O conceito de Ambivalência na Psicanálise

Para traçar a genealogia do termo, é fundamental destacar que, embora Sigmund Freud o tenha incorporado de forma definitiva ao arcabouço psicanalítico, a palavra ambivalência foi originalmente cunhada pelo psiquiatra suíço Eugen Bleuler. Bleuler utilizava o termo para descrever um sintoma central da esquizofrenia, caracterizado pela coexistência de duas tendências opostas na mente do indivíduo, que se manifestava em três níveis distintos: a ambivalência voluntária, em que o sujeito deseja realizar e não realizar uma ação ao mesmo tempo; a ambivalência intelectual, caracterizada pela expressão simultânea de ideias contraditórias; e a ambivalência afetiva, na qual o indivíduo nutre sentimentos opostos, como amor e ódio, em relação ao mesmo objeto.

Freud, contudo, subverteu essa matriz descritiva e essencialmente psiquiátrica ao transpor a ambivalência para o campo da psicanálise. O pai da psicanálise percebeu que esse fenômeno não era uma exclusividade dos quadros psicóticos ou uma patologia da vontade, mas sim uma característica universal do inconsciente e do desenvolvimento afetivo normal. Na perspectiva freudiana, o psiquismo é constitutivamente conflituoso, e a coexistência de correntes afetivas antitéticas em relação a uma mesma pessoa ou representação é a regra, e não a exceção, no funcionamento mental.

Nos primórdios de sua teorização, Freud deparou-se com a ambivalência de maneira contundente ao investigar a neurose obsessiva. No célebre caso clínico conhecido como O Homem dos Ratos, a dinâmica obsessiva revela-se como um teatro onde o amor intensíssimo e o ódio destrutivo digladiam-se continuamente no tablado da consciência e do inconsciente. O sujeito obsessivo encontra-se frequentemente paralisado por uma dúvida sistemática e por rituais que visam, a todo custo, anular o potencial destrutivo de seus impulsos agressivos contra as figuras que ele mais ama. Freud observou que a hostilidade inconsciente contra o objeto amado gera um sentimento de culpa avassalador, o qual, por sua vez, exige a criação de defesas psíquicas sofisticadas, como a formação reativa e a anulação retroativa. A formação reativa, por exemplo, manifesta-se quando o ódio inconsciente é mascarado por uma ternura exagerada, vigilante e sufocante na consciência. Esse excesso de zelo nada mais é do que o disfarce necessário para conter a corrente hostil subjacente, evidenciando como a ambivalência opera por meio de um delicado equilíbrio de forças contrárias.

A fim de fundamentar a origem metapsicológica desse fenômeno, Freud recorreu ao desenvolvimento da libido e às fases da organização psicossexual da criança. Em seus Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade, bem como em desenvolvimentos posteriores, fica evidente que as fases pré-genitais são marcadamente ambivalentes. Na fase oral, o modelo de relação com o objeto é a incorporação. O bebê ama o seio materno e deseja se unir a ele, mas a forma de realizar esse amor é através da ingestão, da mordida e da destruição do objeto para integrá-lo a si. O amor oral é, portanto, essencialmente canibalesco, onde a preservação do objeto e a sua destruição caminham lado a lado.

Essa característica acentua-se drasticamente na fase sádico-anal. Nela, o controle pulsional divide-se entre as polaridades de reter e expelir, que se traduzem clinicamente nas atitudes de dominação e submissão, destruição e conservação. O objeto, nesta etapa do desenvolvimento, é tratado com uma crueza pulsional onde o sadismo surge como a expressão direta do interesse pelo objeto. O sujeito deseja possuir o objeto de maneira absoluta e, no processo de exercer esse domínio soberano, agride-o e destrói-o fantasmaticamente. Freud postula que, nessas fases arcaicas, as correntes de amor e ódio ainda não sofreram a fusão ou a síntese que caracteriza a maturidade genital. O ódio e o amor coabitam o espaço psíquico sem que um anule o outro, operando de forma paralela e independente, devido à própria natureza do processo primário que rege o inconsciente, onde a contradição lógica não existe.

Com o advento da teorização sobre o Complexo de Édipo, a ambivalência assume o papel de motor estruturante da subjetividade e da moralidade. Na configuração edípica clássica, o menino desenvolve uma fixação libidinal em relação à figura materna e, consequentemente, uma postura de rivalidade hostilista contra o pai, que se coloca como o interdito, o obstáculo para a realização de seus desejos incestuosos. No entanto, o posicionamento do sujeito em relação ao pai não é puramente negativo. O pai é simultaneamente o modelo a ser imitado, o objeto de uma profunda admiração e de amor identificatório.

