Quem é Thomas H. Ogden na história da Psicanálise?

A história da psicanálise contemporânea é marcada por uma transição profunda da clássica psicologia de uma pessoa para a complexidade da psicologia de duas pessoas. No epicentro dessa transformação teórica e clínica encontra-se Thomas Ogden, um dos mais influentes psicanalistas norte-americanos vivos. Com uma formação robusta que articula a tradição kleiniana, a teoria das relações objetais britânica, especialmente as contribuições de Donald Winnicott e W.R.D. Fairbairn, e a psicologia do ego americana, Ogden operou uma síntese conceitual original que reconfigurou a nossa compreensão do encontro analítico. A sua obra não se limita a comentar a tradição, mas a expandi-la através de uma sensibilidade poética e de um rigor clínico que conferem à prática psicanalítica uma nova dimensão ontológica, transformando o consultório em um espaço de geração de sujeitos e de resgate de experiências humanas não vividas.

O Terceiro Analítico Intersubjetivo e a Co-criação da Matriz Psíquica

A contribuição mais célebre de Thomas Ogden para o arcabouço teórico da psicanálise é, indiscutivelmente, o conceito do "terceiro analítico". Afastando-se de uma visão em que o analista atua como um observador neutro ou uma tela em branco onde o paciente projeta os seus conflitos internos, Ogden postula que o processo analítico é gerado por uma matriz intersubjetiva assimétrica. Quando duas mentes se encontram no enquadre analítico, cria-se uma terceira entidade psicológica, o terceiro analítico, que não é a soma de duas individualidades, nem um simples reflexo de uma delas, mas uma co-criação única e flutuante que existe exclusivamente no espaço entre o analista e o analisando.

Essa formulação teórica subverte a noção tradicional de transferência e contratransferência. Para Ogden, os pensamentos, sentimentos, devaneios e sensações corporais que o analista experimenta durante a sessão não pertencem puramente à sua própria neurose ou história pessoal, tampouco são apenas induções mecânicas da identificação projetiva do paciente. Em vez disso, essas manifestações são os primeiros sinais da existência do terceiro analítico ganhando forma na mente do analista. O trabalho clínico, portanto, consiste na capacidade do analista de vivenciar essa experiência intersubjetiva e, posteriormente, submetê-la a uma autorreflexão de modo a transformá-la em pensamento interpretativo, permitindo que aquilo que estava inconsciente e encapsulado na relação possa ser nomeado e integrado.

A Dialética das Posições Esquizo-paranoide, Depressiva e Autista-contígua

No campo da metapsicologia, Ogden realizou uma releitura fundamental da teoria das posições de Melanie Klein, expandindo-a através da introdução de uma terceira posição e redefinindo a relação entre elas não como etapas evolutivas lineares, mas como uma estrutura dialética permanente da experiência humana. Enquanto Klein formulou as posições esquizo-paranoide e depressiva como fases do desenvolvimento infantil que se reatualizam ao longo da vida, Ogden propôs que essas posições coexistem em uma tensão dinâmica contínua, onde a saúde psíquica depende da capacidade do sujeito de transitar de forma fluida entre os diferentes modos de gerar experiência.

A essa dialética bioniana e kleiniana, Ogden acrescentou a "posição autista-contígua". Esta constitui um modo de organização psíquica primitivo, pré-verbal e essencialmente sensorial, focado na continuidade e na contiguidade das superfícies da pele, nos ritmos biológicos e na busca por texturas e formas de delimitação do self. Trata-se de uma dimensão da experiência humana ligada à necessidade de segurança e de atribuição de contorno ao existir. Quando há um colapso na posição autista-contígua, o indivíduo experimenta angústias de queda infinita, dissolução ou vazamento do self. Na síntese de Ogden, a experiência humana é continuamente moldada pela inter-relação entre o fechamento sensorial da posição autista-contígua, a fragmentação e a atribuição de significados unívocos da posição esquizo-paranoide, e a historicidade, a culpa e a aceitação da ambivalência próprias da posição depressiva.

