Como Ocorre a Formação em Psicanálise: o guia completo sobre o Tripé Psicanalítico

Por ROBERT HUFFSTUTTER - https://www.flickr.com/photos/huffstutterrobertl/6888951554/in/photolist-buKFhN-bHF4bn-bJi1KD, CC BY 2.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=54850550

A formação em psicanálise é um percurso único no campo do saber e da prática clínica. Diferente de outras especializações acadêmicas ou profissionais, ela não se encerra em um diploma universitário convencional, mas se sustenta no que chamamos de Tripé Psicanalítico.

Este modelo de formação foi estabelecido por Sigmund Freud e consolidado pelas instituições psicanalíticas ao longo do século XX. Ele pressupõe que, para se tornar um analista, o sujeito deve percorrer três caminhos simultâneos e interdependentes: o estudo teórico rigoroso, a análise pessoal e a supervisão clínica.

O Pilar Teórico: A Transmissão do Saber

O primeiro contato de muitos com a psicanálise ocorre através dos livros. No entanto, na formação formal, o estudo teórico não é apenas uma leitura passiva, mas uma transmissão.

A Base Freudiana

Toda formação começa necessariamente por Sigmund Freud. O aluno percorre a evolução do pensamento freudiano, desde os "Estudos sobre a Histeria" até a virada teórica de 1920, com a introdução da pulsão de morte e a segunda tópica (Id, Ego e Superego). Compreender os conceitos fundamentais, como inconsciente, recalque, transferência, resistência e complexo de Édipo, é o alicerce para qualquer prática.

A Pluralidade das Escolas

Após a base freudiana, a formação geralmente se expande para as grandes linhagens que interpretaram e avançaram a obra original:

  • Melanie Klein: Focada nas fantasias inconscientes primitivas e nas relações objetais precoces.

  • Donald Winnicott: Que introduziu conceitos como o "ambiente holding" e o "objeto transicional".

  • Jacques Lacan: Que propôs o "retorno a Freud" através da linguística, estruturando o inconsciente como uma linguagem.

  • Wilfred Bion: Com suas contribuições sobre o pensamento e a psicose.

O objetivo do estudo teórico não é a memorização de conceitos, mas a construção de um instrumental clínico que permita ao analista escutar o que está "além" das palavras do paciente.

A Análise Pessoal: O Eixo Central

Muitos autores e instituições concordam que a análise pessoal é o pilar mais importante da formação. Sem ela, os outros dois pilares perdem sua sustentação ética.

Por que o analista precisa se analisar?

A psicanálise trabalha com a transferência. Isso significa que o paciente projetará no analista figuras de sua história pessoal (pai, mãe, irmãos). Se o analista não tiver clareza sobre seus próprios conflitos, traumas e "pontos cegos", ele corre o risco de misturar suas questões com as do paciente, fenômeno conhecido como contratransferência não trabalhada.

A Experiência do Inconsciente

Não se aprende sobre o inconsciente apenas em livros. O futuro analista precisa "sentir na pele" como o inconsciente opera: através de seus próprios sonhos, atos falhos e sintomas. Ao ocupar o lugar de analisante (o paciente), ele aprende a humildade necessária para a clínica e compreende a resistência que o sujeito oferece à cura.

A análise pessoal não tem um tempo determinado. Ela dura o quanto for necessário para que o sujeito possa sustentar o desejo de ser analista e não utilize o paciente para satisfazer suas próprias carências neuróticas.

A Supervisão Clínica: A Prática Orientada

O terceiro pilar começa quando o aspirante a analista inicia seus primeiros atendimentos. A supervisão é o momento em que ele leva o relato de suas sessões para um analista mais experiente (o supervisor).

O Papel do Supervisor

O supervisor não atua como um professor que corrige provas, mas como alguém que ajuda a identificar onde a escuta do iniciante está falhando. Muitas vezes, o aluno fica "preso" na história contada pelo paciente e não consegue ouvir o que está nas entrelinhas. O supervisor auxilia a:

  1. Identificar a estrutura clínica (neurose, psicose ou perversão).

  2. Manejar a transferência e a resistência.

  3. Decidir o momento certo de fazer uma intervenção ou interpretação.

A Ética da Supervisão

A supervisão garante que o paciente receba um tratamento ético e seguro, mesmo que o analista seja um iniciante. É um espaço de humildade e aprendizado contínuo, onde o analista em formação pode admitir suas dificuldades e medos sem o julgamento acadêmico tradicional.

