Frederico Lima

Explorando as fronteiras entre a palavra e o sintoma para compreender a arquitetura do nosso mundo interno

O conceito de RETORNO DO RECALCADO para a Psicanálise

Para entender o retorno, é preciso entender o envio. O recalque (Verdrängung) é um processo defensivo pelo qual o Ego tenta afastar da consciência representações, ideias, imagens ou memórias, que estão ligadas a uma pulsão que o sujeito considera inaceitável. Imagine que o psiquismo é um palco: o recalque é o segurança que retira do palco um ator que está criando um escândalo. No entanto, esse ator não vai para casa; ele fica no corredor dos bastidores, fazendo barulho e tentando voltar por outras entradas.

O retorno do recalcado acontece justamente porque o recalque nunca é plenamente bem-sucedido. Ele não é um ato único, mas um esforço constante de manutenção. Quando a nossa guarda baixa, seja por cansaço, pelo relaxamento do sono, ou por uma situação de vida que ressoa com o trauma antigo, o material recalcado aproveita a brecha. Mas aqui reside a genialidade da teoria freudiana: o que volta não é a ideia original em sua forma pura. Se voltasse tal qual foi expulsa, a angústia seria insuportável. Por isso, o recalcado precisa passar por uma formação de compromisso. Ele se disfarça, se condensa e se desloca, manifestando-se através de sintomas, atos falhos, sonhos e chistes. O retorno é, essencialmente, o fracasso parcial da defesa.

As Formações do Inconsciente como Mensageiros

Como o recalcado não pode se apresentar de "cara limpa", ele utiliza vias alternativas para se expressar. Freud chamou essas manifestações de formações do inconsciente. O sintoma é talvez a forma mais dolorosa e persistente desse retorno. No sintoma neurótico, há um conflito entre o desejo que busca satisfação e a defesa que busca punição ou impedimento. O resultado é algo que o sujeito sofre, mas do qual ele não consegue se livrar, justamente porque o sintoma carrega, de forma cifrada, a satisfação de um desejo proibido. É um "mal-entendido" somatizado ou psíquico.

Além dos sintomas, temos os atos falhos (Fehlleistungen). Aquele nome que você esquece na hora H, a palavra trocada que causa um constrangimento ou o objeto que você perde constantemente não são meros acidentes biológicos ou lapsos de memória. Para a psicanálise, são brechas onde a verdade do desejo rompe a censura. O retorno do recalcado aqui é rápido e cirúrgico: a intenção consciente é interrompida por uma intenção inconsciente que reivindica seu lugar. Nos sonhos, esse retorno é o protagonista. Durante o sono, a censura diminui, permitindo que os restos diurnos se conectem a desejos infantis recalcados. O "conteúdo manifesto" do sonho (o que lembramos ao acordar) é a máscara que o "conteúdo latente" (o recalcado) usa para poder figurar na mente sem nos acordar imediatamente pelo susto.

O Papel do Afeto e a Representação

Uma distinção técnica fundamental para entender por que o recalcado retorna com tanta força é a diferença entre a representação e o afeto. Freud nos ensina que, quando recalcamos algo, o destino da ideia é diferente do destino da energia (libido) ligada a ela. A ideia pode ser esquecida ou distorcida, mas o afeto, a carga emocional, não pode ser destruído. Ele fica "flutuando" e busca se ligar a outras ideias.

É por isso que, muitas vezes, sentimos uma angústia profunda sem saber o motivo, ou uma fúria desproporcional por um evento irrelevante. O afeto do recalcado "pegou carona" em uma situação atual. O retorno do recalcado, nesse sentido, é a tentativa do psiquismo de dar um destino a essa energia acumulada. Se o recalque tenta silenciar a história, o retorno é o grito que insiste em narrar o que foi vivido. Na clínica psicanalítica, o trabalho não é simplesmente "descobrir" o que foi recalcado como quem desenterra um tesouro, mas sim ajudar o sujeito a ligar novamente aquele afeto à sua representação original, permitindo que ele elabore o que antes só podia repetir através do sofrimento.

A Repetição e a Pulsão de Morte

Com o avanço de sua teoria, especialmente após 1920, Freud percebeu que o retorno do recalcado nem sempre parece buscar o prazer ou a realização de um desejo. Às vezes, o que retorna é uma situação traumática que o sujeito é compelido a repetir, de novo e de novo, em um ciclo destrutivo. É a chamada compulsão à repetição. Aqui, o retorno do recalcado assume uma face mais sombria, ligada à pulsão de morte. O indivíduo se vê preso a padrões de relacionamento abusivos, fracassos profissionais recorrentes ou comportamentos autodestrutivos.

O recalcado, neste caso, retorna como um destino. O sujeito acredita que tem "azar" ou que o mundo está contra ele, sem perceber que é sua própria economia psíquica que está encenando, na realidade externa, um conflito interno não resolvido. O retorno do recalcado é, portanto, uma forma de memória de atuação: o que não pode ser lembrado e integrado à narrativa da vida é atuado no comportamento. A análise busca transformar esse atuar em recordar e elaborar, quebrando o círculo vicioso da repetição e permitindo que o sujeito deixe de ser refém de suas sombras inconscientes.

Referências Bibliográficas

DUNKER, Christian. Estrutura e constituição da clínica psicanalítica: uma formalização teórica e clínica. São Paulo: Annablume, 2011.

FREUD, Sigmund. O Eu e o Id, "Autobiografia" e outros textos (1923-1925). Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. (Obras Completas, v. 16).

FREUD, Sigmund. Inibição, sintoma e angústia, O futuro de uma ilusão e outros textos (1926-1929). Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2014. (Obras Completas, v. 17).

FREUD, Sigmund. A interpretação dos sonhos (1900). Tradução de Renato Zwick. Porto Alegre: L&PM, 2012.

LAPLANCHE, Jean; PONTALIS, Jean-Bertrand. Vocabulário da Psicanálise. Tradução de Pedro Tamen. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2001.

NASIO, Juan-David. Introdução às dez obras fundamentais de Freud. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 1999.

ZUPANCIC, Alenka. O que é o sexo?. Tradução de Carlos Augusto de Almeida. Belo Horizonte: Autêntica, 2018.

Minha Foto
Frederico Lima

Psicanalista, especialista em Teoria psicanalítica, com trabalhos publicados em periódicos científicos, capítulos de livros e anais de eventos.