| Cartaz do filme Fuja (2020). |
A relação entre mãe e filha sempre ocupou um lugar privilegiado na psicanálise, seja como matriz da constituição subjetiva, seja como espaço onde se inscrevem as primeiras experiências de amor, cuidado, dependência e ambivalência. Quando essa relação, porém, é atravessada por dinâmicas patológicas de controle, manipulação e violência simbólica, o vínculo materno pode se transformar em um território de aprisionamento psíquico. O filme Fuja (2020), dirigido por Aneesh Chaganty, oferece um terreno fértil para explorar essas questões ao retratar uma mãe que, movida por uma necessidade compulsiva de manter a filha sob seu domínio, fabrica doenças e limitações físicas para ela, um caso típico de Síndrome de Munchausen por Procuração (SMPP).
A partir de uma perspectiva psicanalítica, o filme permite examinar não apenas o funcionamento psíquico da mãe, Diane, mas também os efeitos subjetivos dessa dinâmica sobre a filha, Chloe, que cresce sob um regime de vigilância, medicalização e dependência absoluta. A SMPP, nesse contexto, não é apenas um diagnóstico psiquiátrico, mas um sintoma de uma estrutura psíquica marcada pela impossibilidade de lidar com a falta, pela necessidade de controle e pela instrumentalização do outro como objeto de completude narcísica.
Este texto busca analisar Fuja como uma narrativa que dramatiza, de forma contundente, os mecanismos inconscientes envolvidos na SMPP, articulando conceitos psicanalíticos como narcisismo, pulsão de morte, gozo, identificação, alienação e separação. Ao fazê-lo, pretende-se mostrar como o filme revela a face sombria do cuidado materno quando este se converte em uma forma de dominação e como a subjetividade da filha é moldada, e ameaçada, por essa dinâmica.
A CONSTRUÇÃO DO VÍNCULO MATERNO COMO ESPAÇO DE ALIENAÇÃO
Na psicanálise, especialmente em Freud e Lacan, a relação mãe-bebê é descrita como um vínculo de intensa fusão, no qual o bebê depende absolutamente da mãe para sobreviver. Essa dependência, porém, é também o ponto de partida para a constituição do sujeito, que só se torna sujeito ao se separar simbolicamente da mãe.
Em Fuja, essa separação nunca ocorre. Diane mantém Chloe em um estado de dependência radical, impedindo que ela desenvolva autonomia física, emocional e cognitiva. A casa onde vivem funciona como um útero ampliado, um espaço fechado, controlado, onde a mãe regula cada aspecto da vida da filha, alimentação, medicação, educação, deslocamento.
A alienação de Chloe é construída desde o nascimento, ou melhor, desde o sequestro, já que Diane toma a criança de outra família após perder seu próprio bebê. Esse ato inaugural já revela a impossibilidade de Diane lidar com a perda, com a falta constitutiva que marca a experiência humana. Em vez de elaborar o luto, ela tenta preencher o vazio com um objeto substituto: a criança sequestrada.
A partir desse gesto, toda a relação entre elas se organiza em torno da recusa da separação. Diane não suporta a ideia de que Chloe possa existir como sujeito independente; por isso, fabrica doenças que a mantêm presa ao espaço doméstico e à figura materna. A alienação, nesse sentido, não é apenas um efeito colateral da SMPP, mas seu objetivo central: manter o outro como extensão de si.
O NARCISISMO MATERNO E A CRIAÇÃO DO FILHO COMO OBJETO
A SMPP pode ser compreendida, psicanaliticamente, como uma forma extrema de narcisismo materno. Para Freud, o narcisismo primário é uma etapa normal do desenvolvimento, mas pode se tornar patológico quando o sujeito busca no outro, especialmente no filho, uma forma de restaurar sua própria completude.
Diane encarna esse narcisismo patológico. Ela não vê Chloe como um sujeito, mas como um objeto destinado a satisfazer suas necessidades emocionais. A doença fabricada da filha funciona como um espelho que reflete a imagem da mãe cuidadora, abnegada, heroica.
A criança doente é, para Diane, um instrumento de validação. Ela se coloca como a única capaz de salvar, proteger e sustentar a filha, uma posição que lhe confere poder e centralidade. A doença, portanto, não é um acidente, mas uma construção simbólica que sustenta o narcisismo materno.
A psicanálise lacaniana ajuda a compreender esse processo: Diane tenta ocupar o lugar do Outro absoluto, aquele que detém o saber e o poder sobre o corpo e o destino da filha. Ao impedir que Chloe caminhe, estude fora de casa ou tenha contato com o mundo, ela impede que a filha acesse o campo do desejo, que é sempre desejo do Outro, mas também desejo de algo além do Outro.
O narcisismo materno, nesse caso, se transforma em violência: uma violência silenciosa, cotidiana, que se disfarça de cuidado, mas que tem como objetivo anular o sujeito em formação.
