O que significa IDEAL DO EU para a Psicanálise?
A origem do Ideal do Eu remonta ao momento em que a criança é forçada a abandonar a onipotência do narcisismo primário. No início do desenvolvimento, o bebê é seu próprio ideal; ele vive em um estado de perfeição onde não há separação entre os desejos e a realidade. No entanto, as pressões do mundo externo e as críticas dos pais, que introduzem a lei e a linguagem, perturbam essa autossuficiência. Para preservar o sentimento de satisfação que antes vinha de si mesmo, o sujeito desloca essa perfeição para um novo constructo: o Ideal do Eu.
Como Freud aponta em sua obra seminal de 1914, Sobre o Narcisismo: uma introdução, o homem mostra-se incapaz de renunciar à satisfação de que desfrutou outrora. Ele não quer ser privado da perfeição narcísica de sua infância; e quando não consegue mantê-la, tenta recuperá-la sob a forma nova de um Ideal do Eu. O que ele projeta diante de si como seu ideal é o substituto do narcisismo perdido da infância, na qual ele era seu próprio ideal.
Neste estágio, é crucial diferenciar o Eu Ideal do Ideal do Eu. O Eu Ideal é uma formação imaginária, uma imagem de completude herdeira do "Estádio do Espelho", como bem descreveu Jacques Lacan em seus Escritos. Ele é a promessa de uma unidade corporal e psíquica sem falhas. Já o Ideal do Eu é uma instância simbólica; ele funciona como um "olhar" sob o qual o Eu se avalia. Enquanto o Eu Ideal é o que eu gostaria de ser (identificação imaginária), o Ideal do Eu é o lugar de onde eu sou observado para ser amado (identificação simbólica). O Ideal do Eu é, portanto, o suporte da lei e o motor da sublimação.
O Ideal do Eu e a Constituição do Supereu
A relação entre o Ideal do Eu e o Supereu (Über-Ich) é um dos pontos de maior densidade teórica na obra freudiana tardia, especialmente em O Ego e o Id (1923). Freud utiliza os termos quase como sinônimos em certos trechos, mas a clínica psicanalítica permite uma distinção funcional clara. O Supereu é a instância censuradora, a consciência moral que pune o Eu através do sentimento de culpa. O Ideal do Eu, por sua vez, é a face "positiva" dessa mesma estrutura: ele não diz apenas "você não pode fazer isso", mas sim "você deve ser assim para ser digno".
O Ideal do Eu é o herdeiro do Complexo de Édipo. Ao renunciar aos desejos incestuosos, a criança identifica-se com as exigências e os valores dos pais. Essa identificação não é apenas com as pessoas dos pais, mas com o próprio Ideal do Eu dos pais. Assim, o Ideal do Eu torna-se o veículo da tradição e de todos os juízos de valor que se transmitem de geração em geração. Ele é o depositário das exigências éticas, religiosas e sociais.
Em O Mal-Estar na Civilização (1930), Freud explora como essa instância exige do Eu uma constante autovigilância. A tensão entre as exigências do Ideal do Eu e a realidade do Eu efetivo gera o sentimento de inferioridade. Enquanto a culpa está ligada ao Supereu (por ter feito algo proibido), a inferioridade está ligada ao Ideal do Eu (por não ter atingido o patamar de excelência exigido). O Ideal do Eu é a medida pela qual o Eu se avalia, e a distância entre o Eu e esse Ideal é o que determina a autoestima do sujeito. Se a distância é excessiva, o sujeito mergulha na melancolia ou na paralisia; se é nula, cai-se na inflação narcísica ou na mania.
Identificação Coletiva e Fenômenos de Massa
A importância do Ideal do Eu extrapola a psique individual, sendo a chave para a compreensão dos fenômenos sociais. Em Psicologia das Massas e Análise do Eu (1921), Freud descreve como uma multidão se organiza em torno de um líder. O mecanismo fundamental é a substituição do Ideal do Eu individual por um objeto comum.
Quando um grupo de indivíduos coloca o mesmo objeto (o líder, uma ideologia, um dogma) no lugar de seu Ideal do Eu, eles passam a se identificar uns com os outros através do Eu. Essa "identificação horizontal" entre os membros da massa só é possível devido à "ligação vertical" com o ideal compartilhado. O líder torna-se a bússola moral e estética, e o Eu individual abre mão de sua capacidade crítica em favor das diretrizes desse ideal externalizado.
Esse processo explica por que, em contextos de massa, indivíduos podem agir de forma contrária aos seus próprios valores éticos prévios. Se o Ideal do Eu (agora encarnado pelo líder) autoriza ou exige certas condutas, o Supereu silencia a culpa, pois a instância que deveria julgar o Eu foi "terceirizada". O Ideal do Eu funciona, aqui, como o elo que une o sujeito à cultura e à civilização, mas também como o ponto de vulnerabilidade onde a autonomia pode ser cedida em troca de pertencimento e segurança narcísica.
