Breve resenha do livro A Paixão Segundo G.H., de Clarice Lispector


Publicado em 1964, momento marcado por efervescências políticas no Brasil e consolidado na segunda fase do Modernismo brasileiro, ou na vertente introspectiva de 1945, A Paixão Segundo G.H. se encontra no que considero o como o topo da produção ficcional de Clarice Lispector (1920–1977). Esse romance simplesmente rompeu com os parâmetros do regionalismo social que ganhou destaque por volta de 1930, no qual Lispector deslocou o eixo da ficção para a observação da subjetividade. Em A Paixão Segundo G.H., esse olhar estético alcançou um nível de radicalidade difícil de encontrar paralelo na ficção brasileira, em que temos um drama filosófico sobre o esvaziamento das formas sociais e a busca por um estado pré-humano do ser.

O livro é estruturado por meio de um rigoroso desenho diegético. Trata-se de um longo monólogo interior conduzido por G.H., uma mulher da alta burguesia carioca, escultora amadora, cuja vida é marcada pela estabilidade e pelas convenções do seu extrato social. O enredo instala-se em um tempo anacrônico: a personagem narra, a partir do presente ("hoje"), a experiência avassaladora Vivida no dia anterior ("ontem"). Essa dissociação temporal opera uma dobra na verossimilhança tradicional, uma vez que a narrativa não busca reproduzir eventos externos, mas o esforço de reconstituição verbal de um colapso ontológico. A focalização é em primeira pessoa, mantendo o leitor aprisionado à consciência da protagonista, cuja voz oscila entre o relato Confessional, o delírio e o rigor analítico.

A ação dramática deflagra-se em um cenário doméstico mínimo, o apartamento de G.H., no momento em que ela decide limpar o quarto recém-abandonado de Janair, a ex-empregada. No confronto com o cômodo e com um painel a carvão deixado pela trabalhadora, o ambiente demonstra possuir uma alteridade incômoda, meio que refletindo a alienação de classe da protagonista. O clímax narrativo ocorre quando G.H. se depara com uma barata na porta do guarda-roupa e, em um impulso de pavor e fúria, esmaga o inseto. O surgimento da massa esbranquiçada da matéria visceral do animal desencadeia a revelação central da obra, desarmando a estrutura de certezas e a autoimagem que a personagem construiu ao longo da vida.

Esteticamente, o romance destaca-se pela construção de um pathos que desafia as convenções do gênero ficcional. Lispector, ao que me parece, possui uma escrita cuja ação se desenvolve através de uma sintaxe do excesso e do despojamento, lugar em que a epifania, recurso estético recorrente na sua obra, assume traços místicos e aterrorizantes. A arquitetura dos capítulos apresenta um mecanismo estilístico tão interessante quanto: o fecho de cada seção reaparece como a frase de abertura do capítulo seguinte. Essa técnica de enquadramento circular encena formalmente a impossibilidade de estancar o fluxo de consciência, criando uma cadência ritualística e, até mesmo, obsessiva. A linguagem converte-se no próprio objeto de disputa do texto. Para nomear o "neutro" e o "impessoal" que descobre ao deparar-se com a vida bruta do inseto, G.H. precisa violentar a estrutura lógica do idioma, atingindo o limite da palavra diante do incognoscível.

Nesse processo de desumanização/humanização simbólica, as esferas de ação reduzem-se ao mínimo movimento e à máxima carga reflexiva. A trajetória da protagonista, nesse caso, encena uma uma via crucis profana, na qual perder a identidade social e o nome, reduzido às meras iniciais gravadas em suas malas, torna-se a condição para aproximar-se da essência da matéria. Ao expor o conflito entre a forma (a civilização, a estática da arte) e o informe (a vida biológica primordial), Clarice faz de A Paixão Segundo G.H. um dos ensaios ficcionais mais contundentes sobre a condição humana e a falência dos discursos consolidados, estabelecendo essa obra como um marco não apenas para a época em que foi lançada, mas da literatura brasileira como um todo.

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Capa do livro Nome do Livro

A paixão segundo G. H.

por Clarice Lispector

📖 Páginas: 192 🏢 Editora: Rocco Minha Avaliação: 5/5

Publicado pela Editora Rocco, A Paixão Segundo G.H. narra o impacto devastador de uma experiência aparentemente banal na vida de uma mulher da alta sociedade carioca: ao decidir arrumar o quarto de sua ex-empregada doméstica, G.H. depara-se com uma barata saindo do guarda-roupa e, em um gesto instintivo, esmaga o inseto na porta do móvel, vendo emergir de seu corpo uma massa esbranquiçada; o confronto físico e existencial com a vida matéria do inseto deflagra uma profunda crise ontológica, levando a protagonista a romper com as convenções sociais e com a própria linguagem para vivenciar uma assustadora, poética e reveladora viagem de despersonalização rumo ao neutro e ao essencial da condição humana.

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SILVA, Frederico de Lima. Breve resenha do livro A Paixão Segundo G.H., de Clarice Lispector. Blog Frederico Lima, agosto 04, 2026. Disponível em: <https://www.fredericolima.com.br/2026/08/resenha-critica-a-paixao-segundo-gh.html>. Acesso em: ....
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Graduado, mestre e doutor em Letras pela UFPB, com especializações em Teoria Psicanalítica, Literatura Brasileira e Literatura Contemporânea. Assessor de editoração digital de periódicos científicos desde 2021 e revisor de trabalhos acadêmicos.