowe Ransom, que deu nome ao movimento. Ransom, juntamente com críticos como Cleanth Brooks, Robert Penn Warren, William K. Wimsatt, Monroe Beardsley, I.A. Richards e William Empson, estabeleceu os fundamentos dessa escola. A proposta era clara: afastar-se da crítica impressionista e das leituras que buscavam no texto apenas reflexos da vida do autor ou da sociedade. Para os neocríticos, o texto literário é uma entidade autônoma, capaz de gerar múltiplos significados e de se sustentar por sua própria complexidade interna.

Um dos conceitos centrais da Neocrítica é a “falácia intencional”, formulada por Wimsatt e Beardsley em 1954. Segundo eles, qualquer tentativa de interpretar uma obra a partir da intenção do autor é equivocada, pois o que importa são as palavras na página, não o que o escritor quis dizer. Essa postura radical reforça a ideia de que o texto deve ser lido em sua materialidade, sem recorrer a elementos externos. Paralelamente, os mesmos autores também formularam a “falácia afetiva”, que rejeita a interpretação baseada nas emoções do leitor. Assim, a crítica neocrítica se concentra exclusivamente na análise objetiva da obra.

📖 Leia também: O conceito de FALÁCIA INTENCIONAL na Crítica Literária

A leitura atenta, ou close reading, tornou-se a principal ferramenta metodológica da Neocrítica. Essa prática exige que o crítico examine minuciosamente cada detalhe da obra, desde a escolha lexical até a disposição sintática, passando pelo ritmo, pela métrica e pelas imagens poéticas. É uma leitura que valoriza o particular sobre o geral, buscando compreender como os elementos internos se articulam para produzir significados complexos.

Um exemplo notório da aplicação da leitura atenta pode ser encontrado em The Waste Land (1922), de T.S. Eliot. Embora Eliot tenha afirmado que não pretendia expressar a “desilusão de uma geração”, muitos críticos neocríticos viram no poema uma condensação de múltiplos significados, que se revelam na tessitura de suas imagens fragmentadas e alusões intertextuais. A análise neocrítica não se preocupa com a intenção de Eliot, mas com a maneira como o texto constrói paradoxos e ambiguidades.

Outro exemplo é Seven Types of Ambiguity (1930), de William Empson, obra que se tornou referência para a Neocrítica ao explorar a multiplicidade de sentidos que um texto pode conter. Empson demonstra como a linguagem literária é capaz de gerar interpretações diversas, sem que haja um único significado verdadeiro. Essa valorização da ambiguidade reforça a ideia de que a literatura é um campo de complexidade e riqueza semântica.

Cleanth Brooks, em The Well-Wrought Urn (1947), também exemplifica a abordagem neocrítica ao analisar poemas clássicos da literatura inglesa. Brooks defende que a poesia deve ser compreendida como uma unidade orgânica, em que cada elemento contribui para o efeito total da obra. Ele critica a prática de parafrasear poemas, argumentando que isso destrói sua essência, pois o significado está inseparavelmente ligado à forma.

Na literatura brasileira, a leitura neocrítica pode ser aplicada, por exemplo, à obra de Gregório de Matos, o “Boca do Inferno”. Seus poemas satíricos, repletos de metáforas e jogos de linguagem, oferecem um campo fértil para a análise textualista. Em vez de reduzir seus versos às circunstâncias históricas da Bahia colonial, a Neocrítica permite explorar como a ironia e o paradoxo se estruturam dentro do próprio texto, revelando sua força estética.

A Neocrítica, contudo, não esteve isenta de críticas. Muitos a acusaram de ser excessivamente formalista e de ignorar o contexto social e histórico das obras. De fato, ao isolar o texto de seu entorno, os neocríticos corriam o risco de transformar a literatura em um objeto estético fechado, desprovido de relação com o mundo. Ainda assim, sua contribuição foi decisiva para consolidar a análise textual como prática fundamental da crítica literária.

Além disso, a Neocrítica influenciou gerações posteriores de estudiosos, mesmo aqueles que a criticaram. O estruturalismo, por exemplo, herdou da Neocrítica a ênfase na análise interna, embora tenha ampliado o escopo para incluir sistemas culturais e linguísticos. A desconstrução, por sua vez, dialogou com a valorização da ambiguidade, mas levou-a a extremos ao questionar a própria possibilidade de fixar significados.

Referências Bibliográficas

BROOKS, Cleanth. The Well Wrought Urn: Studies in the Structure of Poetry. 1. ed. New York: Mariner Books, 1956.

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ELIOT, T.S. The Waste Land and Other Poems. 1. ed. London: Penguin Books, 2003.

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EMPSON, William. Seven Types of Ambiguity. 3. ed. New York: New Directions Publishing Corporation, 1966.

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MATOS, Gregório de. Poemas Escolhidos. Jandira–SP: Principis, 2020.

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RANSOM, John Crowe. The New Criticism. 1. ed. Westport: Praeger, 1979.

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