O que são Relações de Objeto na Psicanálise?
Enquanto a metapsicologia clássica de Sigmund Freud centrou suas investigações na dinâmica das pulsões e no modelo hidrodinâmico do aparelho psíquico, onde o objeto surge primordialmente como o meio pelo qual a pulsão alcança sua descarga e reduz a tensão interna, os teóricos das relações de objeto propuseram uma mudança paradigmática fundamental. Para essa perspectiva, o ser humano é intrinsecamente motivado pela busca de relacionamento e conexão com o outro. A pulsão, portanto, não busca primariamente o prazer ou a descarga energética em si, mas sim o objeto humano. O termo "objeto" na psicanálise, herança da tradução do alemão Objekt, não se refere a coisas inanimadas, mas sim a pessoas, partes de pessoas ou representações mentais delas, que se tornam o alvo dos investimentos afetivos, libidinais e agressivos do sujeito desde os primórdios de sua existência.
Vamos recuar à transição teórica que se processou entre as décadas de 1930 e 1950, um período marcado por intensas controvérsias no seio da Sociedade Britânica de Psicanálise. De um lado, a ortodoxia freudiana sustentava que o lactente nasce em um estado de narcisismo primário, um fechamento monádico em que o mundo externo e os objetos ainda não possuem relevância psicológica estruturada, emergindo apenas quando as frustrações da realidade forçam o ego a abandonar sua autossuficiência alucinatória. De outro lado, analistas como Melanie Klein, Ronald Fairbairn, Donald Winnicott e Michael Balint começaram a articular, cada qual com suas nuances e divergências internas, a premissa de que o ego existe desde o nascimento, ainda que de forma rudimentar, e está desde sempre em uma relação ativa, complexa e frequentemente turbulenta com o ambiente e com as figuras cuidadoras.
Na vertente kleiniana, que inaugurou o estudo sistemático das relações de objeto na infância profunda, a mente do bebê é concebida como um teatro de fantasias inconscientes primitivas, dominado por uma violenta dialética entre pulsão de vida e pulsão de morte. Klein postulou que o recém-nascido, desprovido de uma percepção totalizante e integrada da realidade, interage inicialmente com "objetos parciais". O primeiro e mais significativo desses objetos parciais é o seio materno. Sob o impacto da angústia de aniquilação gerada pela pulsão de morte interna, o ego primitivo utiliza mecanismos de defesa arcaicos, como a cisão e a projeção, para organizar sua experiência. O seio que alimenta, acolhe e alivia o desconforto é investido de pulsão de vida e idealizado, tornando-se o "seio bom". Por outro lado, o seio que tarda a chegar, que frustra ou que parece reter o alimento é investido de pulsão de morte e projetado como um perseguidor voraz, o "seio mau".
Essa dinâmica caracteriza o que Klein denominou de posição esquizoparanoide. O termo "posição" foi escolhido deliberadamente para substituir a noção de fase cronológica linear, indicando uma configuração específica de relações de objeto, ansiedades e defesas que permanece ativa ao longo de toda a vida, podendo ser reativada em momentos de crise ou regressão. Na posição esquizoparanoide, o objeto é percebido de forma binária e absoluta: ou é inteiramente bom e salvador, ou é inteiramente mau e destrutivo. Não há espaço para a ambivalência, pois fundir o bom e o mau na mesma figura significaria, na fantasia do bebê, expor o objeto bom à contaminação e à destruição pelo objeto mau. As defesas predominantes aqui são a identificação projetiva, mecanismo pelo qual o sujeito projeta partes indesejáveis de si ou de seus objetos internos no objeto externo, passando a controlá-lo ou a temê-lo a partir de fora, a introjeção, a negação onipotente e a idealização.
