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O conceito de FALÁCIA INTENCIONAL na Crítica Literária

Como estudiosos da literatura, frequentemente nos deparamos com a tentação quase irresistível de investigar a biografia de um autor para "desvendar" o sentido de sua obra. No entanto, na tradição da crítica anglo-americana de meados do século XX, essa prática foi rigorosamente questionada. Hoje, exploraremos a fundo o conceito de Falácia Intencional, um pilar do New Criticism que redefiniu a autonomia do texto literário.

A Gênese do Conceito e a Autonomia do Objeto Literário

O termo "Falácia Intencional" foi cunhado por W.K. Wimsatt Jr. e Monroe C. Beardsley em um ensaio seminal publicado originalmente em 1946. A tese central desses autores é que o design ou a intenção do autor não é nem disponível, nem desejável como padrão para julgar o sucesso de uma obra de arte literária. Para Wimsatt e Beardsley, um poema (termo que eles usam para designar a obra literária em geral) não pertence ao autor, mas ao público; ele é um objeto linguístico que, uma vez publicado, desliga-se de seu criador e passa a existir de forma independente no mundo.

Essa perspectiva rompe drasticamente com a crítica biográfica e historicista do século XIX, que via a obra como um mero reflexo da psique ou das intenções conscientes do escritor. Segundo a norma da ABNT, a referência fundamental para este estudo é: WIMSATT, William K.; BEARDSLEY, Monroe C. The Verbal Icon: studies in the meaning of poetry. Lexington: University of Kentucky Press, 1954. Nesse livro, os autores argumentam que a intenção é algo interno à mente do autor, um evento psicológico, e, portanto, inacessível ao crítico. Tentar reconstruir o que o autor "quis dizer" é um esforço de adivinhação que retira o foco do que a obra "realmente diz" por meio de sua estrutura verbal.

Ao postular a falácia, os autores não negam que o autor tenha tido uma intenção. O que eles sustentam é que, se o autor foi bem-sucedido em realizar sua intenção, a obra falará por si mesma e a evidência estará contida no texto. Se o autor falhou, não adianta recorrer às suas notas pessoais ou entrevistas para validar algo que não se concretizou na linguagem. O rigor teórico aqui exige que tratemos a literatura como um artefato autônomo, cujas propriedades devem ser analisadas sem o auxílio de muletas biográficas.

Evidência Interna versus Evidência Externa

Para compreender o funcionamento da Falácia Intencional, é crucial distinguir entre o que os novos críticos chamam de evidência interna e externa. A evidência interna é aquela descoberta através da análise da semântica, da sintaxe, do ritmo e da estrutura metafórica do texto. Ela é pública e compartilhada por qualquer leitor que domine a língua. Já a evidência externa refere-se a diários, cartas, conversas gravadas ou prefácios onde o autor explica o que pretendia realizar.

A falácia reside em utilizar essa evidência externa para validar ou interpretar o texto. Wimsatt e Beardsley sugerem que a crítica deve se concentrar exclusivamente na evidência interna. Se um crítico precisa de uma nota de rodapé do autor para entender o sentido de uma metáfora, essa metáfora falhou artisticamente. A obra deve ser um "ícone verbal", um objeto completo e fechado em si mesmo.

Nesse contexto, vale citar outra obra de referência que expande a visão do New Criticism sobre a estrutura do texto: BROOKS, Cleanth. The Well Wrought Urn: studies in the structure of poetry. New York: Harcourt, Brace & World, 1947. Brooks reforça a ideia de que o significado de uma obra é inseparável de sua forma. Ao focarmos na intenção, tendemos a parafrasear o conteúdo ("o autor quis dizer que a guerra é ruim"), o que Brooks chama de "Heresia da Paráfrase". A Falácia Intencional e a Heresia da Paráfrase são as duas faces da mesma moeda: ambas tentam extrair do texto uma mensagem simplista e extrínseca, ignorando a complexidade da "urna bem trabalhada" que é o poema.

O Anti-Intencionalismo e a Reação ao Romantismo

O ataque à intenção do autor foi, em grande medida, uma reação contra a estética romântica e a sua obsessão pelo "gênio" criador. Para o Romantismo, a obra era a expressão sincera do sentimento do autor. O New Criticism, influenciado pelo pensamento de T.S. Eliot, propôs uma teoria impessoal da poesia. No ensaio "Tradição e o Talento Individual", presente na obra ELIOT, T. S. The Sacred Wood: essays on poetry and criticism. London: Methuen, 1920, o autor argumenta que o progresso do artista é um contínuo sacrifício de si mesmo, uma extinção da personalidade.

