O SEIO BOM e o SEIO MAU para a Psicanálise

Os conceitos de seio bom e seio mau constituem um dos pilares da psicanálise pós-freudiana, especificamente dentro da Escola Inglesa das Relações Objetais, desenvolvida por Melanie Klein. Diferente de Freud, que focava intensamente nas pulsões e no complexo de Édipo em uma fase mais tardia do desenvolvimento, Klein mergulhou no universo arcaico dos bebês, investigando como as primeiras interações moldam a psique humana para o resto da vida.

A gênese da cisão e a posição esquizoparanoide

Nos primeiros meses de vida, o ego do bebê ainda é extremamente frágil e imaturo. Ele não possui a capacidade cognitiva ou emocional para entender que a mãe é uma pessoa total, com desejos, defeitos e uma vida própria. Para o bebê, o mundo é composto por "objetos parciais". O primeiro e mais importante desses objetos é o seio materno.

Nesta fase, que Klein denominou posição esquizoparanoide, o mecanismo de defesa predominante é a cisão (ou splitting). A cisão funciona como uma ferramenta de sobrevivência psíquica: o bebê separa drasticamente as experiências de prazer das experiências de dor.

  • O Seio Bom: É a personificação da gratificação. Quando o bebê está com fome e o seio aparece prontamente, oferecendo leite, calor e conforto, ele experiencia esse objeto como "bom". Na fantasia do bebê, o seio bom é amoroso, onipotente e protetor. Ele é incorporado (introjetado) para formar o núcleo de um ego saudável e seguro.
  • O Seio Mau: É a personificação da frustração. Se o bebê sente fome e o seio demora a chegar, ou se ele sente cólica e desconforto, ele não entende isso como uma contingência biológica. Para o bebê, o seio "se retirou" de propósito ou tornou-se um perseguidor. Ele é sentido como um objeto hostil que o ataca por dentro.

Essa divisão não é uma escolha consciente, mas uma necessidade: ao separar o "bom" do "mau", o bebê protege a sua percepção de amor e bondade de ser "contaminada" ou destruída pelo seu próprio ódio e agressividade despertados pela frustração.

A dinâmica entre pulsão de vida e pulsão de morte

A teoria de Klein é profundamente enraizada no conceito freudiano de dualidade pulsional. Desde o nascimento, o ser humano lida com a tensão entre a pulsão de vida (Eros) e a pulsão de morte (Thanatos).

O seio bom torna-se o receptáculo das pulsões de vida do bebê. Ao projetar seu amor e desejo de preservação no seio, o bebê cria um porto seguro interno. Por outro lado, a pulsão de morte, que se manifesta como uma ansiedade de aniquilação, é projetada para fora para aliviar a tensão interna. Assim, o seio torna-se "mau" porque o bebê projetou nele a sua própria agressividade original.

Essa projeção cria o que chamamos de ansiedade paranoide. O bebê teme que o seio mau (que agora carrega a sua própria raiva projetada) retorne para atacá-lo, destruí-lo ou envenená-lo. É um ciclo constante de projeção e introjeção:

  • O bebê sente ódio pela frustração.
  • Projeta esse ódio no seio (o seio torna-se mau).
  • Sente medo do seio mau (ansiedade de perseguição).
  • Busca desesperadamente o seio bom para se proteger.

Essa espécie de "batalha épica" entre o bom e o mau ocorre inteiramente no nível da fantasia, mas as suas consequências são reais para a formação da personalidade e para a capacidade futura de confiar nos outros.

Inveja e Gratidão: As forças que moldam o objeto

Dentro da relação com o seio, Klein introduz dois afetos fundamentais que determinam a qualidade da saúde mental: a inveja e a gratidão.

A gratidão está intrinsecamente ligada ao seio bom. Quando o bebê consegue introjetar com sucesso as experiências de satisfação, ele desenvolve um sentimento de que o mundo é essencialmente bom. A gratidão é o que permite ao indivíduo apreciar a beleza, aceitar ajuda e nutrir relacionamentos saudáveis na vida adulta. É o antídoto para o desespero.

A inveja, por outro lado, é um dos sentimentos mais primitivos e destrutivos descritos pela psicanálise. Enquanto o ciúme requer três pessoas (eu quero o que o outro tem para aquela terceira pessoa), a inveja kleiniana ocorre na relação diádica (eu e o seio). O bebê invejoso não quer apenas o leite; ele se ressente de que o seio possua o leite e o poder de dá-lo ou retê-lo.

