O que significa Peripécia na Teoria da Literatura?

O filósofo grego Aristóteles define a peripécia como a mutação das ações no sentido contrário ao que parecia indicado. Trata-se da reviravolta, da brusca inversão de fortuna pela qual passa o protagonista. Contudo, para que esse recurso possua real valor literário, Aristóteles impõe uma condição rigorosa: a mudança não pode ser um evento arbitrário ou um golpe gratuito do destino. Ela precisa ocorrer de acordo com as leis da verossimilhança e da necessidade. Ou seja, o leitor ou espectador deve sentir que a reviravolta é, ao mesmo tempo, surpreendente e inevitável, decorrente das próprias ações e escolhas prévias do herói.

Essa inversão caminha de mãos dadas com outro conceito crucial da tragédia clássica, a hamartia, frequentemente traduzida como a falha trágica ou o erro de julgamento do herói. É precisamente esse deslize, muitas vezes alimentado pela hybris, a soberba ou o orgulho desmedido que desafia os limites humanos, que planta as sementes para que a peripécia aconteça. O herói age acreditando estar no controle de seu destino, mas suas próprias ações acabam precipitando a sua queda de forma irônica.

Na tragédia perfeita analisada por Aristóteles, a peripécia atinge seu ápice quando ocorre em perfeita simultaneidade com a anagnorise, termo grego para o reconhecimento. O reconhecimento é a passagem da ignorância para o conhecimento. Quando a venda cai dos olhos do protagonista e ele compreende a terrível verdade de sua situação, a peripécia se consuma. É o momento em que a felicidade se converte em infelicidade. Essa transição abrupta e dolorosa engaja a audiência em um processo de identificação profunda, culminando na catástrofe, o desfecho doloroso e destrutivo da trama, e, finalmente, promovendo a catarse, que é a purgação das emoções de terror e piedade no espectador.

O exemplo supremo dessa engrenagem perfeita, citado pelo próprio Aristóteles, é a tragédia Édipo Rei, de Sófocles. Na peça, um mensageiro chega a Tebas com a intenção de tranquilizar Édipo, trazendo a notícia de que o homem que ele acreditava ser seu pai falecera de causas naturais, o que teoricamente o livraria da profecia de parricídio. No entanto, ao tentar acalmar o rei e revelar detalhes sobre sua verdadeira origem para afastar seus temores, o mensageiro acaba revelando que Édipo fora adotado. Essa revelação aciona a anagnorise: Édipo descobre que matou seu verdadeiro pai, Laio, e desposou sua própria mãe, Jocasta. O que deveria ser um momento de alívio transforma-se instantaneamente na peripécia mais devastadora da história do teatro ocidental, precipitando a catástrofe de sua autodestruição e cegueira voluntária.

Embora tenha nascido nos palcos da antiguidade, a peripécia transcendeu a tragédia clássica e se consolidou como um pilar de sustentação da narrativa de todas as eras, incluindo a literatura moderna e contemporânea. Em Otelo, de William Shakespeare, testemunhamos uma peripécia de contornos psicológicos e maquiavélicos. O protagonista, um general outrora seguro e honrado, vê sua fortuna e sanidade ruírem no momento em que a manipulação de Iago atinge o ponto sem retorno. A peripécia se dá quando o amor profundo de Otelo por Desdémona se inverte em um ciúme patológico e assassino, levando-o a consumar a tragédia antes de reconhecer, tarde demais, a inocência de sua esposa e a traição de seu conselheiro.

No contexto da literatura em língua portuguesa, podemos observar a diluição e a sofisticação desse recurso no realismo de Machado de Assis, particularmente em Dom Casmurro. A narrativa de Bento Santiago é construída sob a tensão constante de uma peripécia que se desenrola de maneira lenta e subjetiva. A inversão da felicidade doméstica de Bentinho em relação a Capitu e ao filho Ezequiel não decorre de um evento externo espetacular, mas da progressiva e obsessiva desconfiança do narrador sobre a fidelidade de sua esposa. A peripécia machadiana reside na transição silenciosa da idílica promessa de amor da infância para o isolamento amargo e solitário do "Casmurro" em sua casa de Engenho de Dentro, mostrando que a virada de fortuna na modernidade pode habitar as frestas da dúvida e da própria mente humana.

Aprenda mais sobre esse conceito lendo…

Poética

Por: Aristóteles

O primeiro e mais importante tratado sobre as formas literárias da tradição ocidental, a Poética de Aristóteles (384-322 a.C.) não tem deixado de ser lida e interpretada ao longo de seus 23 séculos de existência. A presente tradução de Paulo Pinheiro, professor de Estética e Filosofia, rigorosamente amparada em notas e atenta às pesquisas mais recentes, faz reviver o texto original de maneira clara e profunda, numa edição bilíngue voltada tanto para estudantes como para leitores já iniciados na matéria.

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