O que significa SUPEREGO para a Psicanálise?

O desenvolvimento do conceito de Superego representa um dos marcos mais sofisticados da metapsicologia freudiana, consolidando a transição da primeira para a segunda tópica. No contexto do aparelho psíquico, o Superego não deve ser reduzido a uma mera "consciência moral" em sentido leigo; ele é, antes de tudo, o herdeiro do Complexo de Édipo e o sedimento de identificações narcísicas que moldam a subjetividade humana sob a égide da lei e da interdição.

A Estruturação do Superego na Segunda Tópica

A introdução do conceito de Superego (Über-Ich) ocorre formalmente em O Ego e o Id (1923), embora suas raízes remontem a funções anteriormente descritas por Freud como "ideal do ego" e "auto-observação" em textos como Sobre o Narcisismo: uma introdução (1914) e Luto e Melancolia (1917). Na topografia estrutural, o Superego emerge como uma diferenciação dentro do Ego, agindo como um censor, um juiz e um depositário de ideais.

Diferente do Id, que opera sob o princípio do prazer e a busca pela descarga pulsional imediata, e do Ego, que busca mediar essa tensão com o princípio da realidade, o Superego representa a internalização das exigências sociais e parentais. Contudo, essa internalização não é um espelhamento passivo. Freud postula que o Superego de uma criança não é construído à imagem de seus pais, mas à imagem do Superego de seus pais. Isso estabelece uma transmissão transgeracional da cultura e da moralidade, onde a severidade da instância não necessariamente corresponde à severidade real da educação recebida, mas sim à intensidade das moções pulsionais agressivas do próprio sujeito que foram voltadas para dentro.

A relação entre o Ego e o Superego é frequentemente descrita como uma tensão constante. O Ego se vê compelido a satisfazer três senhores tirânicos: o mundo externo, o Id e o Superego. Enquanto o Id clama por satisfação e a realidade impõe limites físicos e sociais, o Superego exerce uma pressão interna que se manifesta através do sentimento de culpa e da necessidade de punição. É uma instância que "observa o Ego, dá-lhe ordens, julga-o e ameaça-o de castigos, exatamente como os pais cujo lugar ele tomou".

O Herdeiro do Complexo de Édipo e a Identificação

A pedra angular da formação do Superego é o declínio do Complexo de Édipo. Por volta dos cinco anos de idade, a criança enfrenta o impasse das suas aspirações libidinais incestuosas e de sua rivalidade hostil com o genitor do mesmo sexo. A solução para esse conflito não se dá pelo esquecimento, mas pela dessexualização dos objetos e pela identificação.

Nesse processo, a autoridade externa, o pai ou a figura cuidadora que impõe a interdição do incesto, é introjetada. A energia pulsional que antes era dirigida ao objeto externo (o desejo pela mãe e a agressividade contra o pai, no caso do menino) é internalizada e colocada a serviço do Superego. Assim, o Superego se torna o depositário da interdição. Ele é, simultaneamente, o "ideal" (o que se deve ser) e a "proibição" (o que não se deve fazer).

É fundamental distinguir entre o ideal do ego e o Superego, embora Freud utilize os termos de forma intercambiável em certos momentos. O ideal do ego está mais ligado ao narcisismo primário e à imagem de onipotência que o sujeito busca recuperar, servindo como modelo de perfeição. Já o Superego propriamente dito assume a função de consciência moral e censura. O conflito entre a realidade do Ego e as exigências desmedidas do Superego resulta no sentimento de inferioridade e na culpa inconsciente.

A natureza do Superego é paradoxal: quanto mais o indivíduo domina sua agressividade externa e se submete à moralidade, mais severo e desconfiado o Superego se torna. Isso ocorre porque a agressividade que não foi descarregada no mundo exterior é internalizada e utilizada pelo Superego contra o Ego. É essa dinâmica que explica por que pessoas extremamente virtuosas podem sofrer de uma consciência moral torturante, enquanto indivíduos com comportamento antissocial podem demonstrar uma aparente ausência de remorso.



Dinâmica Pulsional e a Dualidade entre Eros e Tânatos

Com a introdução da pulsão de morte (Todestrieb) em Além do Princípio do Prazer (1920), a compreensão do Superego ganha uma nova camada de complexidade. O Superego não é apenas um regulador moral; ele pode se tornar um agente de autodestruição. Em condições patológicas, como na melancolia ou nas neuroses obsessivas graves, o Superego exibe uma "cultura pura da pulsão de morte".

Nesse cenário, o Superego torna-se sadicamente cruel com o Ego. Ele se apropria da energia de Tânatos para fustigar a subjetividade, exigindo uma perfeição impossível e punindo qualquer falha com uma severidade implacável. Enquanto o Ego se esforça para manter a coesão através de Eros (ligação), o Superego pode agir de forma desintegradora. O sentimento de culpa, nestes casos, deixa de ser um sinal de alerta social para se tornar uma força que impele o sujeito ao sofrimento e, no limite, ao suicídio.

