Frederico Lima

Explorando as fronteiras entre a palavra e o sintoma para compreender a arquitetura do nosso mundo interno

O conceito de IDEAL DO EU para a Psicanálise

 Por Max Halberstadt - Esta imagem está disponível na Divisão de Gravuras e Fotografias da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos com o número de identificação digital cph.3g04946.Esta marcação não indica o estado dos direitos de autor da obra aqui mostrada. Continua a ser necessária uma marcação normal de direitos de autor. Veja Commons:Licenciamento para mais informações., Domínio público.

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Para mergulhar nesta instância, é preciso, primordialmente, situá-la em relação ao narcisismo e à transição da primeira para a segunda tópica freudiana. O Ideal do Eu não nasce com o indivíduo; ele é o herdeiro do narcisismo primário infantil, aquela fase mítica onde a criança era seu próprio ideal, não havendo fenda entre o que se é e o que se deseja ser. À medida que as exigências do mundo externo e as críticas parentais penetram a redoma narcísica, o sujeito é forçado a abandonar a perfeição que acreditava possuir. No entanto, o ser humano é incapaz de renunciar plenamente a uma satisfação outrora gozada. Assim, para salvar o sentimento de onipotência perdido, o sujeito projeta diante de si um substituto para o narcisismo perdido da infância: surge então o Ideal do Eu, uma instância que o sujeito aspira alcançar para recuperar o amor e a admiração que antes dedicava a si mesmo.

Diferenciar o Ideal do Eu do Eu Ideal é um passo técnico crucial para evitar confusões conceituais. Enquanto o Eu Ideal (Idealich) está mais ligado a uma imagem de perfeição narcísica, uma formação imaginária onde o eu se vê como completo e sem falhas, muito explorado por Jacques Lacan no Estádio do Espelho, o Ideal do Eu funciona como um referencial simbólico. Ele é o suporte da lei, o olhar sob o qual o Eu se mede e se avalia. Freud introduz essa distinção de forma mais clara em "Sobre o Narcisismo: uma introdução" (1914) e aprofunda em "Psicologia das Massas e Análise do Eu" (1921). O Ideal do Eu é, portanto, uma instância de balizamento; ele dita como o sujeito deve ser para ser digno de amor. É uma meta, um ponto de convergência para onde a libido narcísica é redirecionada. Se o Eu Ideal é o "eu que eu gostaria de ver no espelho", o Ideal do Eu é o "eu que eu devo ser para satisfazer a cultura e os pais".

A gênese desta instância está intrinsecamente ligada ao Complexo de Édipo e à sua resolução. Com o declínio do Édipo, as proibições e exigências dos pais são internalizadas, formando o núcleo do Supereu (Über-Ich). Muitas vezes, Freud utiliza Ideal do Eu e Supereu como termos quase intercambiáveis, mas a metapsicologia permite uma distinção funcional: o Supereu exerce a função de vigilância, punição e consciência moral, enquanto o Ideal do Eu representa a vertente prescritiva, o modelo de excelência. O sentimento de culpa emerge da tensão entre o Eu e o Supereu, enquanto o sentimento de inferioridade ou vergonha nasce da distância incomensurável entre o Eu e o seu Ideal. Essa tensão é o motor de grande parte do sofrimento neurótico, mas também é o que impulsiona o indivíduo à sublimação e à inserção na cultura. Ao tentar atingir o ideal, o sujeito produz arte, ciência e ética, buscando uma validação que nunca é plena, pois o ideal, por definição, é inatingível.

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No âmbito da Psicologia das Massas, o conceito ganha uma dimensão sociológica e política fascinante. Freud postula que uma massa se constitui quando um grupo de indivíduos coloca um mesmo objeto, seja um líder, uma ideia ou um dogma, no lugar de seu Ideal do Eu. Ao fazer isso, os indivíduos se identificam uns com os outros através do Eu, estabelecendo um laço afetivo baseado na partilha de um mesmo referencial de perfeição e comando. O líder passa a ser a bússola moral e estética, e as funções críticas do Supereu individual podem ser suspensas em favor das ordens desse Ideal externalizado. Isso explica fenômenos de alienação coletiva e a devoção cega, onde o sujeito abre mão de sua autonomia psíquica para se fundir a uma identidade coletiva que promete restaurar a segurança narcísica perdida. A fragilidade do Eu, sempre acuada entre as pulsões do Id e as pressões da realidade, encontra no Ideal do Eu uma promessa de unidade e direção.

Por fim, a clínica psicanalítica lida constantemente com os impasses do Ideal do Eu. Em casos de depressão e melancolia, observa-se um Ideal do Eu extremamente severo ou inalcançável, que esmaga o Eu com críticas impiedosas. O sujeito sente-se permanentemente em falta, incapaz de corresponder às expectativas grandiosas que ele mesmo (via introjeção) estabeleceu. Por outro lado, na perversão ou em certas estruturas psicóticas, a relação com o ideal sofre distorções profundas. A análise busca, de certa forma, flexibilizar essa tirania do ideal, permitindo que o sujeito reconheça suas castrações e limitações sem que isso signifique o aniquilamento de seu valor. Entender o Ideal do Eu é compreender que o desejo humano é sempre mediado por uma imagem de perfeição que nos precede e nos puxa para o futuro, ao mesmo tempo em que nos ancora nas exigências simbólicas da nossa história pessoal e coletiva.

Referências Bibliográficas

FREUD, Sigmund. Escritos sobre a psicologia do inconsciente: volume I. Rio de Janeiro: Imago, 2004.

FREUD, Sigmund. O Eu e o Id, "Autobiografia" e outros textos (1923-1925). Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

FREUD, Sigmund. Psicologia das massas e análise do eu e outros textos (1920-1923). Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

LACAN, Jacques. O seminário, livro 1: os escritos técnicos de Freud. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1986.

ROUDINESCO, Elisabeth; PLON, Michel. Dicionário de Psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.

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Frederico Lima

Psicanalista, especialista em Teoria psicanalítica, com trabalhos publicados em periódicos científicos, capítulos de livros e anais de eventos.