À medida que o ego amadurece, impulsionado pelo desenvolvimento neurológico e pela constância de experiências reais positivas com a mãe, ele adquire a capacidade de integrar suas percepções. O bebê começa a perceber que o seio bom e o seio mau não são duas entidades distintas que o habitam e o circundam, mas pertencem à mesma pessoa total: a mãe. Essa transição marca a entrada na posição depressiva. A passagem da relação com objetos parciais para a relação com objetos totais altera dramaticamente a natureza da angústia infantil. Se na posição esquizoparanoide a ansiedade era de caráter paranoide, focada na autopreservação do ego contra os perseguidores externos e internos, na posição depressiva a ansiedade torna-se essencialmente de culpa e luto. O sujeito percebe, com dor e assombro, que os impulsos destrutivos e agressivos que ele direcionava ao seio mau feriram, na verdade, a mesma mãe total que ele ama e de quem depende.
O advento da posição depressiva inaugura a capacidade de ambivalência, permitindo que o indivíduo reconheça que o outro possui qualidades positivas e negativas simultaneamente, sem que uma anule a outra. O reconhecimento do dano causado ao objeto amado desperta o desejo de reparação, um processo psíquico vital pelo qual o ego tenta recriar, restaurar e proteger o objeto interno que foi danificado pela própria agressividade. A reparação bem-sucedida fortalece a confiança do sujeito em sua própria capacidade de amar e sustentar relacionamentos, consolidando um mundo interno habitado por objetos predominantemente benevolentes e integrados. Aqueles indivíduos que, por privações ambientais severas ou excesso de destrutividade constitucional, não conseguem elaborar a posição depressiva, tendem a fixar-se em defesas maníacas, caracterizadas pelo triunfo, controle e desprezo sobre o objeto, visando negar a dependência e a culpa, ou a regredir de forma crônica para a fragmentação esquizoparanoide.
Paralelamente ao desenvolvimento da escola kleiniana, Ronald Fairbairn formulou uma crítica radical à teoria das pulsões de Freud, propondo uma teoria pura das relações de objeto. Para Fairbairn, o ego não é uma estrutura secundária derivada do id que busca prazer através do objeto; o ego é a estrutura psíquica primária e sua energia intrínseca é direcionada para o estabelecimento de relações com objetos externos reais. Quando essas relações externas falham e o ambiente se mostra frustrante ou rejeitador, o ego, em uma tentativa desesperada de lidar com a dor da rejeição sem perder o vínculo com o objeto necessário, realiza a introjeção desse objeto insatisfatório. Uma vez introjetado, o objeto é cindido na mente do sujeito em três componentes: o objeto ideal, que retém os aspectos aceitáveis e gratificantes; o objeto excitador, que promete amor mas nunca cumpre; e o objeto rejeitador, que frustra e pune ativamente.
Essa cisão do objeto força uma cisão correspondente no próprio ego. O ego central permanece ligado ao objeto ideal e gerencia as relações com a realidade externa. Contudo, partes do ego ligam-se aos objetos internos cindidos: o ego libidinal vincula-se ao objeto excitador, aprisionado em um estado de busca eterna e insaciável por promessas de amor que jamais se concretizam; e o sabotador interno, ou ego antilibidinal, vincula-se ao objeto rejeitador, adotando uma postura intensamente autocrítica, sádica e hostil contra o próprio self e contra qualquer possibilidade de satisfação relacional. Na perspectiva de Fairbairn, a psicopatologia não decorre do conflito entre pulsões biológicas e repressão social, mas sim do aprisionamento do ego em um labirinto de relações com objetos internos maus, gerando uma compulsão à repetição em que o indivíduo busca incessantemente recriar no mundo externo as dinâmicas de rejeição e excitação dolorosa que estruturam seu mundo interno.
Outra contribuição monumental para este campo analítico adveio da chamada Escola Independente Britânica, cujo principal expoente foi Donald Winnicott. Embora compartilhasse da premissa de que o desenvolvimento psíquico ocorre na matriz relacional, Winnicott desviou o foco das fantasias pulsionais endógenas do bebê para a qualidade concreta do ambiente provido pela mãe. Sua célebre máxima de que "não existe tal coisa como um bebê", isoladamente, mas sim uma dupla lactante-mãe, ilustra a total interdependência inicial entre a criança e o ambiente. Winnicott introduziu o conceito de "mãe suficientemente boa", aquela que é capaz de adaptar-se quase que totalmente às necessidades do recém-nascido no início da vida, proporcionando-lhe uma ilusão de onipotência protetora necessária para a sustentação de um self autêntico. Essa fase inicial exige o que o autor chamou de preocupação materna primária, um estado psíquico análogo a uma doença normal, em que a mãe temporariamente perde parte de sua identidade própria para se fundir empaticamente com as demandas do filho.
