Frederico Lima

Explorando as fronteiras entre a palavra e o sintoma para compreender a arquitetura do nosso mundo interno

O conceito de PERVERSÃO para a Psicanálise

Por Ludwig Grillich - Christian Lunzer (Hrsg.): Wien um 1900 - Jahrhundertwende, ALBUM Verlag für Photografie, Wien 1999, Domínio público.

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Enquanto no cotidiano a perversão é frequentemente associada à maldade ou à amoralidade, para a metapsicologia freudiana e a releitura lacaniana, ela se define como uma estrutura clínica específica, uma forma particular de o sujeito se posicionar diante do desejo, da Lei e da castração. Trata-se de um modo de subjetivação que se diferencia radicalmente da neurose e da psicose, operando por mecanismos de defesa e modalidades de satisfação pulsional que lhe são próprios.

A Gênese da Perversão e o Polimorfismo Pulsional

Para entender a perversão sob o olhar psicanalítico, é imperativo retornar à obra fundamental de Sigmund Freud, Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade (1905). É nesta obra que Freud subverte a compreensão da sexualidade humana ao afirmar que a criança é um "perverso polimorfo". Diferente do instinto animal, que possui um objeto e uma finalidade biológica pré-determinados (a procriação), a pulsão (Trieb) humana é caracterizada por sua plasticidade. A criança busca satisfação em diversas zonas erógenas, oral, anal, fálica, sem que haja, inicialmente, uma unificação sob a primazia genital. Nesse sentido, a perversão não é uma "anormalidade", mas uma manifestação da natureza originária da pulsão que, no desenvolvimento neurótico, acaba sendo recalcada ou sublimada em favor da civilização.

A transição da sexualidade infantil para a vida adulta implica um encontro traumático com a castração simbólica. Na neurose, o sujeito aceita a interdição do incesto e recalca os desejos edípicos, submetendo-se à Lei do Pai. Na perversão, contudo, o mecanismo de defesa em jogo não é o recalque (Verdrängung), mas a denegação ou desmentido (Verleugnung). O perverso reconhece a castração, ele sabe que a mãe não possui o falo, mas, simultaneamente, recusa-se a aceitar essa realidade, criando um substituto simbólico ou fetichista que mantém a ilusão da completude. Essa clivagem do ego permite que o sujeito perverso conviva com duas realidades contraditórias: a percepção da falta e a negação dessa falta através de um objeto ou ato que sustenta o gozo.

O destino da pulsão na perversão revela um sujeito que não recua diante do horror da castração. Enquanto o neurótico fantasia sobre o que o Outro deseja, o perverso se oferece como o instrumento que realiza esse desejo, visando tamponar a falta no Outro. A montagem perversa não é apenas uma busca por prazer, mas uma tentativa de desafiar a Lei e provar que a interdição pode ser contornada. O gozo perverso, portanto, está intrinsecamente ligado à transgressão de um limite que ele mesmo estabelece como necessário para sua satisfação.

O Desmentido da Castração e o Fetichismo como Paradigma

O conceito de Verleugnung (desmentido) é a pedra angular para compreender a estrutura perversa. Freud ilustra esse mecanismo de forma magistral em seu ensaio sobre o Fetichismo (1927). O fetiche surge como um substituto do falo materno, cuja ausência foi percebida pela criança e causou o pavor da castração. Ao fixar-se em um objeto, que pode ser uma parte do corpo, uma peça de vestuário ou uma situação específica, o perverso "desmente" a castração da mãe para preservar sua própria integridade fálica. O objeto fetiche não é apenas um adereço erótico; ele é uma barreira defensiva contra a angústia de aniquilação que a falta representa.

Essa estrutura de desmentido cria uma relação ambivalente com a verdade. O perverso habita um espaço onde "eu sei muito bem, mas mesmo assim...". Ele sabe que o fetiche é um substituto, mas age como se ele fosse a essência do gozo. Essa clivagem do eu (Ichspaltung) impede que o sujeito se submeta totalmente à ordem simbólica que regula as trocas sociais e sexuais. Diferente do neurótico, que sofre com o sintoma por não saber o que deseja, o perverso sabe exatamente o que lhe causa prazer e organiza sua vida em torno dessa certeza. O fetiche funciona como um ponto fixo, um "falo de substituição" que estabiliza a realidade do sujeito perverso diante do abismo da falta.

Lacan amplia essa discussão ao situar a perversão na lógica do objeto a. Na estrutura perversa, o sujeito se identifica com o próprio objeto a, transformando-se no instrumento do gozo do Outro. O perverso não busca o próprio prazer de forma egoísta; ele se coloca como aquele que sabe o que o Outro quer e se dedica a fornecer essa satisfação, muitas vezes de forma ritualística. O cenário perverso é uma encenação meticulosa onde o sujeito tenta "fazer o Outro existir" como um todo sem falta, desafiando a inconsistência do Outro simbólico. O fetichismo, portanto, é o paradigma de toda perversão, pois revela a tentativa de negar a castração através da materialidade de um objeto que tampona o vazio existencial.

