As palavras da língua portuguesa não são fechadas em si mesmas e indivisíveis, pelo contrário, a grande maioria dos vocábulos é formada pela combinação de pequenas unidades constitutivas com significado gramatical ou lexical, denominadas morfemas. Entre todos os morfemas existentes no sistema morfológico da nossa língua, o radical ocupa uma posição de destaque absoluto, pois ele atua como a espinha dorsal da palavra, concentrando a sua carga semântica primária e fundamental.
Em termos estritamente teóricos, o radical é o morfema cognato ou elemento irredutível que armazena a significação básica da palavra. É a partir do radical que se derivam e se constroem outras formas vocabulares, estabelecendo aquilo que a gramática chama de família de palavras ou palavras cognatas. Quando analisamos termos como terra, terreiro, enterrar, terreal e terrestre, percebemos que existe um elemento comum que permanece constante e que conecta o sentido de todos esses vocábulos à ideia central de solo ou planeta. Esse elemento invariável é precisamente o radical, que nesses exemplos se apresenta na forma terr-.
É bastante comum haver dúvidas entre os estudantes a respeito da diferença entre radical, raiz e tema, sendo fundamental esclarecer essas distinções conceituais sem recorrer a simplificações inadequadas. A raiz é um conceito histórico e etimológico, referindo-se ao elemento original e primitivo de onde a palavra proveio em línguas ancestralmente aparentadas, como o latim, o grego ou o protoindo-europeu. O radical, por sua vez, é um conceito sincrônico, ou seja, diz respeito à análise da estrutura funcional da palavra no estado atual do idioma. Quando a esse radical acresce-se uma vogal temática, constituindo o elo de ligação para receber desinências, formamos o tema. Por exemplo, no verbo cantar, o elemento cant- é o radical, a vogal a é a vogal temática que indica a primeira conjugação, e o conjunto canta- representa o tema sobre o qual incidirão as desinências modo-temporais e número-pessoais.
Outro fenômeno indispensável ao estudo do radical é a alomorfia. Nem sempre o radical se mantém rigorosamente idêntico em todas as palavras de uma mesma família ou em todas as flexões de um mesmo verbo. Quando o radical sofre pequenas variações fonéticas ou gráficas ao longo do processo de derivação ou flexão, mas preserva intacto o seu sentido fundamental, dizemos que ocorreram alomorfos. É o caso clássico do verbo fazer, cujo radical transita entre as formas faz- em fazemos, faç- em faço e fiz- em fizera. O mesmo ocorre no substantivo pedra, cujo radical tradicional é pedr-, mas que assume a variante alomórfica petr- em palavras eruditas como petrificar ou petróleo. Essas nuances mostram como a língua portuguesa é dinâmica em seus processos de formação.