O Ideal do Eu na Teoria Lacaniana: O Traço Unário
Jacques Lacan refinou a distinção entre o imaginário e o simbólico no que tange ao Ideal. Para Lacan, o Ideal do Eu (Idéal du Moi) é uma formação simbólica ligada ao "Traço Unário" (Einziger Zug), termo que Freud utilizou para descrever o elemento mais simples da identificação. O Ideal do Eu é o ponto no Grande Outro (o campo da linguagem e da cultura) de onde o sujeito se vê como "visto" e se torna amável.
No seminário A Transferência (1960-1961), Lacan trabalha a ideia de que o Ideal do Eu comanda a posição do sujeito no mundo. Ele é como uma bússola que orienta o desejo. Se o Eu Ideal é a imagem no espelho com a qual nos fascinamos, o Ideal do Eu é o "suporte" do espelho; é o ângulo que determina como a imagem será refletida. Mudar o Ideal do Eu em uma análise significa alterar a própria posição subjetiva de onde o indivíduo interpreta a realidade e seus desejos.
A relação com o Ideal do Eu também é central na clínica da neurose. O neurótico obsessivo, por exemplo, vive esmagado por um Ideal do Eu excessivamente exigente, tentando constantemente "pagar uma dívida" para com esse olhar julgador. Já na histeria, o Ideal do Eu é muitas vezes buscado no Outro, questionando o que o Outro deseja para que ela possa se tornar esse objeto de desejo. A análise busca desvelar a natureza desses ideais muitas vezes tirânicos e permitir que o sujeito se relacione com o seu desejo de forma menos alienada aos imperativos de perfeição herdados.
Sublimação, Criatividade e a Função do Ideal
Por fim, é necessário abordar o papel do Ideal do Eu na economia pulsional, especificamente na sublimação. A sublimação é o processo pelo qual a pulsão é desviada de seu alvo sexual imediato para fins socialmente valorizados, como a arte, a ciência e o trabalho intelectual. O Ideal do Eu é o motor desse processo. Ele oferece ao Eu uma recompensa narcísica por abrir mão da satisfação pulsional bruta em favor de uma realização que esteja de acordo com os valores do ideal.
Sem o Ideal do Eu, a cultura seria impossível, pois não haveria motivação interna para a renúncia necessária ao convívio social. No entanto, a psicanálise também alerta para o "mal-estar" intrínseco a esse processo. O Ideal do Eu é uma meta inalcançável por definição. Como Freud discute em Novas Conferências Introdutórias sobre Psicanálise (1933), o Ideal do Eu é o que o Eu aspira ser, mas a distância entre os dois é a fonte perene de insatisfação humana.
Novas Conferências Introdutórias Sobre Psicanálise e Outros Trabalhos
Sigmund Freud
Comprar na AmazonA saúde psíquica, sob essa ótica, não consiste em atingir o Ideal, o que seria um delírio de grandeza, nem em eliminá-lo, o que resultaria na psicose ou na desestruturação ética, mas em estabelecer uma relação dialética com ele. Trata-se de reconhecer a função orientadora do Ideal sem se deixar aniquilar por suas exigências de perfeição absoluta. O Ideal do Eu deve servir à vida e à criação, e não ser um carrasco que condena o sujeito a uma eterna insuficiência.
Referências Bibliográficas
FREUD, Sigmund. Sobre o narcisismo: uma introdução (1914). In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, vol. XIV. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
FREUD, Sigmund. Psicologia das massas e análise do eu (1921). In: Obras Completas, vol. 15. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
FREUD, Sigmund. O ego e o id (1923). In: Obras Completas, vol. 16. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização (1930). In: Obras Completas, vol. 18. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
FREUD, Sigmund. Novas conferências introdutórias sobre psicanálise (1933). In: Obras Completas, vol. 18. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
LACAN, Jacques. O estádio do espelho como formador da função do eu (1949). In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998.
LACAN, Jacques. O Seminário, livro 8: a transferência (1960-1961). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1992.
LAPLANCHE, Jean; PONTALIS, Jean-Bertrand. Vocabulário da Psicanálise. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
ROUDINESCO, Elisabeth; PLON, Michel. Dicionário de Psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998.
Frederico Lima é graduado, mestre e doutor em Letras pela UFPB. Também possui formação em Psicanálise e especialização em Teoria Psicanalítica, com trabalhos publicados em periódicos científicos, capítulos de livros e anais de eventos.
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