A inveja ataca o seio bom. Na mente do bebê invejoso, a bondade do seio é insuportável porque o faz sentir-se pequeno e dependente. Então, ele tenta "estragar" o objeto bom, tornando-o mau através de ataques fantasiosos (como morder ou "sujar" o seio com excrementos mentais). Se a inveja for muito intensa, ela impede que o bebê construa um objeto bom interno, pois tudo o que é bom acaba sendo atacado e destruído, levando a uma sensação crônica de vazio e amargura.

A transição para a posição depressiva e a integração

Conforme o sistema nervoso do bebê amadurece e as experiências repetidas de cuidado mostram que a mãe sobrevive aos seus ataques, ocorre uma mudança crucial: a transição para a posição depressiva.

Neste estágio, a cisão começa a diminuir. O bebê começa a perceber, com um misto de choque e tristeza, que o seio que ele amava (o seio bom) e o seio que ele odiava e tentava destruir (o seio mau) são, na verdade, o mesmo objeto: a mãe como uma pessoa total.

Essa percepção traz um novo tipo de ansiedade, não mais paranoide (medo de ser atacado), mas depressiva: "Eu machuquei quem eu amo?". O bebê sente culpa e um profundo desejo de reparação. Ele quer "consertar" o objeto que danificou em sua fantasia.

A integração do seio bom e do seio mau é o que permite a ambivalência. Na vida adulta, isso se traduz na capacidade de entender que as pessoas que amamos não são perfeitas. Elas podem nos frustrar (ser "más" momentaneamente) sem deixar de ser amadas (ser "boas" essencialmente). Sem essa integração, o indivíduo permanece preso em um funcionamento maniqueísta, onde as pessoas são ou anjos ou demônios, sem meio-termo.

Reflexos do seio bom e mau na clínica e na vida adulta

Embora esses conceitos nasçam na infância, eles ecoam em todas as nossas relações futuras. O "seio" torna-se um símbolo para qualquer fonte de nutrição, seja ela emocional, intelectual ou profissional.

  • Relacionamentos Amorosos: Uma pessoa que não integrou bem os objetos bons e maus pode passar pela vida "idealizando" parceiros (seio bom) para depois "desvalorizá-los" cruelmente (seio mau) ao primeiro sinal de falha. É o fenômeno do "amor ao ódio" em segundos.
  • Vida Profissional: O chefe ou a empresa podem ser vistos como provedores onipotentes que devem satisfazer todas as necessidades. Quando a frustração ocorre (um aumento negado, um feedback negativo), o objeto é imediatamente atacado e visto como um perseguidor maligno.
  • A Própria Imagem: A capacidade de cuidar de si mesmo depende de quanto do "seio bom" foi introjetado. Aqueles que possuem um bom objeto interno conseguem se acalmar em momentos de crise, pois possuem uma reserva de bondade interna. Aqueles que vivem sob o domínio do "seio mau" são frequentemente autocríticos ao extremo e sentem que não merecem coisas boas.

A psicoterapia, sob essa ótica, busca ajudar o paciente a reconhecer suas projeções e a integrar seus sentimentos agressivos e amorosos. Ao aceitar que o "seio" (o outro, o mundo, a si mesmo) pode ser imperfeito e ainda assim valioso, o indivíduo conquista a maturidade emocional e a capacidade de amar verdadeiramente.

Sugestão de leitura sobre essa temática

Obras completas de Melanie Klein: Box 1:Amor, culpa e reparação (1921-45) e Inveja e gratidão e outros ensaios (1946-63) / Box 2: A psicanálise de ... e Narrativa da análise de uma criança (1961)

Melanie Klein

Volume 1 Amor, culpa e reparação traz textos escritos entre 1921 e 1945, do período inicial do trabalho da autora, em que se testemunha a evolução de seu pensamento, desde o gradual descolamento da psicanálise freudiana clássica até a elaboração original do conceito de “posição depressiva”, ligado ao momento de amadurecimento emocional de um indivíduo, que marca a criação de uma nova teoria do desenvolvimento psíquico. Volume 2 Com textos escritos entre 1946 e 1963, Inveja e gratidão e outros ensaios atesta a força conceitual e a capacidade de inovação da autora, com artigos de grande influência. Aqui se desenvolve a ideia da chamada “posição esquizoparanoide”, um estado em que o ego incipiente e fragmentário do bebê é incapaz de integrar a experiência de si e do mundo, dividindo o entorno (o seio da mãe) binariamente entre bom e mau.

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