O que são as RELAÇÕES OBJETAIS para a Psicanálise de Melanie Klein?
A teoria das Relações Objetais, cujo alicerce foi profundamente expandido por Melanie Klein, representa uma das maiores revoluções no pensamento psicanalítico pós-freudiano. Enquanto Freud concentrou grande parte de sua obra na dinâmica pulsional e no desenvolvimento psicossexual (fases oral, anal e fálica), Klein mergulhou no mundo interno do bebê, investigando como o ego primitivo se relaciona com "objetos", que podem ser pessoas reais, partes de pessoas ou representações fantasiadas dessas figuras. Para Klein, o indivíduo não nasce apenas com impulsos que buscam descarga, mas com uma prontidão inata para se relacionar. Desde o primeiro dia de vida, o bebê interage com o seio materno, e essa interação molda toda a estrutura da personalidade.
O CONCEITO DE OBJETO E O MUNDO INTERNO
Para compreender a teoria de Melanie Klein precisamos, antes de tudo, desfazer alguns equívocos em torno do termo “objeto”. Na psicanálise, o objeto não corresponde a algo material ou inerte, mas ao alvo das pulsões, aquilo para o qual a energia psíquica se dirige. Klein, porém, amplia radicalmente essa noção ao afirmar que o objeto não é apenas algo para o qual o sujeito se volta, mas uma presença viva dentro da mente. Desde os primeiros dias de vida, o bebê não se relaciona apenas com a mãe concreta, o corpo que o alimenta e acolhe, mas com a representação interna que ele forma dela. Essa imagem interna, o objeto interno, adquire consistência, autonomia e afeta profundamente a forma como o sujeito experimenta o mundo.
A formação desses objetos internos é guiada pela Fantasia Inconsciente, ou Phantasy, termo que Klein preserva em sua grafia original para distingui-lo do devaneio consciente. A fantasia kleiniana não é imaginação voluntária, mas a linguagem primária dos instintos, a forma como o psiquismo do bebê traduz suas sensações corporais em cenas internas. Quando sente fome, dor ou frustração, o bebê cria fantasias de ataque, atribuindo a um “objeto mau” a origem de seu desprazer. Quando está alimentado, aquecido e acolhido, fantasia um “objeto bom”, fonte de cuidado e proteção. Assim, desde o início da vida, o mundo interno se organiza em torno de experiências afetivas que ganham forma simbólica.
Esse Mundo Interno, na perspectiva kleiniana, não é um espaço abstrato, mas um universo povoado por objetos que interagem, se transformam e influenciam o funcionamento psíquico. A saúde mental depende da qualidade dessas relações internas: um mundo interno habitado por objetos bons, integrados e confiáveis favorece um ego mais coeso e resiliente; já um mundo interno dominado por objetos persecutórios, fragmentados ou ameaçadores tende a fragilizar o ego, predispondo o sujeito a estados de angústia intensa e, em casos extremos, a configurações psicóticas. O equilíbrio emocional, portanto, não é apenas uma questão de realidade externa, mas de como essa realidade é metabolizada e representada internamente.
A relação de objeto, nesse sentido, expressa a busca contínua do sujeito por segurança, continuidade e integração. O bebê, ainda incapaz de simbolizar de forma elaborada, recorre a mecanismos de defesa primitivos para lidar com o excesso de estímulos e emoções. Ele introjeta aquilo que percebe como bom, incorporando-o ao seu mundo interno, e projeta aquilo que vivencia como mau, expulsando-o para fora de si. Esse movimento constante de introjeção e projeção molda a estrutura psíquica e inaugura o processo de construção da identidade. Ao longo da vida, continuamos a nos constituir a partir das marcas deixadas pelos objetos internos: somos feitos das relações que nos atravessam, das figuras que amamos, tememos, idealizamos ou rejeitamos. A subjetividade, para Klein, é sempre um mosaico de vínculos, um campo vivo onde os objetos internos continuam a dialogar, influenciar e dar forma ao que chamamos de “eu”.
A POSIÇÃO ESQUIZO-PARANOIDE E A CINDIBILIDADE DO EGO
Klein introduziu o conceito de “posição” para substituir o antigo modelo de “fase”, propondo uma compreensão mais dinâmica e contínua do desenvolvimento psíquico. Enquanto uma fase é algo que se atravessa e se deixa para trás, uma posição descreve um modo de funcionamento emocional e relacional que permanece disponível ao longo de toda a vida. Trata-se de uma organização específica de ansiedades, fantasias e defesas que pode ser reativada sempre que o sujeito enfrenta situações de tensão ou ameaça interna. Assim, mesmo que determinada posição seja predominante em um período inicial do desenvolvimento, ela nunca desaparece por completo; continua operando como um padrão fundamental de experiência.
