O ORCID substitui o Currículo Lattes?
A discussão sobre a coexistência ou a sucessão tecnológica entre o ORCID (Open Researcher and Contributor ID) e o Currículo Lattes é um dos temas mais centrais na gestão da informação científica contemporânea no Brasil. Para compreender se um substitui o outro, é fundamental analisar a natureza ontológica de cada plataforma, suas funções no ecossistema de Ciência, Tecnologia e Inovação (CT&I) e como a interoperabilidade de metadados está redefinindo o fluxo de trabalho do pesquisador.
A Natureza Distinta das Plataformas e a Complementaridade Funcional
O Currículo Lattes, gerido pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), é um sistema de informação de caráter administrativo, acadêmico e biográfico. Ele funciona como um padrão nacional de registro da vida profissional de estudantes, professores e pesquisadores no Brasil. Sua principal característica é a exaustividade. O Lattes não se limita a listar publicações; ele detalha orientações, participação em bancas, projetos de extensão, prêmios, organização de eventos e uma vasta gama de atividades que compõem a métrica de avaliação da Capes e das agências de fomento estaduais. No contexto brasileiro, o Lattes é a "moeda de troca" para a concessão de bolsas e auxílios, servindo como uma base de dados estruturada que permite ao Estado mapear a competência científica nacional.
Por outro lado, o ORCID é um identificador digital persistente, único e gratuito para indivíduos participarem em atividades de pesquisa, bolsa de estudos e inovação. Enquanto o Lattes é um repositório de informações curriculares detalhadas, o ORCID é, essencialmente, um identificador de autoridade. Ele resolve o problema crítico da ambiguidade de nomes na literatura científica global. Pesquisadores com sobrenomes comuns ou que alteraram seus nomes ao longo da carreira encontram no ORCID uma âncora digital que garante que sua produção seja atribuída corretamente a eles, independentemente da grafia utilizada pelas editoras internacionais. Portanto, a resposta curta é que o ORCID não substitui o Lattes; eles ocupam nichos diferentes, mas altamente integrados. O ORCID atua como o "RG digital" do pesquisador no mundo, enquanto o Lattes permanece como o portfólio oficial e detalhado para o território brasileiro.
Interoperabilidade e a Redução da Carga Burocrática
Um dos maiores desafios enfrentados pela comunidade acadêmica é a redundância no preenchimento de dados. O conceito de "digitar uma vez, usar muitas" é a força motriz por trás da integração entre o Lattes e o ORCID. Atualmente, o CNPq permite a sincronização entre as duas plataformas. Isso significa que, em vez de substituir o Lattes, o ORCID serve como um alimentador de dados. Através de APIs (Application Programming Interfaces), o pesquisador pode importar suas publicações registradas no ORCID diretamente para o seu Currículo Lattes, evitando erros de digitação e a necessidade de buscar manualmente o DOI (Digital Object Identifier) de cada artigo.
Essa integração é um passo em direção ao que chamamos de ecossistema de dados abertos e vinculados (Linked Open Data). O ORCID funciona como um hub que conecta o pesquisador a editoras (como Elsevier, Springer e Wiley) e a bases de dados (como Scopus e Web of Science). Quando um artigo é aceito e publicado, a editora pode atualizar automaticamente o registro no ORCID do autor que, por sua vez, pode ser espelhado no Lattes. Assim, o ORCID não elimina a necessidade do Lattes para fins de avaliação nacional, mas torna a manutenção do Lattes muito menos penosa. O rigor terminológico aqui exige destacar que o ORCID é um identificador, enquanto o Lattes é um currículo estruturado. Um identifica o sujeito; o outro narra a trajetória com validade institucional.