Para Eliot e, consequentemente, para Wimsatt e Beardsley, a mente do poeta é apenas um receptáculo ou um catalisador para a combinação de sentimentos e experiências que resultam na obra. O foco da crítica literária deve, portanto, deslocar-se do "poeta que sofre" para o "poema que é criado". A Falácia Intencional serve como uma ferramenta metodológica para purificar a crítica desse "entusiasmo biográfico".

Ao afastar o autor, a crítica ganha um status mais objetivo e técnico. O papel do crítico deixa de ser o de um biógrafo diletante para se tornar o de um analista estrutural. Isso permitiu o desenvolvimento de técnicas como o close reading (leitura imanente), onde cada palavra é pesada em relação ao todo orgânico da obra. O rigor acadêmico imposto por essa visão transformou o estudo da literatura em uma disciplina mais sistemática, distanciando-a das impressões subjetivas que dominavam os estudos literários anteriormente.

A Morte do Autor e o Pós-Estruturalismo

Embora a Falácia Intencional tenha raízes no New Criticism, o questionamento da autoridade do autor ganhou novas camadas com a chegada do estruturalismo e do pós-estruturalismo na segunda metade do século XX. O ensaio mais famoso nesse sentido é, sem dúvida, "A Morte do Autor" de Roland Barthes. Embora Barthes parta de pressupostos linguísticos diferentes dos de Wimsatt e Beardsley, a conclusão converge para a mesma recusa da intenção soberana.

Segundo BARTHES, Roland. O Rumor da Língua. Tradução de Mário Laranjeira. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2004, a escrita é a destruição de toda voz, de toda origem. Para Barthes, o texto não é uma linha de palavras que libera um sentido único e "teológico" (a mensagem do Autor-Deus), mas um espaço multidimensional onde se casam e se contestam escrituras variadas. O nascimento do leitor deve se dar à custa da morte do autor.

A diferença teórica reside no fato de que, enquanto os novos críticos acreditavam que a obra tinha um sentido fixo e orgânico que o crítico deveria descobrir (sem olhar para o autor), os pós-estruturalistas viam o texto como uma rede infinita de significados onde nem o autor, nem uma "estrutura única" detêm a verdade final. No entanto, o conceito de Falácia Intencional permanece como o ponto de partida histórico que permitiu o descolamento da crítica literária do jugo da biografia. Sem a desconstrução da intenção iniciada por Wimsatt e Beardsley, o caminho para as teorias da recepção e a desconstrução derridiana teria sido muito mais árduo.

Críticas e Limites do Conceito na Contemporaneidade

Nenhuma teoria permanece inquestionada, e a Falácia Intencional foi alvo de intensos debates, especialmente por filósofos da hermenêutica e críticos interessados na historicidade dos textos. E.D. Hirsch Jr., em sua obra HIRSCH JR., Eric Donald. Validity in Interpretation. New Haven: Yale University Press, 1967, foi um dos maiores opositores da ideia. Ele argumentou que, sem a referência à intenção do autor, a interpretação torna-se puramente subjetiva e arbitrária, caindo no relativismo. Para Hirsch, o "sentido" do texto deve ser aquilo que o autor quis dizer, enquanto o "significado" (ou significância) é a relação que o leitor estabelece com esse sentido em diferentes contextos.

Além disso, o advento da crítica feminista, do pós-colonialismo e do novo historicismo trouxe o autor de volta ao centro do palco, mas sob uma nova luz. Nessas perspectivas, a identidade do autor (seu gênero, raça e posição social) é crucial para entender as tensões de poder presentes na obra. Ignorar quem fala, sob o pretexto de evitar a Falácia Intencional, poderia resultar em uma análise "cega" às realidades políticas e sociais que moldam a produção literária.

Contudo, mesmo para os críticos contemporâneos, o alerta contra a Falácia Intencional continua válido no que diz respeito ao "autor empírico". Ainda que consideremos o contexto histórico e social, não podemos aceitar o depoimento do autor como a última palavra sobre sua obra. O texto literário possui uma densidade que muitas vezes escapa à consciência de quem o produziu. Ao praticar a crítica literária, devemos sempre manter um equilíbrio: reconhecer o lugar de fala e o contexto da obra, sem nunca reduzir a riqueza estética do texto à vontade limitada de um indivíduo. A obra de arte é um diálogo entre a tradição linguística e a inovação formal, e o nosso papel, como críticos, é mediar esse encontro com o máximo de rigor técnico e sensibilidade interpretativa.

Referências Bibliográficas

The Verbal Icon: Studies in the Meaning of Poetry

The Verbal Icon: Studies in the Meaning of Poetry

William Kurtz Wimsatt

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The Well Wrought Urn: Studies in the Structure of Poetry

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Cleanth Brooks

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The Sacred Wood

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T.S. Eliot

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O rumor da língua

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Roland Barthes

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Validity in Interpretation

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Jr. Hirsch, E. D.

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