A primeira dessas posições é a Esquizo-Paranoide, predominante nos primeiros meses de vida. O termo “esquizo” refere-se ao mecanismo de cisão, a divisão radical entre aspectos bons e maus do objeto, enquanto “paranoide” aponta para a ansiedade central desse momento: o medo de ser atacado, invadido ou aniquilado por um objeto percebido como malévolo. É um período em que o bebê, ainda com um ego muito imaturo, não consegue integrar experiências contraditórias. Ele vive num mundo fragmentado, onde o que é bom e o que é mau não podem coexistir na mesma figura.
Nesse estágio inicial, o bebê não tem condições de compreender que a mãe que o alimenta e o acolhe é a mesma que, em outros momentos, demora, frustra ou se ausenta. Para lidar com essa impossibilidade de integrar experiências opostas, o ego recorre à cisão: o objeto é dividido em dois polos extremos. Surge, então, o “Seio Bom”, fonte de nutrição, calor e alívio, e o “Seio Mau”, sentido como frustrante, ameaçador e perseguidor. Essa divisão não é apenas cognitiva, mas profundamente emocional, estruturando a forma como o bebê percebe o mundo e a si mesmo.
Os mecanismos de defesa predominantes nessa posição são intensos e primitivos. A projeção permite ao bebê expulsar para fora de si a agressividade e a pulsão de morte, atribuindo-as ao objeto externo para evitar ser destruído por elas. A introjeção, por sua vez, funciona como uma tentativa de incorporar o objeto bom, guardando-o dentro de si como uma fonte interna de segurança e vitalidade. Já a identificação projetiva, um dos conceitos mais sofisticados de Klein, descreve o processo pelo qual o sujeito deposita partes de si no objeto, tentando controlá-lo, manipulá-lo ou atacá-lo a partir de dentro. Esses movimentos são vividos de forma concreta, como se fossem ações reais no mundo interno.
Dentro dessa organização psíquica, não há espaço para nuances. O mundo é percebido em termos absolutos, como se fosse dividido entre o totalmente bom e o totalmente mau. Trata-se de uma experiência emocional marcada pela urgência e pela necessidade de sobrevivência, em que a maior ameaça é a perseguição imaginada. No entanto, à medida que o desenvolvimento segue seu curso e as experiências de cuidado se tornam mais consistentes, o bebê começa a perceber que o objeto bom e o objeto mau são, na verdade, aspectos de uma mesma pessoa. Essa descoberta inaugura um movimento de integração que abre caminho para a posição seguinte, mais complexa e madura, na qual a ambivalência pode finalmente ser tolerada.
A POSIÇÃO DEPRESSIVA E A DESCOBERTA DA AMBIVALÊNCIA
A passagem para a Posição Depressiva, que costuma emergir por volta do segundo semestre de vida, representa um marco decisivo no amadurecimento emocional. Nesse momento, o ego, antes fragmentado e dominado por vivências parciais, torna-se mais coeso e capaz de perceber a mãe não mais como um conjunto de partes boas e más, mas como uma pessoa inteira, separada dele, com características ambivalentes. Essa conquista psíquica inaugura uma nova forma de relação com o mundo, mais complexa e profundamente humana.
O termo “depressiva” não diz respeito à depressão clínica, mas a um tipo particular de ansiedade: a ansiedade por objeto. O bebê começa a compreender que, ao atacar o “objeto mau” em suas fantasias primitivas, ele estava, na verdade, atacando o mesmo objeto que ama e do qual depende, a “mãe boa”. Essa percepção inaugura um sentimento de culpa ainda rudimentar, mas poderoso, acompanhado do temor de que sua agressividade interna possa ter danificado ou destruído o objeto amado. Trata-se de uma dor psíquica nova, que exige do bebê uma reorganização emocional profunda.
A partir dessa descoberta, o centro da experiência deixa de ser a autopreservação, o medo de ser aniquilado, e passa a ser a preocupação genuína com o outro, o medo de perder o objeto amado. É nesse ponto que surgem sentimentos mais elaborados, como o luto pela perda da idealização da mãe perfeita, a culpa pelo reconhecimento de que o próprio ódio pode ferir quem se ama e o impulso de reparação, que expressa o desejo de restaurar, proteger e cuidar do objeto percebido como vulnerável. Esses movimentos internos inauguram uma nova ética emocional, na qual amor e agressividade deixam de ser forças isoladas e passam a coexistir em tensão criativa.