O Papel do ORCID na Visibilidade Internacional e Desambiguação
A internacionalização da ciência brasileira depende da capacidade de nossos pesquisadores serem encontrados e citados corretamente. Nesse cenário, o Lattes possui uma limitação inerente: ele é um sistema predominantemente em português e focado na burocracia estatal brasileira. Um avaliador em uma universidade na Europa ou nos Estados Unidos raramente consultará o Currículo Lattes de um candidato, mas certamente verificará seu perfil ORCID para validar sua produção científica. O ORCID fornece uma interface multilíngue e um formato de intercâmbio de dados que é padrão ouro em todo o mundo.
A desambiguação é o processo técnico de garantir que "Silva, J." e "Silva, Joao" refiram-se à mesma pessoa, separando-a de outros milhares de "Silvas". Sem um identificador persistente como o ORCID, a produção científica brasileira corre o risco de fragmentação em bases de dados internacionais. Ao vincular o ORCID ao Lattes, o CNPq fortalece a identidade do pesquisador brasileiro no exterior. Portanto, tratar o ORCID como um substituto seria ignorar a especificidade regional do Lattes, enquanto ignorar o ORCID seria condenar o pesquisador ao isolamento digital e a possíveis prejuízos em métricas de impacto como o índice h e a contagem de citações, que dependem da correta atribuição de autoria.
A Governança de Dados e a Soberania da Informação Científica
Um ponto fundamental na comparação entre as plataformas diz respeito à governança. O Currículo Lattes é uma ferramenta estatal, sob a égide do governo federal brasileiro. Os dados ali contidos são utilizados para o planejamento de políticas públicas de ciência e tecnologia. A substituição do Lattes por uma plataforma internacional e gerida por um consórcio sem fins lucrativos, como o ORCID, traria questões complexas sobre a soberania dos dados. O governo brasileiro precisa ter controle sobre a taxonomia das áreas do conhecimento e os critérios de avaliação que são específicos para a realidade nacional, algo que o ORCID, por sua natureza genérica e global, não se propõe a oferecer.
O ORCID é uma organização comunitária, neutra em relação a editores e agências. Ele oferece a infraestrutura técnica, mas não dita as regras de mérito acadêmico. O Lattes, por sua vez, é intrinsecamente ligado ao sistema de avaliação da Capes e aos critérios de produtividade do CNPq. Se o ORCID substituísse o Lattes, perderíamos a capacidade de registrar minúcias como a participação em comitês locais, prêmios de sociedades científicas brasileiras e a produção técnica que muitas vezes não gera um DOI internacional, mas que possui alto impacto social e econômico no Brasil. A convivência harmônica permite que o Brasil mantenha sua autonomia informativa enquanto se conecta aos padrões globais de ciência aberta.
Futuro da Gestão da Identidade Científica: Convergência, não Substituição
As tendências atuais em bibliometria e cientometria apontam para uma convergência cada vez maior. Não se fala mais em escolher entre um sistema ou outro, mas em como torná-los partes de um único fluxo de informação. O futuro aponta para um "Currículo Lattes 2.0" que seja nativamente integrado a identificadores persistentes. Além do ORCID para pessoas, estamos vendo a ascensão do ROR (Research Organization Registry) para instituições e do DOI para produções. Nesse modelo, o pesquisador brasileiro iniciará sua trajetória criando um ORCID, que será o link vitalício de sua carreira. Ao ingressar no sistema acadêmico nacional, esse identificador será acoplado ao Lattes, permitindo que a informação flua sem atritos.
Em conclusão, o ORCID não substitui o Currículo Lattes porque eles cumprem missões distintas. O ORCID é a chave de acesso e o garantidor da identidade no oceano global de dados científicos; o Lattes é o mapa detalhado da produção e da competência acadêmica dentro das fronteiras e regulamentações brasileiras. A eficiência do pesquisador moderno reside na gestão diligente de ambos: manter o ORCID atualizado para garantir visibilidade e integridade internacional, e utilizar essa base para alimentar o Lattes, assegurando sua conformidade com as exigências das agências de fomento nacionais. A sinergia entre o identificador persistente e o currículo nacional é o que define a maturidade digital da ciência brasileira hoje.
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