O ambiente seguro fornecido pela mãe realiza três funções essenciais na constituição das relações de objeto. O holding, ou sustentação física e emocional, protege o bebê contra as angústias de fragmentação e de queda infinita, permitindo a continuidade do ser. O handling, ou manejo corporal, facilita a personalização, que é a gradual integração da mente e do self dentro dos limites do próprio corpo físico. Por fim, a apresentação do objeto é o processo pelo qual a mãe coloca o mundo à disposição do bebê no momento exato em que ele necessita; ao oferecer o seio ou o acalento precisamente quando a criança o alucina por necessidade, a mãe permite que o bebê viva a ilusão de que ele mesmo criou o objeto. Essa ilusão de onipotência criativa é a base indispensável sobre a qual se assentará o senso de realidade e de agência do sujeito.
Gradualmente, a mãe suficientemente boa deve desiludir a criança. À medida que o ego do bebê se fortalece através das experiências de sustentação, a mãe retoma suas próprias atividades e interesses, falhando na adaptação imediata. Essas pequenas e dosadas frustrações da realidade, desde que não sejam traumáticas ou intrusivas, impulsionam o bebê a reconhecer a mãe como um objeto externo separado de si, abandonando a onipotência mágica. É nesse espaço de transição entre a subjetividade pura e a objetividade compartilhada que emerge o que Winnicott denominou de fenômenos transicionais e objetos transicionais. O objeto transicional, frequentemente corporificado em um pedaço de pano, um urso de pelúcia ou um som repetitivo, representa a primeira possessão não-self do bebê. Ele não é o corpo da mãe, mas também não é uma mera criação interna do bebê; situa-se na área intermediária de experiência, um espaço potencial onde a distinção entre o interno e o externo está sendo construída. O objeto transicional serve de ponte emocional, permitindo que a criança tolere a ausência física da mãe ao manter viva a representação de sua função protetora.
Quando o ambiente falha gravemente nessa transição, seja por uma ausência abrupta que desaba o holding ou por uma intrusão excessiva que exige que o bebê se adapte às demandas da mãe antes de possuir um ego estruturado, o desenvolvimento natural é severamente interrompido. Nesses cenários de falha ambiental, o bebê é forçado a desenvolver uma defesa prematura e hipertrofiada para se autoproteger da aniquilação, resultando na cisão entre o falso self e o verdadeiro self. O falso self organiza-se como uma fachada de conformidade, polidez e adaptação mecânica às expectativas do mundo externo, ocultando e encapsulando o verdadeiro self, que permanece isolado, incomunicável e empobrecido em seu núcleo. O sofrimento clínico decorrente dessa cisão não se manifesta necessariamente por meio de sintomas neuróticos clássicos, mas por um sentimento crônico de futilidade, irrealidade e esvaziamento existencial.
No continente americano, a teoria das relações de objeto foi integrada à psicologia do ego e desenvolvida de forma singular por autores como Margaret Mahler e Otto Kernberg. Mahler concentrou suas pesquisas na observação sistemática do desenvolvimento infantil, formulando o processo de separação-individuação. Segundo seu modelo, o desenvolvimento psíquico inicia-se por uma fase de autismo normal nas primeiras semanas de vida, progredindo para uma fase simbiótica em que o bebê percebe a si mesmo e a mãe como um sistema onipotente dual encapsulado por uma barreira comum. A partir do quinto mês de vida, inicia-se o subestágio de diferenciação, seguido pelo de treinamento e pelo de reaproximação, culminando na consolidação da constância de objeto libidinal por volta do terceiro ano. A constância de objeto implica a capacidade do ego de manter uma representação mental interna, estável e investida de afeto positivo da mãe, mesmo quando ela está ausente ou quando frustra a criança. A conquista da constância de objeto liberta o indivíduo da dependência da presença física contínua do outro para manter sua própria estabilidade emocional e sua autoestima.
