O chiste opera por meio de mecanismos linguísticos específicos que Freud categoriza meticulosamente. O "trabalho do chiste" (Witzarbeit) assemelha-se ao "trabalho do sonho" (Traumarbeit), utilizando processos primários como a condensação e o deslocamento. Na condensação, múltiplos elementos psíquicos são fundidos em uma única representação verbal ou palavra-valise. Um exemplo clássico citado por Freud é o termo "familionariamente", onde a fusão das palavras "familiar" e "milionário" denuncia a tensão entre a intimidade desejada e a barreira da classe social. No deslocamento, a ênfase psíquica é transferida de um elemento central e angustiante para um detalhe periférico ou ambíguo, permitindo que o sentido oculto escape à censura de forma disfarçada. Além disso, o chiste utiliza o uso do duplo sentido, o jogo de palavras e o contrassenso. Essas técnicas não são apenas ornamentos retóricos; elas são os veículos que permitem ao pensamento contornar os obstáculos da razão e da moralidade, proporcionando o que Freud chama de "ganho de prazer". Esse prazer advém da economia de gasto psíquico: quando um pensamento inibido encontra uma via de expressão técnica que "engana" a censura, a energia que seria usada para manter a repressão é liberada sob a forma de riso.
A Economia do Prazer e a Função Social do Terceiro
A estrutura do chiste envolve necessariamente uma tríade: o primeiro indivíduo (o autor do chiste), o segundo indivíduo (o objeto do chiste, que pode ser uma pessoa ou uma instituição) e o terceiro indivíduo (o ouvinte). Enquanto o autor do chiste não pode rir plenamente de sua própria criação no momento da concepção, pois está investido no esforço de elaboração técnica, o terceiro indivíduo recebe o chiste sem esforço psíquico. O riso do terceiro é a prova da eficácia do chiste. Do ponto de vista econômico, a psicanálise postula que o ser humano gasta uma quantidade massiva de energia psíquica para manter as inibições, os recalques e o pensamento lógico-racional. O chiste permite um breve retorno ao modo de pensar infantil, onde o jogo com as palavras e o absurdo eram permitidos antes da imposição do princípio da realidade. Ao suspender temporariamente a inibição, o chiste libera a "energia de repressão" excedente, que é então descarregada através do fenômeno fisiológico do riso. Portanto, o riso não é apenas uma resposta à graça, mas uma descarga de tensão psíquica acumulada.
Chistes Tendenciosos e a Expressão da Hostilidade e do Erotismo
Freud distingue os chistes entre "inocentes" ou abstratos e "tendenciosos". Os chistes inocentes encontram seu fim no próprio prazer do jogo verbal, enquanto os chistes tendenciosos possuem uma finalidade externa, servindo como veículos para a agressividade ou para o desejo sexual. No chiste hostil, o indivíduo consegue atacar um inimigo ou uma figura de autoridade de uma maneira que a sociedade considera aceitável ou espirituosa, contornando a agressão física ou o insulto direto. Já o chiste obsceno permite a exposição de conteúdos eróticos que seriam barrados pela vergonha ou pelo pudor. Em ambos os casos, a técnica do chiste serve como um suborno para a crítica do ego; a forma estética e o prazer técnico "seduzem" o ouvinte e o próprio autor, permitindo que conteúdos impulsivos do Id alcancem a consciência sem gerar culpa imediata. O chiste, nesse sentido, é uma rebelião contra a autoridade, seja ela a autoridade externa dos pais e do Estado, ou a autoridade interna do Superego. É uma forma de dizer o indizível, transformando o mal-estar em uma vitória momentânea da inteligência sobre a repressão cultural.
Diferenciação entre o Chiste o Cômico e o Humor
É crucial para o rigor psicanalítico não confundir o chiste com o cômico ou com o humor, embora todos pertençam ao domínio do "prazer do não-sentido". O cômico é uma descoberta que ocorre geralmente entre duas pessoas, onde o observador percebe uma desproporção ou uma inadequação no outro (um gasto excessivo de energia motora ou mental por parte do objeto observado). O cômico não exige o trabalho do inconsciente da mesma forma que o chiste; ele é mais visual e pré-consciente. Já o humor tem uma estrutura narcísica e defensiva distinta. No humor, o sujeito retira o investimento libidinal de uma situação traumática ou dolorosa e o transfere para o Superego, que passa a olhar para o Ego de uma perspectiva superior e protetora, como se dissesse: "Veja, este mundo que parece tão perigoso não passa de uma brincadeira de crianças". Enquanto o chiste busca o prazer através da liberação de inibições externas e internas com a ajuda de um terceiro, o humor é uma conquista do indivíduo sobre o sofrimento, uma afirmação da invulnerabilidade do ego frente às adversidades da vida.
Referências Bibliográficas
ASSOUN, Paul-Laurent. Freud e o chiste. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2006.
FREUD, Sigmund. O chiste e sua relação com o inconsciente (1905). Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2017. (Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, v. 7).
KHEL, Maria Rita. O tempo e o cão: a atualidade das depressões. São Paulo: Boitempo, 2009.
LACAN, Jacques. O seminário, livro 5: as formações do inconsciente (1957-1958). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1999.
MEZAN, Renato. Freud, pensador da cultura. 4. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.
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