O que é AB-REAÇÃO para a Psicanálise?
A psicanálise, desde os seus alicerces com Sigmund Freud e Josef Breuer, buscou decifrar os mistérios da mente humana e os mecanismos que levam ao sofrimento psíquico. Um dos conceitos fundamentais que derivou desse período inicial, e que serviu de alicerce para a compreensão da cura pelo diálogo, é a ab-reação. Embora o termo tenha perdido parte de seu protagonismo técnico à medida que Freud desenvolveu a técnica da livre associação e o conceito de transferência, a ab-reação permanece como uma peça-chave para entender como o afeto e a memória se entrelaçam na formação dos sintomas neuróticos.
Para compreender a ab-reação, é preciso partir de uma perspectiva em que a mente é entendida não apenas como um repositório de fatos, mas como um sistema dinâmico de energias. Em termos simples, a ab-reação é a descarga emocional pela qual um sujeito se liberta do afeto ligado à recordação de um trauma antigo. É o momento em que a "estrangulação" do afeto é desfeita, permitindo que a energia psíquica acumulada flua e, consequentemente, o sintoma desapareça.
A Gênese do Conceito no Método Catártico
A história da ab-reação confunde-se com o nascimento da própria psicanálise. No final do século XIX, Freud e seu mentor, Josef Breuer, trabalhavam com pacientes diagnosticados com "histeria". O caso paradigmático de Anna O. revelou algo extraordinário: quando a paciente era levada, sob hipnose, a recordar a origem exata de um sintoma e a expressar as emoções que sentira naquele momento original, o sintoma desaparecia.
Nesse contexto, os autores formularam a hipótese de que o trauma não é apenas um evento externo, mas uma experiência que não pôde ser devidamente processada. Quando um evento impactante ocorre e o indivíduo, por razões diversas (seja pela natureza do evento ou pelo contexto social), não consegue reagir a ele de forma adequada, seja pelo choro, pela vingança, pelo grito ou pela fala, o afeto que deveria ter sido descarregado fica "preso".
A esse fenômeno, Freud e Breuer deram o nome de afeto estrangulado. A memória do evento permanece no inconsciente como um "corpo estranho" que continua a exercer pressão sobre o sistema psíquico. A ab-reação surge, portanto, como o processo terapêutico de reviver esse trauma, não apenas intelectualmente, mas emocionalmente, permitindo que a "ferida" psíquica finalmente cicatrize através da expressão.
O Mecanismo da Descarga Emocional e a Homeostase Psíquica
Para entender por que a ab-reação é necessária, Freud recorreu a um modelo econômico da mente. Segundo esse modelo, o aparelho psíquico tende a manter a quantidade de excitação interna no nível mais baixo possível ou, pelo menos, constante. Este é o princípio da constância. Quando ocorre um evento traumático, há um aumento súbito e violento de excitação.
Em condições normais, o indivíduo reage. Essa reação pode ser motora (fugir, lutar) ou verbal (reclamar, desabafar). Essa resposta serve como uma válvula de escape que devolve o sistema ao equilíbrio. No entanto, na neurose, essa descarga é impedida. O indivíduo "engole" o sentimento. O afeto, impedido de seguir seu caminho natural para a consciência e para a ação, acaba se convertendo em um sintoma físico ou em uma obsessão mental.
A ab-reação funciona como uma correção tardia. Ao trazer a lembrança de volta à consciência com a mesma intensidade emocional do momento original, o paciente consegue "liquidar" o afeto. É como se a mente finalmente completasse uma tarefa que ficou pendente por anos. Sem a carga emocional, a lembrança perde seu poder patogênico. Ela deixa de ser um trauma ativo e passa a ser apenas uma memória histórica, integrada à narrativa de vida do sujeito, sem a capacidade de gerar sintomas.
A Linguagem como Ferramenta de Ab-reação
Embora a ab-reação possa ocorrer através de atos físicos ou expressões emocionais puras, como o choro convulsivo, a psicanálise descobriu que a fala é a forma mais refinada e eficaz de ab-reação. Freud notou que o homem encontrou na palavra um substituto para a ação. "O homem que primeiro lançou uma palavra ofensiva contra seu inimigo, em vez de uma flecha, foi o fundador da civilização", citava ele.