A relação com a agressividade é central. Freud observa que o Superego é sempre alimentado pela agressividade que o sujeito não pôde direcionar para fora. Se uma criança é impedida de expressar sua raiva contra pais excessivamente restritivos, essa energia hostil é introjetada, fortalecendo a carga punitiva do Superego. Portanto, a severidade do Superego é proporcional à força das pulsões que o sujeito precisou renunciar.

Essa instância também desempenha um papel crucial na formação da massa e na psicologia social. Em Psicologia das Massas e Análise do Ego (1921), Freud demonstra como um grupo de indivíduos pode substituir seu ideal do ego por um líder único, permitindo que a consciência moral individual seja suspensa em favor da vontade desse objeto idealizado. Isso explica fenômenos de barbárie coletiva onde indivíduos, outrora civilizados, cometem atos atrozes sob a égide de uma autoridade externa que agora ocupa o lugar de seu Superego.

O Sentimento de Culpa Inconsciente e a Necessidade de Punição

Um dos conceitos mais desafiadores na prática clínica psicanalítica é o sentimento de culpa inconsciente. Diferente da culpa consciente, que o sujeito consegue nomear e associar a um ato específico, a culpa inconsciente opera nas sombras, manifestando-se como uma "resistência à cura" ou uma "reação terapêutica negativa".

Freud observou que alguns pacientes, ao darem sinais de melhora no tratamento, subitamente pioravam. Isso ocorria porque a melhora representava uma satisfação que o Superego punitivo não permitia. O sofrimento do sintoma servia como uma punição necessária para apaziguar a instância julgadora. Nesses casos, o indivíduo não se sente "culpado", mas sim "doente" ou "infeliz", sem perceber que seu infortúnio é uma demanda interna por castigo.

O Superego, portanto, estabelece uma economia psíquica onde a renúncia pulsional é a moeda de troca. No entanto, o Superego é um credor insaciável: cada renúncia aumenta sua vigilância e sua exigência. Nas neuroses, essa dinâmica leva a sintomas obsessivos, rituais e pensamentos intrusivos que funcionam como defesas e, simultaneamente, autopunições. O sujeito fica aprisionado em um ciclo onde o desejo (Id) é imediatamente seguido pela censura (Superego), deixando o Ego exaurido no centro do conflito.

A neurose obsessiva é o campo onde a tirania do Superego é mais visível. O pensamento torna-se sexualizado e agressivizado, e o Superego reage a esses pensamentos como se fossem atos reais. Para a lógica inconsciente do Superego, não há distinção entre a intenção e a ação; o desejo de morte dirigido a um progenitor é punido com a mesma intensidade que o parricídio real. Essa onipotência do pensamento é um resquício do narcisismo infantil que o Superego herda e utiliza para atormentar o Ego.

A Evolução do Conceito e a Perspectiva Lacaniana

Embora o texto foque na fundação freudiana, é impossível ignorar como a psicanálise pós-freudiana, especialmente com Jacques Lacan, refinou a compreensão do Superego. Lacan enfatiza a dimensão simbólica do Superego, mas também sua face obscena e feroz. Para Lacan, o Superego não é apenas o representante da Lei, mas uma "figura de gozo".

Enquanto a Lei (o Nome-do-Pai) organiza o desejo e insere o sujeito na linguagem, o Superego lacaniano ordena: "Goza!". É uma ordem paradoxal, pois o gozo é, por definição, aquilo que escapa ao controle do Ego e que traz consigo um sofrimento intrínseco. Nessa perspectiva, o Superego é o imperativo que empurra o sujeito para além do princípio do prazer, em direção a uma satisfação dolorosa e repetitiva.

O Superego lido através de Lacan revela-se menos como um guia moral e mais como uma "fauve" (fera) que se alimenta do sacrifício do sujeito. Ele está ligado ao Real — aquilo que não pode ser totalmente simbolizado. A clínica psicanalítica, portanto, não visa fortalecer o Superego ou tornar o sujeito "mais moral", mas sim aliviar o Ego da tirania esmagadora dessa instância, permitindo que o sujeito se relacione com seu desejo de uma forma menos mediada pela culpa mortífera.

Somos seres de linguagem, capturados entre a biologia das pulsões e as exigências da civilização. O Superego é o monumento interno a essa captura; ele é a marca de que a cultura não é apenas algo que nos rodeia, mas algo que nos habita, nos julga e, em muitos casos, nos define através do que nos proíbe. A compreensão profunda do Superego exige aceitar que a moralidade humana tem raízes mergulhadas na agressividade e que nossa "consciência" é, em grande parte, o resultado de uma batalha pulsional travada no mais absoluto silêncio do inconsciente.

Até a próxima! Fiquem bem!

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Foto do Autor

Frederico Lima

Psicanalista, especialista em Teoria Psicanalítica e doutor em Letras, com tese sobre a aproximação entre Literatura e Psicanálise. Possui trabalhos publicados em periódicos científicos, capítulos de livros e anais de eventos.


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