Revista Em Tese abre chamada para dossiê sobre "Poéticas do Ininteligível e a Crise da Representação da Ciência Contemporânea"

Se você tentou acompanhar os avanços mais recentes da física quântica, da inteligência artificial ou do estudo dos buracos negros, provavelmente sentiu uma estranha sensação: as equações funcionam perfeitamente na prática, mas nosso cérebro simplesmente não consegue formar uma "imagem mental" do que elas significam. É o chamado paradoxo da opacidade cognitiva, a tecnologia e os modelos científicos entregam previsões cirúrgicas, mas resistem às nossas formas tradicionais de visualização e narrativa.

Para debater como a literatura e as artes estão respondendo a esse abismo entre o que sabemos calcular e o que conseguimos imaginar, a revista Em Tese, periódico eletrônico do Programa de Pós-Graduação em Estudos Literários da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), anunciou a chamada para o dossiê "DE DANTE AOS BURACOS NEGROS: Poéticas do Ininteligível e a Crise da Representação da Ciência Contemporânea".

Historicamente, a literatura e as ciências mantinham um diálogo próximo. De Dante Alighieri a Luís de Camões, a figura clássica da "Máquina do Mundo" oferecia uma visão de cosmos ordenado, visível e arquitetado, no qual a realidade cabia em alegorias claras e inteligíveis.

No entanto, como ressalta o físico Carlo Rovelli e teóricos da ciência contemporânea, a física moderna substituiu as "coisas" por uma rede contínua de "eventos" e interações. Quando a ciência passa a lidar com singularidades em buracos negros, incertezas quânticas, algoritmos inacessíveis de inteligência artificial ou o "tempo profundo" das mudanças climáticas, a intuição humana falha. Entramos em um estado de escassez alegórica.

Organizado pelo pesquisador Danilo de Athayde (UFMG / Universidade do Porto), o novo dossiê propõe investigar as "poéticas do ininteligível": quais estratégias formais e narrativas os escritores, artistas e teóricos vêm criando para dar forma àquilo que escapa aos sentidos e aos modelos clássicos de representação?

A proposta ganha força ao convocar o debate a partir da perspectiva brasileira e latino-americana. Em um cenário marcado pelo diálogo entre os Estudos de Ciência e Tecnologia (STS), História das Ciências e a Filosofia, o dossiê aposta em um "novo humanismo pós-reducionista". A meta é superar a histórica divisão entre as "duas culturas" (humanidades e ciências exatas) sem recorrer ao relativismo ingênuo nem ao determinismo cego da tecnocracia.

Pesquisadores, ensaístas e artistas têm até o dia 30 de setembro de 2026 para enviar suas contribuições através do sistema da revista (seção Faça uma submissão no portal da Em Tese).

A revista Em Tese também mantém fluxo contínuo para artigos inéditos em Teoria da Literatura, Literatura Comparada, Literaturas de Língua Portuguesa e Literaturas Estrangeiras.

Para dúvidas diretas sobre o dossiê, o contato do organizador Danilo de Athayde está disponível via e-mail (danilodeathayde@gmail.com). Contribua e ajude a mapear como a arte e o pensamento crítico traduzem o invisível do nosso tempo.

Mais informaçõeshttps://periodicos.ufmg.br/index.php/emt/announcement/view/715

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Frederico Lima

Graduado em Letras (Língua Portuguesa), mestre e doutor em Letras (Literatura, Teoria e Crítica) pela Universidade Federal da Paraíba. Pesquisador com trabalhos publicados em periódicos científicos, capítulos de livros e congressos acadêmicos. Também é assessor de editoração digital de revistas científicas.

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