No cenário terapêutico, a fala não é apenas um relato de fatos. Para que haja ab-reação, a fala deve ser investida de afeto. Não basta o paciente dizer: "Sim, eu fiquei triste quando aquilo aconteceu". Ele precisa sentir a tristeza novamente enquanto fala. A palavra atua como um trilho por onde o afeto estrangulado pode finalmente caminhar para fora do sistema.
Essa transição da hipnose para a "cura pela fala" (talking cure) marcou a evolução da técnica. Freud percebeu que a ab-reação produzida artificialmente sob hipnose era muitas vezes temporária, pois não integrava a experiência ao ego consciente do paciente. Ao utilizar a associação livre, a ab-reação passou a ser um processo mais gradual, onde o afeto era liberado à medida que as resistências eram superadas, permitindo uma reestruturação psíquica mais profunda e duradoura.
Diferença entre Ab-reação Espontânea e Terapêutica
É importante notar que a ab-reação não ocorre exclusivamente dentro do consultório do analista. Ela é um processo psíquico natural. Diante de uma perda, o processo de luto é, em si, uma forma de ab-reação prolongada e massiva. O sujeito chora, fala sobre o ente querido e revive memórias até que a carga de dor se torne suportável e o interesse pela vida retorne.
A ab-reação espontânea ocorre logo após o evento. No entanto, quando o ego se sente ameaçado pela intensidade do afeto (por exemplo, em casos de abuso, vergonha extrema ou culpa insuportável), ele utiliza mecanismos de defesa, como o recalque, para enterrar a experiência. É aqui que entra a necessidade da ab-reação terapêutica.
Na terapia, o ambiente seguro e a presença do analista oferecem o suporte necessário para que o paciente se sinta capaz de enfrentar o que antes era insuportável. A ab-reação dirigida busca desfazer o recalque. O analista auxilia o paciente a conectar o sintoma atual (como uma fobia ou uma paralisia histérica) ao evento esquecido, facilitando o fluxo emocional que foi bloqueado no passado. Sem esse "trabalho de recordação", o afeto permanece como uma energia fantasma, assombrando o presente do indivíduo.
A Evolução do Conceito e o Papel da Elaboração
Com o amadurecimento da teoria freudiana, o conceito de ab-reação foi gradualmente sendo complementado, e em certos aspectos substituído, pelo conceito de elaboração (Durcharbeiten). Freud percebeu que apenas "descarregar" a emoção (o chamado "efeito chaminé") nem sempre era suficiente para uma cura definitiva, especialmente em estruturas neuróticas mais complexas.
Enquanto a ab-reação é um evento quase explosivo e pontual de descarga, a elaboração é um processo lento de integração. A ab-reação libera a energia, mas a elaboração permite que o sujeito entenda o porquê de ter reagido daquela forma, quais desejos inconscientes estavam em jogo e como aquele padrão se repete em sua vida atual.
Ainda assim, a ab-reação continua fundamental. Não há elaboração real sem que, em algum momento, o afeto seja sentido. Uma análise puramente intelectual, onde o paciente "sabe" tudo sobre seu trauma mas não "sente" nada, é frequentemente estéril. A ab-reação garante que a verdade do inconsciente não seja apenas uma informação teórica, mas uma experiência vivida. Ela é o motor que valida a descoberta psicanalítica, transformando o "conhecer" em "reconhecer-se".
A ab-reação representa a libertação do passado que insiste em se fazer presente através do sofrimento. É o ato de dar voz ao que foi calado e movimento ao que foi paralisado, permitindo que o sujeito deixe de ser refém de suas memórias traumáticas para se tornar o narrador consciente de sua própria história.
Referências
FREUD, Sigmund; BREUER, Josef. Sobre o mecanismo psíquico dos fenômenos histéricos: comunicação preliminar (1893). In: Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Tradução sob a supervisão de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1974. v. 2, p. 41-59.
FREUD, Sigmund; BREUER, Josef. Estudos sobre a histeria (1895). In: Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Tradução sob a supervisão de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1974, v. 2.
FREUD, Sigmund (1894). As neuropsicoses de defesa. In: FREUD, Sigmund. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Tradução sob a supervisão de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1974. v. 3, p. 57-82.
FREUD, Sigmund. Recordar, repetir e elaborar (Novas recomendações sobre a técnica da psicanálise II) (1914). In: Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996. v. 12, p. 191-203.
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