Quem foi Max Eitingon na história da Psicanálise?

Max Eitingon nasceu em 1881, em Moilev, Bielorrússia, em uma família judaica abastada. Desde cedo, demonstrou interesse pelas artes e pela filosofia, estudando nas universidades de Halle, Heidelberg e Marburg, onde teve contato com o pensamento neokantiano de Hermann Cohen. Em 1902, iniciou o curso de medicina em Leipzig e, posteriormente, trabalhou no hospital psiquiátrico Burghölzli, em Zurique, sob a direção de Eugen Bleuler, onde conheceu Carl Gustav Jung. Foi nesse contexto que Eitingon se aproximou de Sigmund Freud, viajando a Viena em 1907 para conhecê-lo pessoalmente e, em 1908, submetendo-se a uma análise com o próprio Freud, considerada a primeira análise didática da história.

Essa experiência marcou profundamente sua compreensão da técnica e da formação analítica. Eitingon percebeu que a prática da psicanálise exigia não apenas conhecimento teórico, mas também uma vivência pessoal do inconsciente. Essa convicção o levaria, anos depois, a estruturar um modelo de formação que integrava análise pessoal, supervisão clínica e estudo teórico, conhecido como modelo Eitingon.

Após a Primeira Guerra Mundial, Eitingon estabeleceu-se em Berlim, onde fundou, em 1920, a Policlínica Psicanalítica de Berlim, junto a Karl Abraham e Ernst Simmel. Essa instituição foi o primeiro centro de formação sistemática de psicanalistas, oferecendo atendimento gratuito e treinamento supervisionado. A Policlínica tornou-se um marco na história da Psicanálise, pois ali se consolidou o princípio de que ninguém poderia exercer a psicanálise sem ter passado por sua própria análise.

O modelo berlinense, idealizado por Eitingon, estruturava-se em três eixos fundamentais:

  • Análise pessoal: o candidato deveria realizar sua própria análise com um analista didata.

  • Supervisão clínica: o trabalho com pacientes era acompanhado por um analista experiente.

  • Formação teórica: cursos e seminários complementavam a prática clínica.

Esse tripé tornou-se o padrão internacional de formação, adotado pela Associação Psicanalítica Internacional (IPA) e replicado em institutos de todo o mundo. A criação da Comissão Internacional de Formação (CIF), em 1925, foi um desdobramento direto de sua proposta, e o chamado Comitê Eitingon, formado em 1927, buscou uniformizar as diretrizes de formação entre as sociedades filiadas à IPA.

A dimensão política e ética da obra de Eitingon

Eitingon não foi apenas um organizador institucional; sua visão da formação psicanalítica implicava uma ética do trabalho analítico. Ele defendia que o analista deveria ser, antes de tudo, um sujeito transformado por sua própria análise, capaz de sustentar o lugar da escuta sem se confundir com o paciente. Essa perspectiva introduziu uma dimensão ética e epistemológica na formação, que ultrapassava o mero aprendizado técnico.

Durante o período entre guerras, Eitingon também se envolveu com questões políticas e culturais. Como judeu e intelectual, enfrentou o avanço do nazismo na Alemanha. Em 1933, com a ascensão de Hitler, foi obrigado a deixar Berlim, transferindo-se para a Palestina, onde fundou a Sociedade Psicanalítica da Palestina e o Instituto Psicanalítico de Israel. Essa migração marcou o início da expansão da psicanálise para o Oriente Médio, mostrando sua capacidade de adaptação e resistência frente às adversidades históricas.

A relação com Freud e o legado institucional

A amizade entre Freud e Eitingon foi marcada por respeito e colaboração. Freud via em Eitingon um aliado confiável, tanto no plano teórico quanto financeiro, Eitingon financiou a construção da Policlínica de Berlim e apoiou a Internationaler Psychoanalytischer Verlag, editora responsável pela publicação das obras psicanalíticas entre 1921 e 1930. Essa relação permitiu que Freud consolidasse sua obra e que a psicanálise ganhasse estrutura institucional.

O legado de Eitingon é, portanto, duplo: por um lado, ele foi um teórico da formação, responsável por definir o que significa “tornar-se analista”; por outro, foi um gestor institucional, que garantiu a sobrevivência e expansão da psicanálise em tempos de crise. Sua concepção de formação como processo contínuo, que envolve análise, supervisão e estudo, permanece como base dos institutos psicanalíticos contemporâneos.

Eitingon como figura de transição e permanência

Max Eitingon faleceu em 1943, em Jerusalém, deixando um legado que ultrapassa fronteiras geográficas e temporais. Sua obra representa uma síntese entre a clínica e a instituição, entre o sujeito e o saber. Ao propor que o analista deve ser formado dentro de uma estrutura que o confronte com seu próprio inconsciente, Eitingon transformou a psicanálise em uma prática que exige responsabilidade subjetiva e rigor ético.

Do ponto de vista histórico, Eitingon pode ser visto como o arquitetor da profissionalização da psicanálise. Ele foi o primeiro a compreender que o saber analítico não poderia se sustentar apenas na genialidade individual de Freud ou na espontaneidade dos primeiros discípulos, mas necessitava de uma organização institucional capaz de transmitir, preservar e renovar esse saber. Seu modelo berlinense, posteriormente adotado pela IPA, tornou-se o paradigma universal de formação psicanalítica, conhecido até hoje como modelo Eitingon.


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Sobre o Autor: Frederico Lima

Doutor em Letras pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB), psicanalista, especialista em Teoria Psicanalítica, pesquisador com trabalhos publicados em periódicos científicos, capítulos de livros e anais de eventos. Possui experiência na editoração digital de revistas científicas, formatação e revisão de textos acadêmicos. Também é entusiasta da tecnologia, em especial de programas de código aberto.

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