Dessa forma, o complexo edípico é, em sua essência, uma estrutura ambivalente: o sujeito deseja a eliminação do rival ao mesmo tempo em que teme perder o seu amor e a sua proteção, além de sofrer com a ameaça da castração. A resolução do Édipo e a consequente formação do Superego ocorrem precisamente através da interiorização dessa autoridade paterna ambivalente. O Superego herda a severidade agressiva que o sujeito direcionava ao pai, bem como a agressividade que projetava na figura paterna, passando a exercer uma vigilância punitiva sobre o Ego. A própria consciência moral humana nasce, portanto, batizada nas águas da ambivalência afetiva.

A transição da primeira para a segunda tópica freudiana, consolidada a partir da virada teórica de Além do Princípio do Prazer, conferiu à ambivalência um estatuto ainda mais radical e biológico-especulativo. Ao introduzir o conceito de pulsão de morte, oposta à pulsão de vida ou Eros, Freud redefiniu o conflito psíquico. Eros trabalha no sentido de unir, ligar e conservar as substâncias vivas em unidades cada vez maiores, sendo a base do amor, da criatividade e da coesão psíquica. A pulsão de morte, por outro lado, tende à desconexão, à dissolução das ligações, à destruição e ao retorno do ser vivo ao estado inorgânico original.

Sob essa nova ótica, a ambivalência afetiva que observamos nos relacionamentos humanos não é apenas um acidente de percurso do desenvolvimento psicológico, mas sim a manifestação clínica visível do intrincado jogo de fusão e desfusão dessas duas forças primordiais. Para que a vida psíquica seja possível, a pulsão de morte precisa ser ligada e neutralizada por Eros. Quando essa fusão pulsional é bem-sucedida, a agressividade é canalizada para fins construtivos, como o domínio do ambiente, a autodefesa ou a sublimação. Todavia, a fusão nunca é total ou permanente. A desfusão pulsional pode ocorrer a qualquer momento, libertando a pulsão de morte em sua pureza destrutiva. O ódio que irrompe em uma relação amorosa é o testemunho dessa desfusão, o sinal de que Eros perdeu temporariamente a capacidade de manter a pulsão de destruição manietada e integrada à corrente do amor.

A análise freudiana da ambivalência ganha contornos sombrios e geniais no ensaio Luto e Melancolia. Nesse texto, Freud investiga a diferença entre a reação normal à perda de um objeto amado e a resposta patológica que caracteriza os estados melancólicos ou depressivos graves. No luto, o mundo tornou-se pobre e vazio devido à ausência real do objeto; o sujeito passa por um doloroso processo de desinvestimento da libido de cada uma das lembranças ligadas ao falecido, mas o Ego permanece intacto. Já na melancolia, é o próprio Ego que se esvazia e se torna empobrecido, sendo palco de uma autodepreciação feroz, delírios de pequenez e uma culpa implacável.

Freud decifra o enigma da melancolia revelando que a perda sofrida pelo melancólico foi de natureza ideal ou inconsciente, e que a escolha de objeto havia sido feita sobre uma base narcísica. Diante da perda ou da decepção com o objeto amado, em vez de deslocar a libido para um novo objeto, o melancólico recolhe essa libido para dentro do próprio Ego e estabelece uma identificação narcísica com o objeto perdido. O objeto é, de fato, incorporado pelo Ego. Devido à imensa ambivalência que caracterizava a relação com esse objeto, o ódio que estava recalcado e reprimido é liberado pela defusão pulsional. Como o objeto agora faz parte do Ego, toda a hostilidade, o ressentimento e o desejo de destruição que o sujeito nutria secretamente contra o objeto externo são direcionados contra o próprio self. Os autorreproches cruéis do melancólico são, na realidade, reproches dirigidos ao objeto incorporado. A ambivalência, neste cenário, atua como uma armadilha mortal onde o sadismo do Superego tortura o Ego identificado com o objeto, podendo culminar no ato extremo do suicídio, que representa o triunfo definitivo da pulsão de morte sobre as amarras de Eros.

Após as contribuições fundamentais de Freud, o conceito de ambivalência foi herdado, expandido e reformulado por diferentes linhagens da tradição psicanalítica, ganhando uma centralidade sem precedentes na obra de Melanie Klein. Se para Freud a ambivalência atinge seu ápice no Complexo de Édipo e na segunda tópica, para Klein ela está presente desde os primeiros dias de vida do lactente, sendo o eixo em torno do qual giram as posições esquizoparanoide e depressiva.

