Na ciência da linguagem, existe um consenso que desafia a forma como tradicionalmente pensamos o aprendizado de novos idiomas: é absolutamente impossível separar uma língua da cultura de seu povo. O linguista Kanavillil Rajagopalan define essa relação de maneira precisa ao comparar língua e cultura a gêmeos siameses, argumentando que tentar entender uma sem invocar a outra é um esforço fadado ao fracasso. Para jogar luz sobre essa conexão vital e debater como ela se manifesta nas salas de aula, a Revista Horizontes de Linguística Aplicada acaba de lançar uma chamada pública para o dossiê temático intitulado "Aspectos culturais na educação em línguas: olhares, propostas e compromissos".
A iniciativa é capitaneada por um trio de pesquisadores de diferentes instituições: Yamilka Rabasa Fernández, da Universidade de Brasília; Antonio Cardentey, do Georgia Institute of Technology; e Fernanda Tonelli, do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo. Juntos, os organizadores propõem uma reflexão profunda sobre o que realmente significa "cultura" no ecossistema educacional de hoje. O conceito, como explicam as teorias contemporâneas, vai muito além de festivais folclóricos ou curiosidades turísticas. Passa pelas definições do crítico literário Terry Eagleton sobre os modos de vida e os conhecimentos implícitos que usamos para negociar nossas ações no dia a dia, alcança as provocações de Stuart Hall sobre como toda ação social é essencialmente cultural e abraça a visão da linguista Silvana Serrani, que enxerga a cultura como uma ferramenta poderosa para a reivindicação de identidades, especialmente daquelas historicamente postas à margem da sociedade.
O grande desafio da linguística aplicada atual é fazer com que essa densidade cultural ganhe vida nas práticas pedagógicas de ensino e aprendizagem de línguas, escapando de armadilhas comuns como a banalização e o exotismo. Felizmente, a própria ciência tem desenhado caminhos. Modelos consolidados, como a Competência Comunicativa Intercultural de Michael Byram, a Abordagem Comunicativa Intercultural desenvolvida por Edleise Mendes, a Proposta Multirrede-Discursiva de Serrani e a busca por uma Consciência Crítica Intercultural proposta por Manuela Guilherme, funcionam como bússolas para uma educação que se pretenda verdadeiramente emancipatória. Além disso, conceitos que ganham força dentro e fora dos muros acadêmicos, como o multiculturalismo e a transculturalidade, reforçam a urgência de expandir essas conversas.
É justamente para dar palco a essas discussões que o dossiê está aberto a contribuições de pesquisadores e docentes da área. O comitê editorial busca trabalhos acadêmicos que provoquem deslocamentos, atualizações e propostas práticas no campo do ensino de línguas estrangeiras, adicionais ou de herança. O escopo da chamada engloba o envio de artigos focados na discussão e análise de propostas didáticas inovadoras, relatos detalhados de experiências vividas dentro ou fora da sala de aula, reflexões teóricas profundas sobre o binômio língua-cultura que sirvam de subsídio para o trabalho dos professores, além de novos olhares conceituais voltados para a própria formação de docentes.
Os interessados em fazer parte dessa construção científica coletiva podem submeter seus manuscritos em três idiomas: português, espanhol ou inglês. O período para o envio dos textos começa hoje, dia 15 de julho de 2026, e se estende até o dia 31 de agosto de 2026. A previsão da equipe editorial é que o volume completo venha a público no primeiro semestre de 2027.
Mais informações: https://periodicos.unb.br/index.php/horizontesla/announcement/view/1018