A capacidade de reparar é considerada, dentro da teoria kleiniana, o ponto culminante do desenvolvimento emocional. Por meio de gestos simbólicos, como oferecer carinho, buscar proximidade ou criar algo novo, o bebê tenta compensar seus impulsos destrutivos com amor e cuidado. Essa dinâmica, que permanece ao longo da vida, é a base da criatividade, da sensibilidade estética e da empatia. É na tentativa de restaurar o objeto interno que surgem a imaginação, a capacidade de simbolizar e o impulso de construir em vez de destruir.
Quando a Posição Depressiva não é suficientemente integrada, o indivíduo tende a permanecer preso a um funcionamento mais primitivo, marcado pela cisão rígida entre “bom” e “mau”, pela desconfiança e pela dificuldade de reconhecer a complexidade das pessoas. A passagem por essa posição, portanto, não é apenas um estágio do desenvolvimento infantil, mas um processo contínuo que acompanha toda a vida psíquica. É ela que permite enxergar o outro como um ser humano completo, com falhas e virtudes, e que possibilita relações mais maduras, responsáveis e profundamente afetivas.
INVEJA E GRATIDÃO: AS FORÇAS PRIMORDIAIS
Na fase madura de sua obra, Melanie Klein apresentou um dos conceitos mais instigantes e transformadores da psicanálise: a ideia de Inveja Primária. Diferentemente do ciúme, que se organiza em torno de uma relação triangular marcada pelo medo de perder alguém para um rival, a inveja é um afeto direto, uma relação de dois polos, o sujeito e o objeto, em que o que está em jogo não é a perda, mas a impossibilidade de tolerar o bem que o outro possui. Essa distinção aparentemente simples revela uma profundidade clínica e teórica que atravessa toda a compreensão kleiniana do desenvolvimento emocional.
Para Klein, a inveja nasce como expressão da pulsão de morte, manifestando-se desde os primeiros momentos da vida psíquica. O bebê percebe no seio materno uma fonte inesgotável de nutrição, vida e prazer, um objeto idealizado que contém tudo aquilo que ele necessita. No entanto, quando a frustração surge, mesmo que minimamente, o bebê pode sentir que esse objeto retém para si um bem precioso que ele não controla. Incapaz de suportar essa dependência e essa sensação de desvantagem, ele fantasia atacar, estragar ou esvaziar o seio, numa tentativa de negar a superioridade do objeto e aliviar o sentimento de impotência. A inveja, portanto, não é apenas desejar o que o outro tem, mas querer destruir o bem que o outro representa.
Quando a inveja se torna excessiva, ela bloqueia a capacidade de gratidão. A gratidão, nesse contexto, não é apenas um sentimento moral ou social, mas uma conquista psíquica profunda. Ela surge quando o bebê consegue introjetar o objeto bom sem a necessidade de atacá-lo, reconhecendo que aquilo que recebe pode ser aceito, preservado e valorizado. Esse movimento interno permite que o sujeito construa uma base de confiança e benevolência, tanto em relação ao mundo quanto a si mesmo. A gratidão, assim, funciona como um contrapeso vital à destrutividade da inveja, abrindo espaço para experiências de amor, reparação e crescimento emocional.
Na vida adulta, as marcas dessa dinâmica primitiva continuam a se manifestar. Indivíduos dominados pela inveja tendem a viver o sucesso alheio como ameaça, sentem-se diminuídos diante das conquistas dos outros e frequentemente sabotam oportunidades de aprendizado ou colaboração, pois receber ajuda implica reconhecer um bem externo que não suportam integrar. Em contraste, aqueles que desenvolveram a capacidade de gratidão conseguem admirar o outro sem se sentir diminuídos, acolhem o que recebem e transformam essas experiências em recursos internos. A relação entre inveja e gratidão, portanto, não é apenas um tema teórico, mas um eixo fundamental que determina a qualidade das relações de objeto e a possibilidade de estabelecer vínculos estáveis, criativos e satisfatórios ao longo da vida.
A TÉCNICA DO BRINCAR E A ANÁLISE DE CRIANÇAS
Melanie Klein não foi apenas uma pensadora inovadora, mas uma clínica ousada, capaz de transformar profundamente a prática psicanalítica. Sua maior contribuição para o trabalho com crianças foi a elaboração da Técnica do Brincar, que redefiniu o modo como se compreende o acesso ao inconsciente infantil. Antes de Klein, predominava a ideia de que as crianças não poderiam ser analisadas como os adultos, já que não dominavam a associação livre verbal. Faltava-lhes, acreditava-se, a capacidade de expressar simbolicamente seus conflitos internos por meio da fala. Klein rompeu com essa limitação ao reconhecer que, para a criança, o brincar é a forma mais autêntica de comunicação psíquica.
