O que é a CENA PRIMITIVA para a Psicanálise?

O conceito de cena primitiva (Urszene, em alemão) é um dos marcos fundamentais da teoria psicanalítica, representando um ponto de inflexão na compreensão do desenvolvimento psíquico, da fantasia e da etiologia das neuroses. Introduzido por Sigmund Freud, o termo refere-se à observação (real ou imaginária) do ato sexual entre os pais por parte da criança, e a forma como essa experiência é processada e significada no inconsciente.

Diferente de um simples evento traumático isolado, a cena primitiva é uma estrutura complexa que envolve percepção, incompreensão, angústia e a tentativa infantil de teorizar sobre a origem da vida.



A Origem do Conceito: O Homem dos Lobos

Embora Freud já tivessem tangenciado o tema anteriormente, a cena primitiva ganha sua formulação mais robusta no famoso caso clínico de Sergei Pankejeff, conhecido como "O Homem dos Lobos" (1918). Durante o tratamento, Freud reconstrói uma memória de quando o paciente tinha um ano e meio de idade: ele teria acordado de uma sesta e testemunhado seus pais mantendo relações sexuais em uma posição específica (coitus a tergo).

O impacto dessa cena não foi imediato, mas sim diferido (Nachträglichkeit). Anos depois, ao ver uma ilustração de lobos ou ao ouvir histórias sobre animais, o conteúdo daquela cena "esquecida" retornou sob a forma de um pesadelo aterrorizante e uma fobia de lobos. Freud utilizou esse caso para demonstrar que a cena primitiva funciona como um núcleo traumático que organiza a vida pulsional do sujeito.

O Olhar da Criança: Excitação e Violência

Para a criança pequena, o ato sexual dos pais não é compreendido como uma expressão de amor ou prazer compartilhado. Devido à imaturidade do seu aparelho psíquico e à falta de conhecimento sobre a reprodução, a criança interpreta a cena através de uma teoria sexual infantil sádica.

  • A Interpretação da Violência: O barulho, a respiração ofegante e os movimentos rítmicos são frequentemente percebidos como uma luta ou uma agressão do pai contra a mãe. A criança sente-se angustiada por acreditar que a mãe está sendo ferida.
  • Excitação Sexual Precoce: Ao mesmo tempo em que sente medo, a criança experimenta uma estimulação sexual que seu corpo ainda não consegue processar. Essa "tensão" sem descarga gera um estado de desamparo e ansiedade.
  • A Exclusão: A cena primitiva marca a primeira grande experiência de exclusão do sujeito. Ele percebe que existe um vínculo entre os pais do qual ele não faz parte, o que alimenta o complexo de Édipo e o sentimento de ciúme.

Realidade vs. Fantasia: As Fantasias Originárias

Uma das discussões mais ricas na psicanálise é se a cena primitiva precisa ter acontecido de fato. Freud inicialmente acreditava na realidade do evento, mas evoluiu para compreender que ela pode ser uma fantasia originária (Urphantasie).

Mesmo que a criança nunca tenha visto os pais em ato, ela pode construir essa cena a partir de indícios: ruídos ouvidos através da parede, conversas sussurradas ou a simples percepção de que algo acontece entre o casal "a portas fechadas". Segundo Freud, a cena primitiva faz parte de um patrimônio filogenético da humanidade, esquemas inatos que ajudam a criança a organizar o mistério da sua própria origem.

Portanto, para o analista, não importa tanto se a cena foi "real" no sentido histórico, mas sim a sua realidade psíquica. O efeito traumático e estruturante é o mesmo.

O Impacto na Estrutura da Personalidade

A forma como o sujeito integra a cena primitiva influencia profundamente sua vida adulta, especialmente no que diz respeito à sexualidade e aos vínculos amorosos.

A Curiosidade e o Desejo de Saber

A cena primitiva é o motor da pulsão epistemofílica (o desejo de conhecer). A criança quer decifrar o enigma do que os pais fazem. Se essa curiosidade for severamente reprimida, o sujeito pode desenvolver inibições intelectuais. Por outro lado, pode gerar uma busca incessante por "verdades ocultas" ou comportamentos de voyeurismo.

A Identificação e o Posicionamento Edípico

Durante a observação (ou fantasia) da cena, a criança oscila em suas identificações:

  • Pode identificar-se com o pai ativo/agressor.

  • Pode identificar-se com a mãe passiva/vítima.

    Essas identificações cruzadas são fundamentais para a constituição da bissexualidade psíquica e para a escolha do objeto de amor no futuro.

Angústia de Castração

Ao ver a diferença entre os sexos (que muitas vezes ocorre simultaneamente à cena primitiva), a criança confronta-se com a ideia de falta ou perda. O ato sexual, percebido como violento, reforça o medo da castração como punição pelo desejo proibido.

A Cena Primitiva na Clínica Contemporânea

Na prática clínica atual, a cena primitiva raramente aparece como um relato direto ("eu vi meus pais"). Ela surge nas entrelinhas:

  • Em pacientes que sentem que estão sempre sendo "excluídos" de grupos.

  • Em fantasias de traição ou triângulos amorosos obsessivos.

  • No medo da intimidade, onde o sexo é visto inconscientemente como algo sujo, perigoso ou agressivo.

O trabalho da análise consiste em ajudar o paciente a resignificar essa cena. Trata-se de passar de uma posição de testemunha impotente e aterrorizada para a de um sujeito que pode integrar a sexualidade dos pais como algo legítimo e separado dele, permitindo que ele viva sua própria sexualidade de forma livre.

Resumo das Dimensões da Cena Primitiva

DimensãoSignificado Psicanalítico
EconômicaInundação do ego por uma excitação sexual que não pode ser ligada ou descarregada.
TopográficaConteúdo que é prontamente recalcado, tornando-se um núcleo do inconsciente.
DinâmicaConflito entre o desejo de olhar/saber e o horror/medo da castração.
EstruturalBase para a organização do Complexo de Édipo e das fantasias de origem.

Conclusão

A cena primitiva não é apenas uma curiosidade sobre a infância; é a representação do enigma da origem e da alteridade. Ao deparar-se com a união dos pais, o ser humano confronta sua própria criação e o limite do seu conhecimento.

Para a psicanálise, explicar a cena primitiva é explicar como o sujeito lida com o impossível de saber e como ele transforma o trauma da exclusão na capacidade de simbolizar e desejar. É, em última análise, o momento em que a biologia do sexo se torna a mitologia pessoal de cada indivíduo.

SUGESTÃO DE LEITURA SOBRE ESSA TEMÁTICA

Totem e Tabu

Sigmund Freud

Baseando-se em estudos de antropologia, biologia e história, Freud lança a conjectura de que o ato fundador da sociedade humana foi o assassinato do pai da horda primitiva pelos próprios filhos. Totem e tabu foi a primeira aplicação da psicanálise a questões de psicologia social.

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