Do ponto de vista linguístico, o vocábulo grego Phaíakes, que transita para o latim e o português como feaces, guarda em sua gênese uma forte ligação com o termo phaiós, cuja tradução remete ao matiz cinza-escuro. Essa denominação possivelmente funcionava como uma referência direta à cor característica da indumentária utilizada pelos habitantes da Ilha de Corcira. Histórica e mitologicamente, esse povo tinha por epônimo a figura de Féax, herói de quem derivavam seu nome e sua linhagem familiar. Originalmente, os feaces habitavam a região da Hespéria, contudo, devido à hostilidade e à violência dos Ciclopes, vizinhos temíveis e brutais, viram-se forçados a abandonar suas terras. Sob a liderança firme de seu herói epônimo, realizaram um grande êxodo em direção à Ilha de Esquéria. Desde a Antiguidade clássica, esse novo assentamento insular passou a ser identificado geograficamente com Corcira, ilha que modernamente conhecemos como Corfu, situada nas águas profundas do Mar Jônico.
Na Esquéria, os feaces desenvolveram uma civilização profundamente vinculada ao elemento marítimo. Tornaram-se marinheiros excelentes, dotados de uma perícia náutica incomparável, dedicando-se com maestria à navegação e ao comércio de longa distância. Mais do que simples comerciantes, eles habitavam o que a literatura clássica descreve como uma ilha de sonhos, um refúgio utópico que guarda imensas semelhanças conceituais com a célebre Atlântida idealizada por Platão. Sob o ponto de vista político, essa sociedade era governada pela autoridade compartilhada de Alcínoo e Arete. Esta última destacava-se de forma incomum no mundo antigo, sendo retratada na Odisseia como uma rainha de grandioso prestígio, sabedoria e personalidade marcante, cuja influência sobre o rei e sobre as decisões de Estado era amplamente respeitada por todos os cidadãos.
A relevância dos feaces na tradição mitológica se consolida principalmente por meio da hospitalidade sagrada que ofereceram a grandes heróis em momentos de desespero. O episódio mais célebre ocorre quando Ulisses, após partir da Ilha de Ogígia, vê seu frágil batel completamente destruído pela fúria implacável de Posídon, o deus dos mares. Náufrago e desamparado, o astuto rei de Ítaca recolhe-se à corte de Alcínoo. Na Esquéria, os feaces o acolhem não como um estrangeiro qualquer, mas com todas as honras devidas a um monarca e a um herói de guerra. Após ser cumulado de presentes valiosos e banquetes, Ulisses obtém o auxílio dos hábeis marinheiros locais, que o transportam de volta à sua pátria. Essa generosidade, no entanto, cobra um preço altíssimo. Posídon, que ainda guardava rancor pelo fato de Ulisses ter cegado seu filho, o Ciclope Polifemo, irrita-se ao ver o herói salvo e solicita a Zeus a permissão para punir os nautas. Em um ato de vingança divina, o deus dos mares transforma o navio dos feaces em um rochedo eterno e cerca a Ilha de Corcira com uma gigantesca e intransponível muralha de montanhas, isolando-os do resto do mundo.
Além do auxílio prestado a Ulisses, a corte de Alcínoo e Arete serviu de cenário para outro momento crucial do heroísmo grego, envolvendo os Argonautas em seu complexo retorno da Cólquida. Ao buscarem refúgio na ilha dos feaces enquanto fugiam da frota persecutória do rei Eetes, os viajantes encontraram ali o amparo necessário. Foi graças à sagacidade e à intervenção diplomática da rainha Arete que Jasão uniu-se formalmente a Medeia, desposando-a naquele solo sagrado. O matrimônio estratégico impediu legalmente que os enviados do rei da Cólquida levassem a jovem feiticeira de volta ao seu pai, assegurando o sucesso final da jornada da nau Argo e demonstrando, mais uma vez, o papel civilizatório e protetor que os feaces exerciam no imaginário grego.
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Odisseia
Por: Homero
A narrativa do regresso de Ulisses a sua terra natal é uma obra de importância sem paralelos na tradição literária ocidental. Sua influência atravessa os séculos e se espalha por todas as formas de arte, dos primórdios do teatro e da ópera até a produção cinematográfica recente. Odisseia se tornou também um substantivo comum, que denomina jornadas marcadas por perigos e eventos inesperados, e Homero um adjetivo usado para relatar feitos grandiosos. Seus episódios e personagens - a esposa fiel Penélope, o filho virtuoso Telêmaco, a possessiva ninfa Calipso, as sedutoras e perigosas sereias - são parte integrante e indelével de nosso repertório cultural.