O termo literariedade (em russo, literaturnost) foi introduzido pelos formalistas russos nas primeiras décadas do século XX, especialmente por Viktor Shklovsky e Roman Jakobson. O movimento surgiu como reação às abordagens impressionistas e biográficas da crítica literária, que privilegiavam o autor, o contexto histórico ou o conteúdo moral das obras. Os formalistas propuseram uma mudança radical: estudar a literatura a partir de sua forma, isto é, dos elementos internos que a constituem como arte verbal.
Em seu ensaio “A arte como procedimento” (Iskusstvo kak priem, 1917), Shklovsky define a função da arte como o ato de “tornar estranho” (ostranenie) o mundo cotidiano. Segundo ele, o objetivo da literatura não é reproduzir a realidade, mas desautomatizar a percepção do leitor, fazendo-o ver o mundo sob nova luz. Essa “estranheza” é o primeiro indício da literariedade: o texto literário se distingue por sua capacidade de romper com o uso comum da linguagem. Assim, o que caracteriza o literário não é o tema, mas o modo como o discurso é construído.
Roman Jakobson, por sua vez, sistematiza o conceito em termos linguísticos. Em “Linguística e poética” (1960), ele afirma que a função poética da linguagem consiste em “projetar o princípio da equivalência do eixo da seleção sobre o eixo da combinação”. Em outras palavras, o texto literário se define pela atenção à forma, ao som, ao ritmo, à estrutura sintática, e não apenas ao conteúdo. Jakobson sintetiza essa ideia na célebre pergunta: “O que faz de uma mensagem verbal uma obra de arte?”. A resposta é a literariedade, entendida como o conjunto de procedimentos que conferem valor estético à linguagem.
A literariedade como critério de distinção e seus limites
A partir do Formalismo Russo, a literariedade passou a ser vista como o critério que separa o texto literário dos demais discursos. Essa perspectiva influenciou fortemente o Estruturalismo, especialmente na França, onde Tzvetan Todorov e Roland Barthes retomaram e ampliaram o conceito. Todorov, em Os formalistas russos (1965), observa que a literariedade não é uma essência fixa, mas uma função que varia conforme o contexto histórico e cultural. O que é considerado literário em uma época pode não o ser em outra. Assim, o conceito deixa de ser absoluto e passa a depender das convenções de leitura e dos sistemas de valores de cada sociedade.
Roland Barthes, em O grau zero da escrita (1953) e posteriormente em O prazer do texto (1973), desloca o foco da literariedade para o leitor. Para ele, o literário não reside apenas na estrutura do texto, mas na experiência estética que ele provoca. A literariedade torna-se, então, uma relação entre texto e leitor, uma zona de fruição, de ambiguidade e de liberdade interpretativa. Barthes rompe com a ideia de que o literário é um conjunto de regras formais e propõe que ele é, antes, um espaço de jogo e de significação múltipla.
Essa evolução teórica revela um paradoxo: se a literariedade é o que define o literário, mas seus critérios variam, como determinar o que é literatura? Terry Eagleton, em Teoria da literatura: uma introdução (1983), responde de forma provocadora: “A literatura é o que as pessoas tratam como literatura”. Para Eagleton, não há propriedades intrínsecas que tornem um texto literário; o que existe é um conjunto de práticas sociais e institucionais que o reconhecem como tal. A literariedade, portanto, é uma construção histórica e ideológica, não uma qualidade universal.
A literariedade e o diálogo com outras teorias: pragmática, semiótica e desconstrução
Com o declínio do Estruturalismo e o surgimento das teorias pós-estruturalistas, o conceito de literariedade foi reavaliado sob novas perspectivas. A pragmática literária, por exemplo, enfatiza o papel dos atos de fala e das convenções comunicativas na constituição do texto literário. Wolfgang Iser, em O ato da leitura (1976), argumenta que o literário se define pela interação entre o texto e o leitor, pela “lacuna” que o leitor precisa preencher. A literariedade, nesse sentido, é o espaço de indeterminação que convida à interpretação.
A semiótica, representada por autores como Umberto Eco, também contribui para essa discussão. Em Obra aberta (1962), Eco defende que o texto literário é caracterizado por sua multiplicidade de sentidos e por sua estrutura aberta à cooperação interpretativa. A literariedade seria, então, a capacidade do texto de gerar significados potenciais, de resistir à leitura unívoca. Essa visão aproxima-se da desconstrução de Jacques Derrida, para quem o literário é o lugar onde o significado se desfaz e se reconfigura incessantemente. Em A escritura e a diferença (1967), Derrida mostra que a literatura, ao explorar as ambiguidades da linguagem, revela a instabilidade de todo sistema de significação.
Essas abordagens ampliam o conceito de literariedade, deslocando-o da forma para o processo. O literário não é apenas o que está no texto, mas o que acontece na leitura, na interpretação, na circulação social da obra. A literariedade torna-se, assim, um fenômeno dinâmico, que envolve tanto a estrutura linguística quanto o contexto cultural e o ato de recepção.
A literariedade na contemporaneidade: entre o estético e o político
No século XXI, o conceito de literariedade continua a ser debatido, especialmente diante das transformações tecnológicas e culturais que redefinem o campo literário. A expansão das mídias digitais, a hibridização dos gêneros e a emergência de novas formas de narrativa, como o hipertexto e a literatura eletrônica, desafiam as fronteiras tradicionais do literário. Nesse cenário, a literariedade precisa ser repensada não apenas como forma, mas como função estética e política.
Autores como Rancière e Compagnon oferecem contribuições relevantes para essa reinterpretação. Jacques Rancière, em A partilha do sensível (2000), propõe que a arte, incluindo a literatura, é um modo de redistribuir o sensível, de reorganizar o que pode ser visto, dito e pensado. A literariedade, nesse contexto, é o poder da linguagem de criar novas formas de percepção e de questionar as hierarquias do discurso. Antoine Compagnon, em O demônio da teoria (1998), por sua vez, argumenta que o literário é inseparável de sua dimensão reflexiva: a literatura é o lugar onde a linguagem pensa sobre si mesma. A literariedade seria, então, o exercício crítico que a literatura realiza sobre o próprio ato de significar.
Essa perspectiva contemporânea recoloca o conceito em diálogo com questões éticas e políticas. A literariedade não é apenas o que distingue o texto literário, mas o que o torna capaz de intervir no mundo, de produzir deslocamentos de sentido, de questionar normas, de abrir espaço para o outro. Em tempos de crise da representação e de saturação discursiva, a literariedade é o que mantém viva a potência transformadora da linguagem.
Considerações finais
Ao longo de sua trajetória, o conceito de literariedade passou por múltiplas reformulações, refletindo as mudanças nas teorias e nas práticas literárias. De Shklovsky a Rancière, de Jakobson a Barthes, o termo evoluiu de uma definição formal para uma concepção relacional e histórica. Se no início do século XX a literariedade era vista como o conjunto de procedimentos que tornavam o texto “estranho”, hoje ela pode ser entendida como o espaço de tensão entre forma, sentido e contexto, o lugar onde a linguagem se torna consciente de si e de seu poder de transformação.
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