Por Blatterhin - Obra do próprio, CC BY-SA 3.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=20893841
Para Jacques Lacan, o Imaginário é um dos três registros fundamentais da experiência humana, formando o famoso nó borromeano junto ao Simbólico e ao Real. Embora a palavra "imaginário" sugira algo fictício ou "coisa da imaginação" no senso comum, para a psicanálise ela designa uma dimensão estrutural e necessária: o campo das imagens, das identificações e, acima de tudo, da formação do Eu (Moi).
Entender o Imaginário é compreender como o ser humano constrói uma identidade baseada em ilusões de completude e como nos relacionamos com os outros através de projeções e espelhamentos.
O Estádio do Espelho: O Berço do Imaginário
A base do registro Imaginário é o conceito do Estádio do Espelho, desenvolvido por Lacan entre as décadas de 1930 e 1940. Para Lacan, o bebê humano nasce em um estado de prematuração biológica: ele não tem controle sobre seus movimentos e sente seu corpo como algo "fragmentado".
Entre os 6 e 18 meses, ocorre um evento crucial: a criança se reconhece no espelho (ou no olhar do outro). Ao ver sua imagem refletida, ela antecipa uma unidade corporal que ainda não possui. Essa imagem é total, coordenada e bela, contrastando com a realidade de sua descoordenação motora.
A criança se identifica com essa imagem. Esse momento de júbilo marca o nascimento do Eu. No entanto, Lacan aponta que essa identidade nasce de uma alienação: o sujeito se reconhece em algo que está fora dele (a imagem). O Eu é, portanto, uma construção externa, uma "capa" que esconde a fragmentação real do sujeito.
A Natureza do Eu (Moi) vs. Sujeito (S)
É fundamental distinguir, na teoria lacaniana, o Eu (Moi) do Sujeito (Je).
O Eu (Moi): Pertence ao Imaginário. É uma função de desconhecimento. Ele serve para dar ao indivíduo uma sensação de consistência e permanência. O Eu é como uma armadura: protege, mas também aprisiona.
O Sujeito (Je): É o sujeito do inconsciente, que emerge através da linguagem (Simbólico).
No Imaginário, o Eu tenta ignorar as contradições, os lapsos e os desejos inconscientes para manter a ilusão de que "eu sou senhor da minha própria casa". Para Lacan, o Eu é uma construção defensiva.
O Relacionamento com o Semelhante: O Pequeno Outro
O Imaginário também rege a forma como interagimos com as outras pessoas no dia a dia. Lacan chama o outro semelhante (o próximo, o par) de pequeno outro (a).
Como o nosso Eu foi formado a partir de uma imagem externa, tendemos a ver os outros como espelhos. Isso gera dois movimentos principais:
Identificação: Queremos ser como o outro, ou possuir o que o outro possui, para reforçar nossa própria imagem.
Rivalidade: Como o outro é um espelho, ele também é uma ameaça. Se o outro tem algo que me completa, eu sinto que ele me "roubou" essa parte. O registro imaginário é, por excelência, o campo do "ou eu, ou ele". É a base do narcisismo e das paixões de amor e ódio.
A Função de Desconhecimento e a Ilusão de Totalidade
Uma das características marcantes do Imaginário é a busca pela Gestalt, a forma perfeita. O ser humano tem horror ao vazio e à falta. Por isso, o registro Imaginário "preenche os buracos" da realidade com imagens satisfatórias.
Na vida cotidiana, o Imaginário se manifesta na nossa necessidade de entender tudo, de dar sentido a tudo e de ver o mundo de forma coerente. Quando nos apaixonamos, por exemplo, operamos fortemente no Imaginário: "completamos" a imagem do parceiro com aquilo que desejamos ver, ignorando suas falhas. É a ilusão da "alma gêmea", onde dois se tornariam um (uma unidade imaginária).
O Imaginário na Clínica Psicanalítica
Muitos pacientes buscam a análise querendo fortalecer seu "Eu", buscando dicas de como ter mais autoestima ou como serem mais "completos". Isso, para Lacan, seria reforçar o Imaginário, ou seja, reforçar a alienação.
O papel do analista não é ser um espelho para o paciente (o que seria uma relação imaginária de "eu para eu"), mas sim quebrar essa espelharização. O analista deve se posicionar como o Grande Outro (Simbólico), permitindo que o paciente saia da fixação em sua própria imagem e comece a ouvir o que sua fala revela sobre seu desejo inconsciente.
Se a análise ficasse apenas no Imaginário, ela seria uma "conversa de bar", onde um se identifica com o sofrimento do outro. A análise busca atravessar essa barreira das imagens para chegar à verdade do sujeito.
A Relação com o Simbólico e o Real
Embora o Imaginário receba muitas críticas por ser o campo da alienação, Lacan deixa claro que ele é indispensável. Sem o registro Imaginário:
Não teríamos uma noção de corpo.
Não conseguiríamos nos situar no espaço.
Não teríamos empatia básica (que depende da identificação com o semelhante).
O problema ocorre quando o sujeito fica cativado pela imagem (como Narciso, que morre ao contemplar-se). O equilíbrio psíquico depende de o Simbólico (as leis, a palavra) vir dar limites e organizar esse caos de imagens.
Conclusão
O Imaginário de Jacques Lacan nos ensina que o "Eu" não é o centro da nossa psique, mas sim uma construção feita de reflexos e capturas visuais. Somos seres que se buscam no olhar do outro, tentando desesperadamente colar os pedaços de uma identidade que, no fundo, é sempre estrangeira. Compreender o Imaginário é aceitar que muito do que chamamos de "nossa personalidade" é, na verdade, uma coleção de imagens com as quais nos vestimos para enfrentar o mundo.
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