ABASIOFILIA sob um olhar psicanalítico
A abasiofilia, enquanto manifestação fenomenológica no vasto campo das parafilias, evoca uma das interrogações mais profundas da clínica analítica: a intrincada relação entre o desejo humano, a castração e a eleição de objeto. Para a psicanálise, uma perversão não se define por um julgamento moral ou por um desvio estatístico de uma suposta norma anatômica, mas sim por uma estrutura de funcionamento psíquico singular, rigidamente organizada para lidar com a angústia fundamental. No caso específico do interesse erótico direcionado a indivíduos com mobilidade reduzida, que utilizam aparelhos ortopédicos, cadeiras de rodas ou que apresentam alguma forma de impedimento motor no caminhar, o analista é convocado a escutar o que se encena na superfície desse corpo marcado. Não se trata de uma simples excentricidade do olhar, mas de um arranjo defensivo sofisticado, cujo teatro inconsciente visa responder ao enigma do falo e à ameaça crônica de desorganização do Eu.
Para compreender esse fenômeno sob o rigor da metapsicologia, faz-se necessário desdobrar os fios que tecem a fantasia abasiofílica, partindo do princípio de que o corpo para a psicanálise não se reduz ao organismo biológico. O corpo humano é uma construção pulsional, cartografada pelas inscrições do Outro e investida de significações simbólicas e imaginárias. Quando o olhar do sujeito se fixa com exclusividade e necessidade imperiosa na fragilidade motora ou no aparato que a corrige, o que está em jogo é a reescrita de um trauma e a tentativa de tamponar uma falta que, de outro modo, seria insuportável ao psiquismo.
O fetichismo e a recusa da castração anatômica
O fundamento teórico indispensável para a leitura psicanalítica da abasiofilia reside na teoria freudiana do fetichismo, formalizada por Sigmund Freud a partir do conceito de Verleugnung (recusa ou desmentido). Na economia psíquica estruturada em torno do fetichismo, o sujeito depara-se na infância com a percepção da ausência do falo na mãe, um momento crucial que atualiza a ameaça de castração. Diante dessa constatação traumática que fratura a ilusão da completude materna, o ego opera uma clivagem: ele reconhece a realidade da falta, mas simultaneamente a recusa, erguendo em seu lugar um substituto simbólico, o fetiche, que visa atestar que nada foi perdido.
Na abasiofilia, essa dinâmica ganha contornos específicos na medida em que o aparato ortopédico, a cadeira de rodas, as muletas ou a própria perna paralisada passam a funcionar como esse substituto fálico monumentalizado. O objeto técnico ou a deformidade visível operam como uma dobra no real. Ao fixar o desejo naquilo que limita o movimento, o sujeito realiza um duplo movimento psíquico. Por um lado, a vulnerabilidade física do objeto de amor escancara a incompletude e a fragilidade do corpo, espelhando a própria castração. Por outro, os dispositivos que sustentam esse corpo (como gessos, amarras e estruturas metálicas) ou a própria condição de dependência mecânica são erotizados e investidos como insígnias de poder e sustentação. O fetiche ortopédico torna-se, portanto, o mediador que permite ao sujeito gozar sob a condição de que a falta esteja visivelmente localizada e controlada no corpo do outro. Não se busca a perfeição anatômica idealizada pela neurose; busca-se a falha precisamente costurada pelo aparato, garantindo que o horror do vazio fálico seja transformado em excitação estética e pulsional.
A economia do olhar e o voyeurismo na cena perversa
A pulsão, conforme descrita por Freud, é intrinsecamente parcial e fragmentada em seus primórdios, encontrando na pulsão escópica (o prazer de olhar e ser olhado) uma de suas vias mais potentes de satisfação. Na abasiofilia, assiste-se a uma hipertrofia desse componente escópico, onde o ver e o fantasiar sobre a mecânica corporal claudicante sobrepõem-se, frequentemente, ao ato sexual genital estrito. Jacques Lacan, ao avançar na conceituação do objeto a na qualidade de causa do desejo, posiciona o olhar como um desses objetos destacáveis do corpo que capturam o sujeito na rede do gozo.
O olhar abasiofílico não é um olhar passivo de contemplação estética, mas um olhar estruturante que busca ativamente o ponto de hiato no movimento do outro. A marcha hesitante, o ranger das engrenagens de uma cadeira de rodas ou a rigidez de uma órtese são os significantes que acionam o circuito pulsional. Há uma coreografia inconsciente onde o sujeito se posiciona como a testemunha ocular de uma performance da limitação. Esse olhar exerce uma função de borda: ele delimita o contorno do objeto erótico, recortando a deficiência não como um traço de repulsa, mas como o próprio fulcro onde o desejo se ancora. O voyeurismo aqui implicado serve para manter o Outro em uma posição de vulnerabilidade controlada. Ao observar a dificuldade motora, o sujeito extrai um mais-de-gozar que subverte a lógica da impotência; a impotência mecânica do objeto transforma-se na potência erótica do observador, permitindo que este último manipule imaginariamente as coordenadas da angústia de fragmentação corporal que assombra o humano desde o estágio do espelho.
