Por que sinto que estou sempre repetindo os mesmos erros nos relacionamentos?

Por Ticiano - [2], Domínio público.

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Você repete os mesmos erros nos relacionamentos porque está inconscientemente encenando dinâmicas infantis não resolvidas, buscando, através da compulsão à repetição, dominar passivamente traumas ou carências antigas na esperança de um desfecho diferente.

A Compulsão à Repetição e o Além do Princípio do Prazer

Para compreender por que o sujeito se vê aprisionado em ciclos relacionais destrutivos, é imperativo recorrer ao conceito freudiano de Compulsão à Repetição (Wiederholungszwang). Em sua obra seminal de 1920, Além do Princípio do Prazer, Sigmund Freud revolucionou a teoria psicanalítica ao observar que o psiquismo não é regido apenas pela busca do prazer e pelo evitamento do desprazer. Ele notou que muitos pacientes repetiam experiências dolorosas, tanto em transferência quanto na vida cotidiana, que não traziam qualquer satisfação aparente. Essa força demonstra que existe algo no inconsciente que "obriga" o indivíduo a reproduzir situações traumáticas anteriores. No contexto dos relacionamentos, isso significa que você não escolhe parceiros "errados" por mero azar, mas sim por uma necessidade psíquica de reencenar um cenário familiar. Essa repetição é uma tentativa fracassada do ego de processar um material que não foi simbolizado. O trauma, por definição, é aquilo que não pôde ser nomeado ou integrado à narrativa do sujeito; portanto, ele retorna não como memória, mas como ato. Ao escolher alguém que te negligencia, por exemplo, você pode estar tentando reviver a negligência parental para, desta vez, tentar "vencer" a situação ou converter o objeto negligente em um objeto amoroso, o que raramente ocorre sem o trabalho analítico.

O Papel do Objeto e a Escolha Objetal Narcísica ou Anaclítica

A escolha de um parceiro é profundamente influenciada pelas primeiras relações de objeto, especificamente as figuras parentais ou cuidadores. Na teoria das relações objetais, entende-se que o bebê introjeta as características desses cuidadores, formando modelos internos de como o amor e a afeição funcionam. Se o ambiente primordial foi marcado por instabilidade ou ambivalência, o indivíduo pode desenvolver o que Freud chama de escolha objetal anaclítica (baseada na dependência de quem o alimenta e protege) ou narcísica (baseada no que ele mesmo é ou gostaria de ser). Quando você se sente repetindo erros, é provável que esteja buscando o "objeto perdido" da infância. O desejo, para a psicanálise, é sempre o desejo do Outro. Isso implica que buscamos no parceiro preencher uma falta constituinte. O problema surge quando o padrão de busca é mediado por um Complexo de Édipo mal elaborado, onde o parceiro é investido de uma carga libidinal que pertence, originalmente, ao pai ou à mãe. Se essa identificação não é mediada pela Lei (a castração simbólica), o sujeito permanece fixado em um modo de satisfação pulsional que inviabiliza relacionamentos saudáveis, pois ele não está se relacionando com a pessoa real à sua frente, mas com um fantasma do passado.

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Transferência, Fantasia e a Economia Libidinal

A repetição nos relacionamentos amorosos também pode ser lida como um fenômeno transferencial expandido para fora do setting clínico. A Transferência é o processo pelo qual desejos inconscientes se atualizam sobre determinados objetos dentro de um tipo de relação estabelecida com eles. No amor, projetamos nossas Fantasias inconscientes no parceiro. A fantasia, no sentido lacaniano, é o que sustenta o desejo e protege o sujeito do real do outro. Se a sua fantasia está estruturada em torno do sofrimento ou da rejeição (como forma de manter o vínculo com um objeto primário severo), você será atraído por cenários que validem essa estrutura. É a economia libidinal em jogo: o psiquismo prefere o sofrimento conhecido à incerteza de um novo modo de satisfação. Além disso, existe a questão da Identificação Projetiva, um mecanismo de defesa onde o indivíduo projeta partes indesejadas de si mesmo no outro e, em seguida, age de forma a induzir o outro a se comportar de acordo com essa projeção. Assim, o "erro" repetido é, muitas vezes, uma profecia autorrealizável alimentada por mecanismos defensivos que visam proteger o ego de uma vulnerabilidade ainda maior.

A Pulsão de Morte e o Desamparo Primordial

Um dos conceitos mais densos para explicar a reiteração do erro é a Pulsão de Morte (Todestrieb). Enquanto a libido (Eros) busca a união e a preservação da vida, a pulsão de morte tende à desagregação e ao retorno ao estado inorgânico, manifestando-se clinicamente na autodestrutividade e no "masoquismo moral". Repetir um relacionamento abusivo ou sabotar sistematicamente vínculos saudáveis pode ser uma manifestação dessa pulsão que visa desestabilizar o equilíbrio do ego. Esse comportamento está ligado ao Desamparo Primordial (Hilflosigkeit). O ser humano nasce em um estado de total dependência e qualquer falha grave no cuidado inicial gera uma angústia aniquiladora. Para lidar com esse medo do abandono, o sujeito pode, paradoxalmente, buscar parceiros abandonadores. Por quê? Porque o controle da repetição é menos aterrorizante do que a passividade do trauma original. Ao "escolher" alguém que vai embora, o sujeito retoma um senso de agência sobre a dor: "Eu causei isso" ou "Eu sabia que isso aconteceria" é psiquicamente mais suportável do que "Fui abandonado sem entender o porquê". A análise busca transformar essa atuação (acting out) em elaboração (Durcharbeitung), permitindo que o sujeito saia do circuito fechado da pulsão e possa, enfim, fazer algo diferente com sua falta.

Referências Bibliográficas

FREUD, Sigmund. Além do princípio do prazer. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

FREUD, Sigmund. Introdução ao narcisismo, ensaios de metapsicologia e outros textos (1914-1916). Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

LACAN, Jacques. O seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1988.

LAPLANCHE, Jean; PONTALIS, Jean-Bertrand. Vocabulário da psicanálise. São Paulo: Martins Fontes, 2001.

ZUPANCIC, Alenka. O que é o sexo?. Belo Horizonte: Autêntica, 2021.

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