Na posição esquizoparanoide, que domina os primeiros meses de desenvolvimento, o ego rudimentar do bebê ainda não possui a capacidade de tolerar a contradição e a ansiedade geradas pela ambivalência. Diante da angústia de aniquilamento provocada pela pulsão de morte interna, o bebê utiliza o mecanismo de cisão ou clivagem. O objeto primário, o seio, é dividido em dois objetos totalmente distintos e independentes no plano fantasístico: o seio bom e o seio mau. O seio bom é idealizado, depositário de todas as pulsões de vida, do amor e das experiências de satisfação; o seio mau é perseguidor, alvo das projeções da pulsão de morte, do ódio e das frustrações do bebê. Na posição esquizoparanoide, portanto, não há ambivalência propriamente dita, mas sim uma dissociação radical. O amor e o ódio não se cruzam, protegendo o objeto bom da contaminação e da destruição pelo objeto mau.

A verdadeira ambivalência surge, na teoria kleiniana, com a transição para a posição depressiva. À medida que o ego do bebê amadurece e os mecanismos de projeção e cisão diminuem de intensidade, a criança começa a perceber que o seio bom e o seio mau, a mãe amorosa e a mãe frustradora, não são duas entidades separadas, mas sim uma única e mesma pessoa. O sujeito descobre, com assombro e dor, que o mesmo objeto que ele ama e deseja conservar é o mesmo objeto que ele atacou, mordeu e tentou destruir em suas fantasias sádicas agressivas.

O nascimento da ambivalência coincide, assim, com o nascimento da culpa depressiva e do medo da perda. O sofrimento da posição depressiva reside na angústia de que os impulsos destrutivos e o ódio do próprio sujeito tenham danificado ou destruído o objeto amado do qual ele depende inteiramente. É essa dor psíquica que impulsiona o bebê a inaugurar a capacidade de reparação, ou seja, o desejo inconsciente de restaurar, curar e reconstruir o objeto que foi agredido na fantasia. Para Melanie Klein, a capacidade de suportar e integrar a ambivalência, reconhecendo que amamos e odiamos as mesmas pessoas, é o critério definitivo de saúde mental, amadurecimento emocional e superação das defesas primitivas baseadas na paranoia e na fragmentação.

Outro desdobramento crucial do conceito encontra-se na teoria do psicanalista britânico Donald Winnicott. Winnicott aborda a ambivalência sob a ótica do desenvolvimento emocional primitivo e da relação entre a mãe e o bebê, introduzindo nuances vitais sobre a agressividade e o uso do objeto. Para Winnicott, a agressividade inicial do bebê não é necessariamente uma manifestação de uma pulsão de morte destrutiva no sentido freudiano, mas sim um impulso vital de exploração e afirmação de si, um sinônimo de atividade. No entanto, na fantasia do bebê, seus ataques destrutivos contra a mãe são reais.

O ponto de virada fundamental ocorre quando a mãe sobrevive a esses ataques agressivos sem retaliar, sem se retirar afetivamente e sem desmoronar. Ao sobreviver à destrutividade do bebê, a mãe demonstra que possui uma existência real e externa, independente das projeções e do controle onipotente da criança. É essa sobrevivência do objeto que permite ao bebê transitar da mera relação com o objeto para o uso do objeto. O bebê aprende que pode odiar e atacar o objeto, e que esse objeto é resiliente o suficiente para resistir ao seu ódio, permitindo que o amor se estabeleça sobre uma base de realidade e alteridade, e não apenas de fantasia. A ambivalência, na perspectiva winnicottiana, é refinada através desse teste de realidade: o sujeito descobre que o amor e o ódio podem coexistir sem que o ódio resulte na aniquilação apocalíptica do laço afetivo.

Na clínica psicanalítica contemporânea, a ambivalência manifesta-se de forma privilegiada no fenômeno da transferência. A transferência é o processo pelo qual o paciente reedita e projeta na figura do analista os desejos, conflitos, defesas e fantasias inconscientes originados em suas relações primevas com os objetos parentais. Sendo essas relações constitutivamente ambivalentes, a transferência reproduzirá inevitavelmente essa mesma duplicidade afetiva. A chamada transferência positiva, caracterizada por sentimentos de simpatia, confiança e amor em relação ao analista, fornece o motor libidinal necessário para que o paciente se engaje no trabalho analítico e suporte as dores do processo de autoconhecimento. Contudo, essa corrente positiva é frequentemente acompanhada, de forma simultânea ou alternada, pela transferência negativa, expressa por meio de desconfiança, hostilidade, inveja, resistência e ódio.