Otto Kernberg realizou uma síntese metapsicológica profunda ao unificar a teoria das pulsões de Freud, a abordagem kleiniana e os conceitos de Mahler e da psicologia do ego, aplicando-os diretamente ao entendimento e ao tratamento dos transtornos graves de personalidade, notadamente a organização borderline. Kernberg propôs que as unidades estruturais fundamentais do aparelho psíquico são as representações de objeto internalizadas, compostas por três elementos indissociáveis: uma representação do self, uma representação do objeto e um afeto específico que as une. Esses afetos, originalmente de natureza biológica, funcionam como os tijolos de construção das pulsões; afetos de prazer e gratificação aglutinam-se para formar a pulsão libidinal, enquanto afetos de frustração, dor e raiva aglutinam-se para formar a pulsão agressiva.
Na organização borderline de personalidade descrita por Kernberg, observa-se uma incapacidade estrutural do ego de realizar a síntese das representações de self e de objeto de valências opostas. Devido a uma intensidade constitucional da agressividade ou a traumas severos no início do desenvolvimento, o indivíduo permanece fixado no uso da cisão defensiva como mecanismo principal de sobrevivência psíquica. Seu mundo interno e suas relações interpessoais são fragmentados em ilhas de idealização absoluta e desvalorização total. O paciente borderline oscila dramaticamente entre ver a si mesmo e ao analista como inteiramente divinos e gratificantes ou como inteiramente malévolos, sádicos e destrutivos. Essa oscilação impede o advento da constância de objeto e de self, gerando a chamada síndrome de difusão de identidade, na qual o sujeito carece de um senso integrado, contínuo e tridimensional de sua própria personalidade e da personalidade dos outros.
A incorporação das relações de objeto modificou radicalmente a técnica psicanalítica e a compreensão do setting terapêutico. Na clínica freudiana tradicional, o analista posicionava-se idealmente como uma tela em branco ou um espelho opaco, cuja função primordial era refletir as projeções transferenciais do paciente e interpretar as neuroses de transferência decorrentes dos conflitos edípicos infantis. A transferência era vista como o deslocamento de desejos reprimidos do passado para a figura do terapeuta no presente. Sob a ótica das relações de objeto, a transferência ganha uma dimensão muito mais ampla e imediata: ela é a reativação viva, no aqui-e-agora da sessão, das estruturas de relações de objeto internas do paciente. O paciente não transfere apenas desejos isolados, mas encena papéis específicos, projetando partes de seu self ou de seus objetos internos no analista, na tentativa inconsciente de induzir o terapeuta a agir e a sentir de acordo com a sua matriz relacional primitiva.
Essa indução inconsciente trouxe uma nova dignidade teórica ao conceito de contratransferência. Se outrora a contratransferência era considerada um ponto cego ou um obstáculo decorrente de análises lacunares do próprio terapeuta, os teóricos das relações de objeto, capitaneados por Heinrich Racker e Paula Heimann, passaram a considerá-la um instrumento diagnóstico essencial. A contratransferência é entendida como a resposta afetiva total do analista às projeções do paciente, frequentemente mediada pela identificação projetiva. Ao monitorar seus próprios sentimentos de raiva, desamparo, idealização ou tédio na sessão, o analista sintoniza-se com as comunicações não-verbais e pré-edípicas do paciente, decodificando o tipo de objeto interno que está sendo encenado na dinâmica clínica. A tarefa do analista deixa de ser meramente intelectual ou puramente interpretativa e passa a envolver uma função de containment ou continência, conceito formulado por Wilfred Bion. O analista atua como um continente que recebe as projeções tóxicas e fragmentadas do paciente (elementos beta), processa-as através de sua própria capacidade de pensar e sonhar a experiência clínica (função alfa), e as devolve ao paciente em uma forma digerida, nomeada e suportável, permitindo que este reintrojete uma relação de objeto mais integrada e menos aterrorizante.
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