O Encontro Clínico como Ressignificação da Experiência Não Vivida

Inspirado profundamente pelo pensamento tardio de Donald Winnicott e pelas formulações de Wilfred Bion sobre a capacidade de pensar, Ogden redirecionou o objetivo principal do tratamento psicanalítico. Para ele, o sofrimento psíquico profundo, manifestado em pacientes limítrofes, psicóticos ou com graves transtornos de personalidade, não decorre primariamente de conflitos reprimidos entre o desejo e a defesa, mas sim da incapacidade do sujeito de gerar uma experiência interna rica e significativa. Esses pacientes habitam áreas de "não-vida", onde determinados traumas primitivos impediram o desenvolvimento da capacidade de sonhar os próprios medos e dores.

A clínica de Ogden, portanto, não visa prioritariamente a tradução do inconsciente reprimido através do insight intelectual, mas sim a reparação do tecido psíquico rompido. O analista atua como um contentor e um transformador que ajuda o paciente a "sonhar os seus sonhos não sonhados" e a "viver as suas experiências não vividas". O processo terapêutico torna-se uma ontogênese, isto é, um espaço propício para o nascimento e para o desenvolvimento do self do paciente. Através da sintonização profunda com as sutilezas da sessão, o analista oferece as condições intersubjetivas necessárias para que o paciente comece a existir psiquicamente naquelas áreas que antes estavam anestesiadas, dissociadas ou mortas.

O Devaneio como Instrumento Técnico Central na Prática Psicanalítica

Uma das maiores audácias técnicas de Thomas Ogden foi a teorização e a legitimação do "devaneio do analista" (reverie) como a principal ferramenta de acesso ao inconsciente do paciente. Enquanto a técnica clássica alertava contra as distrações do analista durante a sessão, interpretando-as como resistências contratransferenciais, Ogden demonstrou que os pensamentos aparentemente triviais, as fantasias sexuais ou agressivas, as lembranças cotidianas e as sensações somáticas que invadem a mente do terapeuta são a via régia para a compreensão do terceiro analítico.

O devaneio não é um desvio da atenção flutuante, mas a sua manifestação mais pura em uma psicologia de duas mentes. Ogden argumenta que, como o paciente muitas vezes não consegue verbalizar o seu sofrimento primitivo por falta de estrutura simbólica, esse sofrimento é encenado na sessão e capturado pelo inconsciente do analista sob a forma de imagens e pensamentos marginais. O analista treinado aprende a não descartar essas intrusões mentais, mas a questionar-se sobre o motivo pelo qual está pensando exatamente naquilo, naquele momento específico, com aquele paciente. Ao decodificar o significado do seu próprio devaneio, o analista consegue formular intervenções que dão voz e contorno a angústias que o paciente carregava, mas que nunca havia sido capaz de formular para si mesmo.

A Linguagem da Psicanálise e a Escrita como Ato Analítico

A relevância de Thomas Ogden na história da psicanálise estende-se para além dos seus conceitos teóricos e clínicos, alcançando a sua postura estética diante da transmissão da psicanálise. Ogden argumenta que a linguagem psicanalítica não deve ser puramente expositiva ou acadêmica, mas sim evocativa. O texto psicanalítico precisa espelhar a própria experiência do inconsciente, carregando uma qualidade poética que faça o leitor não apenas compreender intelectualmente um conceito, mas senti-lo no próprio corpo e na própria mente.

Essa postura reflete-se na sua prolífica produção bibliográfica, em que cada livro funciona como uma extensão do enquadre analítico, convidando o leitor a participar dos impasses e das descobertas das sessões descritas. Para Ogden, escrever sobre psicanálise é um ato clínico em si mesmo, uma tentativa de capturar a vivacidade e a efemeridade do terceiro analítico sem fossilizá-lo em dogmas teóricos. Ao enfatizar a criatividade, a literatura e a voz singular de cada analista, ele libertou a literatura psicanalítica de um jargão excessivamente burocrático, consolidando o seu lugar como o grande estilista e o filósofo da experiência clínica do nosso tempo, cuja obra assegura que a psicanálise permaneça uma ciência viva, aberta ao mistério do encontro humano


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Sobre o Autor: Frederico Lima

Doutor em Letras pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB), psicanalista, especialista em Teoria Psicanalítica, pesquisador com trabalhos publicados em periódicos científicos, capítulos de livros e anais de eventos. Possui experiência na editoração digital de revistas científicas, formatação e revisão de textos acadêmicos. Também é entusiasta da tecnologia, em especial de programas de código aberto.

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