O analista experiente sabe que a irrupção da transferência negativa não representa o fracasso do tratamento, mas sim o momento em que o conflito central do paciente ganha corpo e atualidade no setting analítico. A resistência ao progresso terapêutico muitas vezes decorre do medo inconsciente de que o ódio transferencial destrua o analista ou o vínculo terapêutico, repetindo os traumas do passado. O manejo da ambivalência na transferência exige que o analista sustente uma postura de neutralidade e abstinência, recusando-se a responder à hostilidade com retaliação ou ao amor com sedução. Ao oferecer um espaço seguro e analítico que sobrevive à ambivalência do paciente, o processo terapêutico permite a este último ressignificar suas fixações infantis, integrar suas correntes afetivas cindidas e tolerar a complexidade de seus próprios sentimentos.

Para além das fronteiras da clínica individual, Freud expandiu o conceito de ambivalência para a análise dos fenômenos sociais, da antropologia e da cultura, notadamente em suas obras sociológicas como Totem e Tabu, O Mal-Estar na Cultura e Psicologia das Massas e Análise do Ego. Em Totem e Tabu, Freud reconstrói o mito científico da horda primeva para explicar a origem da civilização, da moralidade e da religião. No relato freudiano, o pai da horda primitiva exercia um poder absoluto e tirânico, retendo todas as mulheres para si e expulsando ou castrando os filhos que ousassem desafiá-lo. Movidos por uma violenta ambivalência, pois odiavam o pai que se impunha como obstáculo à sua satisfação, mas simultaneamente o amavam e admiravam como figura idealizada, os irmãos expulsos uniram-se, assassinaram e devoraram o pai.

O ato antropofágico da refeição totêmica representou a tentativa de incorporar a força e a autoridade daquela figura colossal. No entanto, uma vez consumado o crime, a corrente de amor e admiração pelo pai, livre da pressão da rivalidade real, impôs-se com violência avassaladora sob a forma de um sentimento coletivo de culpa. Para remediar o crime e aplacar a culpa, os irmãos instituíram os dois tabus fundamentais do totemismo, que formam a base de toda organização social: a proibição de matar o animal totêmico, que representava o substituto paterno, e a proibição do incesto. A sociedade humana, portanto, funda-se em um pacto social projetado para conter e administrar as consequências catastróficas da ambivalência pulsional.

Em O Mal-Estar na Cultura, essa tese é aprofundada com um pessimismo filosófico agudo. Freud argumenta que o preço que pagamos pela segurança, ordem e previsibilidade que a civilização nos proporciona é a renúncia pulsional, especialmente a repressão de nossas inclinações agressivas e destrutivas. A cultura exige que direcionemos Eros para a criação de laços comunitários e familiares cada vez mais amplos, o que nos obriga a recalcar a pulsão de morte e a agressividade voltada para o semelhante. O que ocorre, então, com essa agressividade reprimida que não encontra canais de escoamento no mundo externo? Ela é interiorizada, reenviada para o próprio psiquismo e absorvida pelo Superego.

O Superego utiliza essa energia agressiva contra o próprio Ego, gerando o sentimento de culpa cultural, um mal-estar difuso e crônico que assombra o homem moderno. A civilização encontra-se em um estado de perpétuo perigo de dissolução devido à hostilidade primária dos homens entre si, uma hostilidade que decorre diretamente da incapacidade humana de harmonizar de forma definitiva as exigências antagônicas de Eros e da pulsão de morte. A ambivalência deixa de ser um mero conflito intrapsíquico para se tornar o drama trágico da história da humanidade.

A relevância metapsicológica da ambivalência reside no fato de que ela nos impede de adotar uma visão ingênua ou purista da psicologia humana. A psicanálise desmistifica a ilusão de que o amor possa existir em um estado de pureza absoluta, livre de qualquer mácula de hostilidade, ou de que o ódio seja uma anomalia que possa ser inteiramente extirpada da alma humana. Amar alguém implica, necessariamente, expor-se à vulnerabilidade, à dependência e à possibilidade da frustração. A frustração inevitavelmente desperta a agressividade. Portanto, o ódio não é o antônimo do amor no inconsciente; o verdadeiro oposto do amor não é o ódio, mas sim a indiferença, estado em que o objeto foi completamente desinvestido de libido e de interesse pulsional. Onde há investimento pulsional intenso, haverá ambivalência, pois o objeto é simultaneamente a fonte de maior prazer e o maior perigo potencial para a integridade do Ego.

No fechamento desta exposição teórica, cumpre notar que o destino da ambivalência no sujeito não é a sua eliminação, meta que seria ilusória e neurotizante, mas sim a sua elaboração psíquica. O trabalho de uma análise não visa extirpar o ódio ou idealizar o amor, mas capacitar o indivíduo a sustentar a tensão dialética entre essas duas forças.


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Como citar este artigo:

SILVA, Frederico de Lima. O conceito de Ambivalência na Psicanálise. Blog Frederico Lima, Pilar. Disponível em: https://www.fredericolima.com.br/2026/06/blog-post.html. Acesso em: Carregando data...

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