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A Vontade de Gozo e o Desafio à Lei Simbólica

Se na neurose a lei é internalizada sob a forma do Superestimado (Superego), gerando culpa e inibição, na perversão a relação com a lei é de desafio e instrumentalização. Jacques Lacan introduz o conceito de "Kant com Sade" para demonstrar que o perverso é, paradoxalmente, um sujeito extremamente rigoroso e moralista em sua própria lógica. A "vontade de gozo" do perverso assemelha-se a um imperativo categórico; ele obedece a uma lei privada que exige a repetição exaustiva do ato perverso. Para o perverso, a lei pública existe apenas para ser contornada ou para servir de pano de fundo para a sua transgressão, pois sem a interdição, a transgressão perderia seu sentido.

O sujeito perverso atua no que Lacan chama de "versão do pai" (père-version), ou seja, uma versão personalizada do Nome-do-Pai. Ele não nega a lei como o psicótico, mas a utiliza para seus próprios fins. O ato perverso, seja no exibicionismo, voyeurismo, sadismo ou masoquismo, visa provocar no Outro uma reação que confirme a existência de um limite, para que ele possa, novamente, ultrapassá-lo. No sadismo, por exemplo, o objetivo não é simplesmente causar dor, mas angustiar o parceiro até que este revele a sua própria divisão subjetiva. O sádico busca transformar o outro em objeto, mas necessita que esse outro permaneça um sujeito capaz de sentir a angústia, para que o ato tenha eficácia.

Dessa forma, a perversão é uma defesa contra a angústia de castração através da ação (acting out). Enquanto o neurótico fantasia a transgressão e se sente culpado, o perverso realiza a fantasia. No entanto, essa realização não traz a libertação total, pois o perverso torna-se escravo de sua própria montagem. Ele está condenado a repetir o ritual para manter a ilusão de que o gozo absoluto é possível. A rigidez do ritual perverso mostra que, longe de ser um libertino sem amarras, o perverso é um prisioneiro de uma cena que precisa ser encenada com precisão cirúrgica para evitar que o real da castração retorne de forma avassaladora.

O Posicionamento do Analista diante da Estrutura Perversa

A clínica da perversão apresenta desafios únicos para o psicanalista. Como o perverso geralmente não sofre com seu "sintoma" da mesma forma que o neurótico, visto que sua estrutura é voltada para a obtenção de gozo e não para a produção de sentido inconsciente, ele raramente procura análise por conta própria devido aos seus atos perversos. Quando o faz, é frequentemente por demandas secundárias (depressão, problemas interpessoais) ou por imposição externa. O desafio inicial é transformar o "gozo" em "sintoma", ou seja, fazer com que o sujeito se interrogue sobre a função que aquela prática exerce em sua economia psíquica.

Na transferência, o perverso tende a colocar o analista no lugar do objeto ou do cúmplice de sua montagem. Ele pode tentar seduzir o analista, desafiar as regras do contrato analítico ou buscar transformar a sessão em um palco para suas atuações. O analista, portanto, deve ocupar o lugar da "castração", sustentando o vazio e a falta de saber, recusando-se a ser o instrumento do gozo do paciente. Não cabe ao analista julgar moralmente a prática do sujeito, mas sim apontar para a divisão subjetiva que o perverso tenta ocultar. O objetivo do tratamento não é a "cura" da perversão no sentido de transformá-la em neurose, mas permitir que o sujeito possa lidar com seu gozo de uma forma que não o escravize ou o coloque em situações de risco social e subjetivo extremo.

A ética da psicanálise na perversão reside em não recuar diante do gozo do Outro. É necessário que o analista mantenha o rigor do enquadre, pois o perverso testará constantemente a firmeza da lei simbólica representada pela figura do terapeuta. Se o analista cede e se torna fascinado ou horrorizado pelo relato perverso, ele entra na montagem do paciente e perde sua função operativa. A intervenção psicanalítica visa, portanto, introduzir uma cunha na certeza perversa, permitindo que o sujeito vislumbre a sua própria falta e, quem sabe, possa articular um desejo que não passe exclusivamente pela instrumentalização do outro.

Referências Bibliográficas

DOR, Joël. Estruturas e clínica psicanalítica. Rio de Janeiro: Taurus, 1991.

FREUD, Sigmund. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade (1905). In: Obras completas, volume 6. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.

FREUD, Sigmund. Fetichismo (1927). In: Obras completas, volume 17. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.

LACAN, Jacques. O seminário, livro 4: a relação de objeto. Tradução de Dulce Duque Estrada. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1995.

LACAN, Jacques. Kant com Sade (1963). In: Escritos. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.

QUINET, Antonio. Psicanálise e ética: entre o gozo e a lei. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2012.

ROUDINESCO, Elisabeth; PLON, Michel. Dicionário de Psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.

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Frederico Lima

Psicanalista, especialista em Teoria psicanalítica, com trabalhos publicados em periódicos científicos, capítulos de livros e anais de eventos.