Para ela, cada gesto realizado durante o jogo, o modo como a criança movimenta um boneco, organiza um cenário, destrói ou protege um objeto, desenha ou constrói, constitui uma linguagem simbólica tão rica quanto a fala adulta. O brincar revela fantasias inconscientes, medos, desejos, agressividades e vínculos afetivos que estruturam suas relações de objeto. Assim, o analista kleiniano, ao observar a criança em ação, não se limita a ver um simples entretenimento, mas acompanha uma narrativa emocional profunda, na qual se expressam conflitos internos e modos de lidar com a realidade.
Durante essa observação, o analista busca compreender a qualidade das relações que a criança estabelece com os brinquedos, percebendo se ela os cuida, os ataca, os abandona ou os idealiza. Também identifica quais figuras de autoridade aparecem no jogo e como se comportam, revelando representações internas de pais, cuidadores e outros personagens significativos. Além disso, observa a presença de ansiedades persecutórias, sentimentos de culpa, defesas primitivas e fantasias de reparação, elementos fundamentais para entender o funcionamento psíquico infantil.
A posição de Klein contrastava fortemente com a de Anna Freud, que defendia uma postura mais pedagógica e adaptativa do analista diante da criança. Klein, ao contrário, sustentava que a interpretação do inconsciente deveria ocorrer desde o início do tratamento, pois a criança, mesmo muito pequena, já estabelece transferência. Para ela, o analista torna-se, no imaginário infantil, o seio bom ou o seio mau, o pai protetor ou o perseguidor, e é justamente através dessas projeções que o trabalho analítico se desenvolve. A transferência, portanto, não é um fenômeno tardio, mas uma dinâmica constitutiva da relação terapêutica desde os primeiros encontros.
Essa perspectiva revolucionou a clínica infantil, permitindo que crianças com quadros graves, incluindo psicoses, fossem tratadas com maior profundidade. A Técnica do Brincar abriu caminho para a investigação das camadas mais primitivas da mente humana, revelando que o sofrimento psíquico não é exclusividade dos adultos. Klein demonstrou que intervenções precoces podem reorganizar o mundo interno da criança, favorecendo o desenvolvimento emocional e prevenindo a cristalização de patologias severas. Ao transformar o brincar em instrumento clínico, ela ampliou não apenas o campo da psicanálise, mas também a compreensão da infância como território complexo, rico e profundamente simbólico.
CONCLUSÃO
A obra de Melanie Klein marcou uma virada profunda na psicanálise ao deslocar o centro da experiência humana para o campo da interatividade emocional, das fantasias inconscientes e da presença constante dos objetos internos. Sua teoria nos convida a reconhecer que a vida psíquica não é um território isolado, mas um espaço povoado por figuras internas que dialogam, se chocam, se transformam e influenciam cada gesto, cada vínculo e cada modo de interpretar o mundo. Compreender a Relação Objetal, nesse sentido, é perceber que a solidão absoluta é uma ilusão: mesmo quando estamos fisicamente sós, convivemos com um repertório íntimo de vozes, imagens, memórias e afetos que estruturam nossa forma de existir.
Ao longo do desenvolvimento emocional, atravessamos movimentos que vão da cisão à integração, da angústia à reparação, da inveja destrutiva à gratidão que possibilita o amor. Klein descreve essa travessia como um processo contínuo, nunca totalmente concluído, no qual buscamos incessantemente restaurar, proteger e transformar nossos objetos internos. Essa dinâmica não é apenas um mecanismo psíquico, mas uma expressão da própria condição humana: somos seres que tentam, a cada experiência, reconstruir um senso de continuidade, de bondade possível, de confiança no outro e em si mesmos.
Assim, a perspectiva kleiniana ilumina a complexidade da nossa vida emocional e revela que a construção da humanidade não é um dado, mas uma tarefa permanente. Amar, reparar, integrar e simbolizar são movimentos que nos acompanham desde o início da vida e seguem moldando nossa capacidade de criar vínculos, de suportar perdas e de encontrar sentido. A contribuição de Klein, dessa forma, não apenas ampliou o campo da psicanálise, mas ofereceu uma lente sensível e profunda para compreender o drama e a beleza do existir humano.