A PULSÃO DE MORTE E O GOZO NO ATO DE FAZER ADOECER
A SMPP não é apenas uma forma de narcisismo; ela envolve também uma dimensão pulsional mais profunda. Freud descreve a pulsão de morte como uma tendência à repetição, à destruição, ao retorno ao estado inorgânico. No caso de Diane, essa pulsão se manifesta na compulsão de fazer adoecer, de controlar o corpo da filha, de submetê-lo a um regime de dor e limitação.
Há um gozo evidente nesse processo, um gozo que não é prazer, mas satisfação pulsional. Diane goza ao administrar remédios, ao observar a filha sofrer, ao manter o corpo dela sob vigilância. Esse gozo é estruturalmente perverso, no sentido psicanalítico: o outro é reduzido a objeto da pulsão.
A perversão, aqui, não se refere a um juízo moral, mas a uma posição subjetiva: o perverso se coloca como mestre do desejo do outro, como aquele que sabe o que o outro quer ou precisa, anulando sua subjetividade. Diane encarna essa posição ao decidir unilateralmente que Chloe deve ser doente, dependente, frágil.
O filme mostra, de forma sutil, como esse gozo se intensifica quando a filha tenta se libertar. Quanto mais Chloe busca autonomia, mais Diane intensifica o controle, como se a tentativa de separação ameaçasse sua própria existência psíquica.
A pulsão de morte, nesse sentido, não se dirige apenas à filha, mas também à própria mãe, que se destrói ao tentar manter uma relação impossível de fusão eterna.
A FILHA COMO SUJEITO EM PROCESSO DE EMERGÊNCIA
Se a mãe encarna a figura do Outro absoluto, a filha representa o sujeito em luta para emergir. A trajetória de Chloe no filme pode ser lida como um processo de subjetivação: ela passa da alienação total à descoberta da verdade, da dependência à autonomia, da posição de objeto à posição de sujeito.
A psicanálise enfatiza que o sujeito só se constitui ao se separar do Outro. No caso de Chloe, essa separação é literal e simbólica: ela precisa romper com a mãe para existir. O momento em que ela descobre que pode mover as pernas, após anos de paralisia induzida, é emblemático: o corpo, antes aprisionado pelo discurso materno, torna-se veículo de liberdade.
A descoberta da verdade sobre sua origem e sobre as manipulações da mãe funciona como um atravessamento do fantasma. Chloe percebe que a imagem da mãe cuidadora era uma construção, um engodo. Esse momento é traumático, mas também libertador: o sujeito só emerge ao confrontar a falta no Outro.
Ao final, quando Chloe visita Diane na prisão e administra a ela os mesmos medicamentos que a mãe lhe dava, o gesto pode ser lido de duas maneiras: como vingança ou como repetição. A psicanálise sugere que toda separação envolve uma dose de repetição, pois o sujeito precisa simbolizar o trauma para superá-lo.
Chloe, ao devolver à mãe a posição de impotência, tenta reescrever a história, não para perpetuar a violência, mas para finalmente ocupar o lugar de sujeito.
O DISCURSO DO CUIDADO COMO DISFARCE DA VIOLÊNCIA
Uma das contribuições mais importantes do filme é mostrar como a violência pode se disfarçar de cuidado. A SMPP é, por definição, uma forma de abuso que se apresenta como proteção. A mãe que faz adoecer é a mesma que leva ao hospital, que administra remédios, que se sacrifica.
Esse paradoxo é central para compreender a dinâmica psicanalítica da relação. O cuidado excessivo, quando motivado por necessidades narcísicas, torna-se uma forma de controle. A mãe que cuida demais impede o crescimento, sufoca o desejo, aprisiona o outro em uma posição infantilizada.
O discurso do cuidado, nesse sentido, funciona como uma máscara que encobre a violência simbólica. Diane se apresenta como mãe exemplar, mas sua dedicação é movida por uma necessidade inconsciente de manter a filha como objeto.
A psicanálise alerta para o perigo do amor materno quando ele se torna absoluto. Lacan afirma que “não há nada mais mortífero do que o amor da mãe”, justamente porque esse amor pode se transformar em demanda infinita, em desejo de fusão, em recusa da alteridade.
Em Fuja, esse amor mortífero se manifesta na forma de medicamentos, cadeiras de rodas, grades, fechaduras. O cuidado se torna prisão; o amor, violência.
A CASA COMO ESPAÇO PSÍQUICO: O LAR COMO CÁRCERE
A ambientação do filme, quase inteiramente dentro da casa, reforça a leitura psicanalítica da relação mãe-filha. A casa funciona como metáfora do inconsciente materno: um espaço fechado, claustrofóbico, onde a mãe controla tudo e onde a filha não tem acesso ao mundo exterior.
A casa é o útero simbólico que nunca se rompe. Diane impede que Chloe atravesse a porta, que entre no mundo, que se encontre com o Outro. A casa é o cenário da alienação, mas também o espaço onde a filha começa a questionar, investigar, descobrir.
A escada, em particular, é um elemento simbólico importante. Ela representa a passagem entre níveis, da ignorância ao saber, da dependência à autonomia. Quando Chloe tenta descer a escada sozinha, desafia não apenas a limitação física imposta pela mãe, mas também a estrutura psíquica que a aprisiona.