A Articulação do Tripé e a "Autorização"

A formação em psicanálise não se dá de forma linear. Esses três elementos se retroalimentam constantemente: a teoria ilumina a prática; a análise pessoal limpa a escuta; e a supervisão conecta a teoria à realidade do consultório.

Diferente da medicina ou do direito, onde o Estado concede o direito de exercer a profissão, na psicanálise vigora o princípio de que "o analista se autoriza por si mesmo, e por alguns outros" (frase célebre de Lacan).

  • "Por si mesmo": Refere-se à decisão íntima e ao desejo do sujeito em ocupar esse lugar, após ter percorrido sua própria análise.

  • "Por alguns outros": Refere-se ao reconhecimento de seus pares e da instituição onde se formou.

O Percurso Institucional vs. Formação Livre

Existem dois caminhos principais para quem deseja se formar:

1. Sociedades Filiadas à IPA (International Psychoanalytical Association)

As instituições fundadas sob a égide de Freud e Jones possuem critérios muito rígidos. Geralmente exigem que o candidato já tenha formação em Psicologia ou Medicina, e o processo seletivo é rigoroso. A formação dura de 4 a 8 anos, com exigências específicas de horas de análise e supervisão.

2. Escolas e Movimentos de Orientação Lacaniana ou Independente

Muitas escolas aceitam profissionais de diversas áreas (filósofos, historiadores, pedagogos), entendendo que a psicanálise é um saber laico. O foco recai mais sobre o percurso subjetivo do aluno e sua implicação no estudo do que sobre pré-requisitos acadêmicos externos.

Desafios e Ética na Formação Atual

No cenário contemporâneo, a formação em psicanálise enfrenta desafios como a "comoditização" do ensino. Cursos rápidos de final de semana prometem títulos de "psicanalista", o que fere gravemente o princípio do tripé.

A formação verdadeira é longa e exige um alto investimento emocional e financeiro. É impossível formar um analista em um ano, pois o tempo da teoria não é o tempo do inconsciente. A maturação necessária para suportar o sofrimento psíquico do outro exige anos de debruçamento sobre a própria alma.

A Formação Permanente

Um ponto crucial: a formação do analista nunca termina. Mesmo após ser reconhecido por uma instituição, o analista continua em análise, continua estudando e, frequentemente, mantém grupos de intervisão ou supervisão. O inconsciente é um campo vasto e sempre novo; por isso, o analista deve manter uma posição de eterno aprendiz.

Conclusão

Formar-se em psicanálise é, acima de tudo, uma jornada de transformação pessoal. Não se trata de adquirir um conjunto de técnicas para "consertar" pessoas, mas de desenvolver a capacidade de sustentar um espaço onde o outro possa falar de sua verdade mais profunda.

O tripé — Teoria, Análise e Supervisão — não é apenas uma exigência burocrática, mas uma salvaguarda ética. Ele garante que o analista tenha o saber necessário, a saúde emocional para não prejudicar o paciente e o amparo técnico para conduzir os casos mais complexos. É um caminho de renúncias, mas também de profunda descoberta sobre a natureza humana e os mistérios do desejo.

Sugestão de leitura sobre essa temática

Um Estudo Autobiográfico, Inibições, Sintomas e Ansiedade, Análise Leiga e Outros Trabalhos (1925-1926)

Sigmund Freud

Os primeiros volumes, em edição encadernada, foram publicados no início da década de 70, e o último volume da obra, foi publicado em 1980. O texto da coleção atual é considerado como sendo a primeira edição, já que a maior parte das traduções ainda é resultado direto da conversão do texto da edição inglesa da obra de Freud para a língua portuguesa.Em comemoração aos 150 anos de aniversário de Freud nossa Editora lançou a versão em brochura da Edição Stantard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, tornando o seu conteúdo admirável acessível a todos.

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