O que significa Peripécia na Teoria da Literatura?
O filósofo grego Aristóteles define a peripécia como a mutação das ações no sentido contrário ao que parecia indicado.
Essa inversão caminha de mãos dadas com outro conceito crucial da tragédia clássica, a hamartia, frequentemente traduzida como a falha trágica ou o erro de julgamento do herói.
Na tragédia perfeita analisada por Aristóteles, a peripécia atinge seu ápice quando ocorre em perfeita simultaneidade com a anagnorise, termo grego para o reconhecimento.
O exemplo supremo dessa engrenagem perfeita, citado pelo próprio Aristóteles, é a tragédia Édipo Rei, de Sófocles. Na peça, um mensageiro chega a Tebas com a intenção de tranquilizar Édipo, trazendo a notícia de que o homem que ele acreditava ser seu pai falecera de causas naturais, o que teoricamente o livraria da profecia de parricídio. No entanto, ao tentar acalmar o rei e revelar detalhes sobre sua verdadeira origem para afastar seus temores, o mensageiro acaba revelando que Édipo fora adotado. Essa revelação aciona a anagnorise: Édipo descobre que matou seu verdadeiro pai, Laio, e desposou sua própria mãe, Jocasta.
Embora tenha nascido nos palcos da antiguidade, a peripécia transcendeu a tragédia clássica e se consolidou como um pilar de sustentação da narrativa de todas as eras, incluindo a literatura moderna e contemporânea.
No contexto da literatura em língua portuguesa, podemos observar a diluição e a sofisticação desse recurso no realismo de Machado de Assis, particularmente em Dom Casmurro. A narrativa de Bento Santiago é construída sob a tensão constante de uma peripécia que se desenrola de maneira lenta e subjetiva. A inversão da felicidade doméstica de Bentinho em relação a Capitu e ao filho Ezequiel não decorre de um evento externo espetacular, mas da progressiva e obsessiva desconfiança do narrador sobre a fidelidade de sua esposa. A peripécia machadiana reside na transição silenciosa da idílica promessa de amor da infância para o isolamento amargo e solitário do "Casmurro" em sua casa de Engenho de Dentro, mostrando que a virada de fortuna na modernidade pode habitar as frestas da dúvida e da própria mente humana.
Aprenda mais sobre esse conceito lendo…
Poética
Por: Aristóteles
O primeiro e mais importante tratado sobre as formas literárias da tradição ocidental, a Poética de Aristóteles (384-322 a.C.) não tem deixado de ser lida e interpretada ao longo de seus 23 séculos de existência. A presente tradução de Paulo Pinheiro, professor de Estética e Filosofia, rigorosamente amparada em notas e atenta às pesquisas mais recentes, faz reviver o texto original de maneira clara e profunda, numa edição bilíngue voltada tanto para estudantes como para leitores já iniciados na matéria.
Frederico Lima
Graduado em Letras (Língua Portuguesa), mestre e doutor em Letras (Literatura, Teoria e Crítica) pela Universidade Federal da Paraíba. Pesquisador com trabalhos publicados em periódicos científicos, capítulos de livros e congressos acadêmicos. Também é assessor de editoração digital de revistas científicas.
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