A história de Ascálabo está ligada ao mito de Deméter, a deusa da agricultura, da colheita e do ciclo da vida e da morte, durante o período de sua mais profunda angústia. Após o rapto de sua filha, Perséfone, pelo senhor do submundo, Hades, Deméter abandonou suas funções divinas e o próprio Monte Olimpo. Consumida pela dor e pelo luto, ela assumiu a forma de uma velha mortal e passou a vagar pela Terra em uma busca incessante por qualquer pista do paradeiro de sua filha. Essa jornada a levou a percorrer longas distâncias, sob o peso de um cansaço físico simulado, mas de uma agonia espiritual genuína.
De acordo com as variantes do mito, mais notavelmente registradas por autores clássicos e tardios que se dedicaram às metamorfoses, Deméter chegou à região da Ática, exausta e ardendo em sede devido ao calor escaldante do sol. Ao parar diante de uma cabana, foi acolhida por uma mulher idosa chamada Misme, que demonstrou a tradicional hospitalidade grega, um preceito sagrado conhecido como xenia. Percebendo o estado deplorável daquela misteriosa viajante, Misme ofereceu-lhe uma bebida para aplacar a sede: o cíceon, uma mistura tradicional feita de água, farinha de cevada e hortelã, frequentemente associada aos rituais de mistério da deusa.
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Sedenta pela longa caminhada, Deméter aceitou e bebeu o líquido de forma ávida e contínua, esvaziando o vasilhame com grande pressa. Foi nesse momento que surgiu Ascálabo, que era filho de Misme. Ao presenciar a cena daquela anciã bebendo de maneira tão sôfrega e desmedida, o jovem foi tomado por uma atitude de escárnio. Em vez de demonstrar o respeito devido aos mais velhos ou a compaixão exigida pelo sofrimento alheio, Ascálabo zombou abertamente da deusa disfarçada, exclamando de forma insolente que ela precisava de um vaso de pescoço largo ou que bebia como um animal insaciável.
A reação da divindade foi imediata e implacável. O insulto proferido por Ascálabo não feriu apenas o orgulho de uma mulher comum, mas violou a santidade de uma das deusas mais poderosas do panteão grego, manifestando-se como um ato de pura hybris. Tomada pela ira que já fervilhava em seu peito devido à perda de Perséfone, Deméter não hesitou em punir o provocador. Ela lançou o restante do cíceon, que ainda continha os grãos de cevada, diretamente no rosto de Ascálabo.
O líquido e a cevada misturados à vontade divina desencadearam uma transformação instantânea no corpo do rapaz. A pele de Ascálabo começou a encolher e a se cobrir de pequenas manchas, imitando os grãos que o haviam atingido. Seus membros encurtaram, uma cauda brotou de sua coluna e ele foi reduzido a uma criatura rastejante, perdendo completamente a voz humana para emitir apenas um leve som sibilante. Ascálabo foi transformado no geco-da-parede ou na lagartixa-estelionada, um pequeno réptil que os gregos antigos passaram a chamar pelo seu próprio nome.
Referências Bibliográficas
GRIMAL, P. Dicionário da mitologia grega e romana. [Tradução de Victor Jabouille]. 7ª ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1993.
OVÍDIO. Metamorfoses. Tradução de Rodrigo Tadeu Gonçalves. 1. ed. São Paulo: Penguin-Companhia, 2023.
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