18/08/2026
Quem é Atreu na Mitologia Grega?
A mitologia grega é atravessada por genealogias marcadas por maldições hereditárias, usurpações reais e crimes de extrema transgressão ética e religiosa. Ne panorama mítico situa-se a figura de Atreu, rei de Micenas, cujo nome não apenas batiza uma das linhagens mais trágicas da Antiguidade, os Atridas, como também encarna o ápice da vingança familiar, da ambição desmedida e da impiedade contra as leis divinas e humanas.
A trajetória de Atreu está ligada à mancha ancestral, conhecida no vocabulário grego como miasma, que contaminou a casa real da Lídia e de Pisa. Atreu era filho de Pélops e Hipodâmia, e, portanto, neto de Tântalo. Tântalo havia cometido o sacrilégio supremo de esquartejar o próprio filho, Pélops, e servi-lo aos deuses do Olimpo para testar a onisciência divina. Embora Pélops tenha sido ressuscitado pelas divindades, a mácula da violência intrafamiliar e do canibalismo cerimonial reapareceu na geração seguinte. Pélops, por sua vez, assassinou Mirtilo, o auriga que o ajudara a vencer a corrida de carruagens contra o rei Enômio para conquistar Hipodâmia. Ao despencar do penhasco onde fora empurrado por Pélops, Mirtilo rogou uma terrível praga sobre toda a descendência do usurpador.
Essa herança de violência desabrochou na rivalidade feroz entre Atreu e seu irmão gêmeo, Tiestes. A discórdia entre os irmãos manifestou-se inicialmente no assassinato de Crisipo, filho bastardo de Pélops com uma ninfa. Instigados por Hipodâmia, Atreu e Tiestes mataram o meio-irmão por ciúmes da preferência paterna, ato que resultou no banimento de ambos e na consolidação da maldição sobre os herdeiros de Pélops.
Acolhidos no Peloponeso, Atreu e Tiestes encontraram uma oportunidade de ascensão política em Micenas após a morte do rei Euristeu, que falecera sem deixar herdeiros diretos enquanto combatia os heráclidas. Um oráculo instruiu os micênicos a escolherem um filho de Pélops para governar a cidade. A disputa pelo cetro de Micenas converteu-se em um duelo de astúcia e sacrilégio entre os dois irmãos.
Atreu acreditava ter o direito divino ao trono por possuir um cordeiro de velo de ouro, um prodígio concedido por Hermes, embora destinado originalmente como sacrifício a Ártemis. No entanto, tomado pela ganância, Atreu ocultara o velo dourado em um baú em vez de sacrificá-lo à deusa. A esposa de Atreu, Aérope, mantinha um relacionamento adúltero com Tiestes e entregou secretamente o cordeiro de ouro ao amante. Quando a assembleia de Micenas se reuniu para decidir o novo soberano, Tiestes propôs que o trono fosse concedido a quem apresentasse o animal de vellocino dourado. Atreu aceitou confiante, mas foi surpreendido quando Tiestes exibiu o cordeiro mágico e reivindicou a coroa.
A intervenção divina de Zeus reverteu momentaneamente a usurpação. O pai dos deuses, indignado com a fraude, enviou Hermes para instruir Atreu a propor um novo pacto: caso o Sol invertesse o seu curso no céu, nascendo no oeste e pondo-se no leste, o trono pertenceria a Atreu. Tiestes considerou o feito impossível e concordou. Todavia, por prodígio divino, o Sol alterou a sua trajetória cosmológica, confirmando a preferência dos deuses por Atreu e desmascarando a fraude de Tiestes, que foi prontamente expulso do reino.
A soberania de Atreu, contudo, não se consolidou na paz, mas sim no desejo incontrolável de vingança ao descobrir o adultério de Aérope e a traição do irmão. Fingindo uma reconciliação, Atreu convidou Tiestes e seus filhos de volta a Micenas para um banquete de paz. Em segredo, Atreu mandou capturar os filhos jovens de Tiestes, assassinou-os, esquartejou seus corpos e cozinhou a sua carne, servindo o repasto ao próprio pai. Após Tiestes ter se saciado, Atreu revelou as mãos e os pés decepados das crianças em uma travessa, mostrando-lhe a atrocidade do que havia acabado de consumir. O horror desse ato foi de tal magnitude que o próprio Sol teria tapado a sua luz para não testemunhar a monstruosidade.
Tiestes amaldiçoou profundamente a linhagem de Atreu e buscou o auxílio do oráculo de Delfos para vingar a tragédia. A pítia revelou que apenas um filho concebido por Tiestes com a própria filha, Pelópia, seria capaz de matar Atreu. Desta união incestuosa nasceu Egisto. Criado sem conhecer sua verdadeira paternidade e posteriormente adotado pelo próprio Atreu, que ignorava a origem do menino, Egisto cresceu na corte micênica. Quando atingiu a maturidade, Egisto recebeu a missão de assassinar o prisioneiro Tiestes. Contudo, ao reconhecer a espada do filho, Tiestes revelou a verdade a Egisto, que retornou e assassinou Atreu, restabelecendo temporariamente Tiestes no trono de Micenas.
Apesar da morte de Atreu, seu legado trágico perpetuou-se através de seus filhos com Aérope: Agamêmnon e Menelau. Conhecidos na literatura épica como os Atridas, eles foram acolhidos por Tíndaro em Esparta, recuperaram o trono de Micenas e lideraram a expedição grega contra Tróia. A maldição de Atreu continuou a se manifestar no sacrifício de Ifigênia por Agamêmnon, no assassinato de Agamêmnon por sua esposa Clitemnestra e por Egisto, e na subsequente vingança de Orestes, configurando um dos ciclos dramáticos mais profundos da tragédia grega.
Referências Bibliográficas
ESQUILO. Orestéia: Agamêmnon, Coéforas, Eumênides. Tradução de Mário da Gama Kury. 1. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1991.
Ver na AmazonEURÍPIDES. Ifigênia em Áulis, As Fenícias, As Bacantes. 5. ed. Tradução de Mário da Gama Kury, 1993.
Ver na AmazonGRAVES, Robert. Os Mitos Gregos: Box com dois volumes. 2. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2021.
Ver na AmazonGRIMAL, P. Dicionário da mitologia grega e romana. [Tradução de Victor Jabouille]. 7ª ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1993.
Ver na AmazonHAMILTON, Edith. Mitologia: Contos imortais de deuses e heróis. 1. ed. Rio de Janeiro: Editora Sextante, 2022.
Ver na AmazonKÉRÉNYI, K. Os Deuses dos Gregos. São Paulo: Cultrix, 1997.
Ver na AmazonSÊNECA. Tiestes. Tradução de José Eduardo dos Santos Lohner. 1. ed. Araçoiaba da Serra-SP: Editora Mnēma, 2026.
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