O estágio do espelho e a fragilidade do Eu imaginário
A constituição do Eu (Ich), tal como formulada por Lacan em seus escritos sobre o estágio do espelho, dá-se a partir da identificação com uma imagem totalizadora e unificada refletida pelo semelhante ou pelo espelho. Essa imagem oferece ao infante uma antecipação ilusória de sua mestria motora, encobrindo a realidade biológica de sua prematuração e de sua fragmentação interna. O psiquismo humano é, portanto, fundado sobre uma tensão crônica entre a ilusão de controle e o medo latente da perda de coesão do próprio corpo.
A abasiofilia dialoga diretamente com essa fratura primitiva da imagem corporal. O sujeito atraído pela imobilidade ou pela marcha deficitária projeta no outro a imago do corpo fragmentado, despedaçado ou impedido, que habita o subsolo de todo aparelho psíquico. Contudo, ao contrário da angústia que essa imagem provocaria na estrutura neurótica, que foge da debilidade para manter a fantasia de integridade, a estrutura perversa ou a fixação fetichista abraça essa fragmentação, mas sob a condição de que ela seja amparada por um Outro ortopédico. A presença do metal, do couro ou da dependência física externa atua como uma armadura psíquica exteriorizada. O abasiofílico encontra no parceiro uma representação literal do Eu dividido: um corpo que padece na carne, mas que é sustentado e enrijecido pela prótese. O desejo se dirige, fundamentalmente, a essa dialética entre o colapso iminente da carne e a rigidez fálica do suporte mecânico, permitindo que o próprio sujeito elabore, por via da identificação projetiva, suas angústias mais arcaicas de queda, dissolução e perda de controle sobre o próprio destino motor.
Sadomasoquismo simbólico e a fantasia de controle onipotente
A dinâmica pulsional que rege as relações abasiofílicas frequentemente se assenta sobre as coordenadas da ambivalência sadomasoquista, embora essa articulação ocorra em um nível eminentemente simbólico e fantasioso. Na metapsicologia freudiana, as pulsões de crueldade e o prazer na passividade são polaridades que se alternam na tentativa de dominar o objeto e assegurar a soberania do ego. A abasiofilia coloca em cena um teatro onde as relações de poder e cuidado são intensamente erotizadas.
Por um lado, a atração pela vulnerabilidade e pela necessidade de assistência do parceiro evoca uma fantasia de onipotência e controle absoluto. O sujeito pode se fantasiar ou se posicionar na realidade como o cuidador indispensável, aquele que detém o monopólio do movimento e do amparo do outro. Esse investimento, sob a ótica psicanalítica, revela uma defesa contra a própria passividade e contra o medo de ser submetido ao capricho do Outro primordial. Ao se tornar o suporte de um corpo que claudica, o sujeito inverte ativamente a situação de desamparo infantil (Hilflosigkeit). Por outro lado, há um forte componente masoquista sublimado na fascinação pelo peso, pela rigidez e pelo sofrimento implícito na restrição física. A rigidez dos aparelhos ortopédicos e a imobilidade forçada remetem à fantasia de ser retido, paralisado e dominado por uma força inexorável. O objeto abasiofílico, em sua aparente fraqueza, exerce na verdade um poder imenso sobre o desejo do sujeito, capturando-o e paralisando sua própria vontade funcional em prol da fixação fetichista. Assim, a abasiofilia subverte as noções tradicionais de força e fraqueza, demonstrando que no inconsciente a vulnerabilidade extrema pode ser erigida como o mais supremo instrumento de fascínio e dominação mútua.
A transferência e o manejo clínico da fixação pulsional
No contexto do tratamento analítico, a emergência de demandas ligadas à abasiofilia impõe desafios técnicos severos ao analista, exigindo uma escuta despida de ideais higienistas ou de tentativas de reeducação moral do desejo. A clínica psicanalítica não visa a retificação da parafilia para adequá-la a uma norma genital heteronormativa, mas sim interrogar a função que essa fixação específica cumpre na economia psíquica do analisando. O sintoma ou o fetiche são, antes de tudo, tentativas individuais de cura e de estabilização frente ao real do sofrimento.
Durante o processo transferencial, o analista deve estar atento a como a fantasia abasiofílica se atualiza na relação terapêutica. Muitas vezes, o sujeito tentará posicionar o analista no lugar daquele que vai retificar sua "deformidade" psíquica, ou tentará fazer da sessão um espaço de repetição de seu circuito escópico, testando se a palavra do analista pode suportar o peso de seu gozo singular. A intervenção analítica opera na hiância entre a imagem e a palavra, buscando fazer com que o sujeito possa falar sobre o que o aparato ortopédico cala. Ao historizar o desejo, investigando as marcas infantis, as primeiras experiências de deparação com a doença, com o hospital, com a imobilidade de figuras parentais ou com as próprias falhas do espelhamento primevo, o sujeito pode, gradualmente, flexibilizar a rigidez de seu fetiche. Trata-se de permitir que o significante da restrição física perca seu caráter de necessidade absoluta para a satisfação, transformando o circuito do gozo compulsivo em um desejo passível de metáfora e de circulação simbólica mais ampla, sem que com isso se apague a singularidade estética que constitui a sua história pulsional.