A casa, portanto, é um personagem psíquico: ela encarna o desejo materno de controle e a luta da filha por liberdade.
A VERDADE COMO ATO DE SEPARAÇÃO
A descoberta da verdade é um momento crucial na narrativa e na leitura psicanalítica. Para Lacan, a verdade tem estrutura de ficção, mas é necessária para que o sujeito se constitua. Chloe precisa descobrir que sua doença é fabricada, que sua mãe não é sua mãe biológica, que sua vida é uma construção.
Esse processo é doloroso, mas fundamental. A verdade rompe o laço imaginário que sustentava a relação. A mãe deixa de ser figura idealizada e se revela como sujeito falho, marcado pela falta.
A separação simbólica só é possível quando o sujeito reconhece que o Outro não é completo. Diane, ao ser desmascarada, perde o lugar de Outro absoluto. Chloe, ao descobrir a verdade, pode finalmente desejar, e desejar é sempre desejar algo além do Outro.
A DIMENSÃO SOCIAL E CULTURAL DO CONTROLE MATERNO
Embora o filme se concentre na dinâmica individual, é possível ampliar a análise para considerar como a cultura reforça certos ideais de maternidade que podem favorecer comportamentos abusivos. A mãe abnegada, sacrificada, totalmente dedicada ao filho é frequentemente idealizada.
Diane encarna essa figura de forma extrema, mas sua posição encontra ressonância em discursos sociais que valorizam o controle materno como forma de cuidado. A SMPP, nesse sentido, é uma distorção patológica de um ideal cultural.
O FINAL COMO RETORNO DO REPRIMIDO
Quando o filme avança para o epílogo, vemos Chloe adulta visitando Diane na prisão. A mãe, agora debilitada, está fisicamente limitada, uma inversão radical da dinâmica original. A filha, por sua vez, está autônoma, estudando, vivendo sua vida.
Esse encontro funciona como o retorno do reprimido: aquilo que Diane tentou esconder, controlar e negar, a autonomia da filha, retorna de forma inescapável. A prisão simboliza o colapso do delírio materno de onipotência. O Outro absoluto, que antes controlava tudo, agora está reduzido à impotência.
A INVERSÃO DE POSIÇÕES: DO OBJETO AO SUJEITO
O gesto mais impactante é quando Chloe revela que está administrando à mãe os mesmos medicamentos que Diane lhe dava.
Esse ato é ambíguo e, justamente por isso, psicanaliticamente potente.
Não é apenas vingança.
A vingança pura seria uma resposta imaginária, uma tentativa de “pagar na mesma moeda”. Mas o filme sugere algo mais complexo.É uma reinscrição simbólica.
Chloe devolve à mãe o lugar de objeto, não para perpetuar a violência, mas para marcar simbolicamente a separação. Ela mostra que agora é sujeito, que tem agência, que não está mais submetida ao desejo materno.É uma forma de elaborar o trauma.
A repetição, em psicanálise, não é só compulsão; é também tentativa de simbolizar o que foi vivido. Ao repetir o gesto da mãe, Chloe o reinscreve sob outra lógica: agora ela controla a narrativa.
A QUEDA DO OUTRO ABSOLUTO
Diane, que antes ocupava o lugar de Outro onipotente, aquele que sabe, que decide, que controla, agora está reduzida a um corpo dependente.
Essa queda é fundamental para a constituição subjetiva de Chloe.
Para que o sujeito exista, o Outro precisa falhar.
O final mostra essa falha de forma literal:
- a mãe está presa,
- fragilizada,
- silenciada,
- privada do poder que exercia.
A separação simbólica, que durante toda a infância foi impedida, finalmente se realiza.
O GOZO INTERROMPIDO
A SMPP de Diane era sustentada por um gozo perverso: o prazer inconsciente de controlar o corpo da filha, de produzir doença, de ser necessária.
No final, esse gozo é interrompido.
A prisão impede a repetição do ato.
A filha impede a continuidade da fantasia materna.
Diane é confrontada com a falta, aquela mesma falta que ela tentou negar ao sequestrar uma criança e fabricar doenças.
Agora, ela é obrigada a ocupar o lugar da castração, da impotência, da dependência.
A AUTONOMIA DE CHLOE COMO ATO DE DESEJO
Chloe, por sua vez, emerge como sujeito desejante.
Ela estuda, vive sozinha, constrói uma vida que não gira mais em torno da mãe.
O gesto final, dar o remédio escondido, não a aprisiona no passado; ao contrário, marca que ela já não é mais definida por ele.
Ela pode olhar para a mãe sem ser engolida por ela.
Pode visitá-la sem se submeter.
Pode repetir o gesto sem se identificar com ele.
É o triunfo da separação.
O FINAL COMO METÁFORA DA ELABORAÇÃO DO TRAUMA
Psicanaliticamente, o final não é sobre punição, mas sobre elaboração.
Chloe não mata a mãe, não foge dela, não a apaga.
Ela a coloca em um lugar simbólico: o lugar daquilo que foi, mas que não determina mais quem ela é.
A mãe permanece viva — mas confinada.
O trauma permanece — mas simbolizado.
A filha segue — mas agora como sujeito.
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