A relação milenar entre a literatura e a compreensão do cosmos ganha um novo e provocativo capítulo. A Revista Em Tese, periódico do Programa de Pós-graduação em Estudos Literários da UFMG, anunciou a abertura de submissões para o dossiê "De Dante aos Buracos Negros: Poéticas do Ininteligível e a Crise da Representação da Ciência Contemporânea".
Organizado por Danilo de Athayde (UFMG/Universidade do Porto), o número temático propõe uma investigação profunda sobre como as artes e a literatura reagem a um mundo onde a ciência avançada, com seus buracos negros, física quântica e algoritmos de IA, tornou-se matematicamente precisa, porém visualmente e narrativamente opaca para o senso comum.
Do Cosmos Ordenado à "Caixa-Preta" Tecnológica
O ponto de partida do dossiê é o contraste histórico entre a "Máquina do Mundo" de Dante Alighieri e Camões, que oferecia uma arquitetura visível e harmoniosa do universo, e a realidade contemporânea descrita por físicos como Carlo Rovelli. Hoje, a realidade não é mais vista como uma coleção de objetos estáveis, mas como uma trama complexa de eventos e interações invisíveis.
Essa mudança gerou o que os organizadores chamam de "escassez alegórica". Em um cenário onde a inteligibilidade depende de formalismos abstratos e infraestruturas de dados impenetráveis, as artes surgem como dispositivos críticos capazes de criar novas formas de "habitar" o conhecimento.
Eixos de Investigação e Sul Global
A chamada busca contribuições que operem na fronteira entre a Estética e a Epistemologia, destacando a importância de situar esse debate a partir do Sul Global. Entre os temas sugeridos, destacam-se:
a) Poéticas do Ininteligível: escalas e limites
- Da Máquina do Mundo ao Multiverso: a crise dos modelos totalizantes na literatura e nas artes, do cosmos dantesco às ficções de multiverso.
- A Ciência Medieval Hoje: reativações e deslocamentos de formas pré-modernas (analogia, correspondência, maravilha, bestiários) na imaginação tecnocientífica e literária contemporânea.
- Sublime Matemático e Ecológico: soluções formais e estéticas diante de objetos incomensuráveis (buracos negros, matéria escura, catástrofes climáticas, o tempo profundo).
- O Ilegível e o Impensável: estratégias narrativas de incerteza, incompletude e recusa de fechamento em obras contemporâneas para figurar o que resiste à representação.
- Ficções Teóricas e o Mito como Método: o uso de metáforas e modelos imaginários pela própria ciência e a literatura e as artes como dispositivos cognitivos para testar os limites da inteligibilidade.
b) Alegorias Técnicas e Ficções da Caixa-Preta
- Narrar o Algoritmo: como a literatura e as artes representam processos invisíveis de IA, big data e infraestruturas digitais (Alegorias da Caixa-Preta).
- Estética do Dado e Ficção de Arquivo: apropriação literária de documentos, relatórios, laudos e diagramas científicos; a estética burocrática transposta para o romance e as artes visuais.
- Ficções do Pós-Humano e da Mente: a representação literária da edição genética, de corpos modificados e da neurodivergência; o corpo e a consciência como fronteiras epistemológicas.
- Controvérsias em Cena: a dramatização literária ou artística de disputas públicas sobre verdade, ciência e tecnologia (clima, saúde, IA).
c) Imaginários da Ciência no Sul Global
- Novos Humanismos Pós-Reducionistas: o debate das "duas culturas" hoje no Brasil e na América Latina. Propostas de superação da dicotomia entre humanidades e ciências duras através de uma terceira margem epistemológica.
- Futurismos Periféricos: Afrofuturismo, Futurismo Indígena, distopias periféricas e a ficção científica brasileira como laboratórios para pensar a técnica e a ciência a partir do Sul Global.
- Ciência e Modernização no Brasil: representações do cientista, do laboratório e da modernização técnica no cânone e na literatura contemporânea nacional.
- Justiça Epistêmica e Tradução: como a literatura do Sul Global reconfigura, contesta ou traduz imaginários científicos e formas de prova do Norte.
Informações para Colaboradores
Pesquisadores interessados em contribuir com artigos teóricos, estudos de caso ou resenhas críticas têm até o dia 30 de setembro de 2026 para enviar suas propostas.
Além de textos acadêmicos, a seção "Poéticas" receberá produções artísticas autorais, como ensaios visuais, fotografias e textos experimentais que dialoguem com o tema da opacidade e da representação científica.
Prazo final: 30/09/2026
Submissões: Através do portal oficial da Revista Em Tese (Sistema SEER/OJS).
Contato: danilodeathayde@gmail.com