Você repete os mesmos erros nos relacionamentos porque está inconscientemente encenando dinâmicas infantis não resolvidas, buscando, através da compulsão à repetição, dominar passivamente traumas ou carências antigas na esperança de um desfecho diferente.
A Compulsão à Repetição e o Além do Princípio do Prazer
O Papel do Objeto e a Escolha Objetal Narcísica ou Anaclítica
A escolha de um parceiro é profundamente influenciada pelas primeiras relações de objeto, especificamente as figuras parentais ou cuidadores. Na teoria das relações objetais, entende-se que o bebê introjeta as características desses cuidadores, formando modelos internos de como o amor e a afeição funcionam. Se o ambiente primordial foi marcado por instabilidade ou ambivalência, o indivíduo pode desenvolver o que Freud chama de escolha objetal anaclítica (baseada na dependência de quem o alimenta e protege) ou narcísica (baseada no que ele mesmo é ou gostaria de ser). Quando você se sente repetindo erros, é provável que esteja buscando o "objeto perdido" da infância. O desejo, para a psicanálise, é sempre o desejo do Outro. Isso implica que buscamos no parceiro preencher uma falta constituinte. O problema surge quando o padrão de busca é mediado por um Complexo de Édipo mal elaborado, onde o parceiro é investido de uma carga libidinal que pertence, originalmente, ao pai ou à mãe. Se essa identificação não é mediada pela Lei (a castração simbólica), o sujeito permanece fixado em um modo de satisfação pulsional que inviabiliza relacionamentos saudáveis, pois ele não está se relacionando com a pessoa real à sua frente, mas com um fantasma do passado.
Transferência, Fantasia e a Economia Libidinal
A repetição nos relacionamentos amorosos também pode ser lida como um fenômeno transferencial expandido para fora do setting clínico. A Transferência é o processo pelo qual desejos inconscientes se atualizam sobre determinados objetos dentro de um tipo de relação estabelecida com eles. No amor, projetamos nossas Fantasias inconscientes no parceiro. A fantasia, no sentido lacaniano, é o que sustenta o desejo e protege o sujeito do real do outro. Se a sua fantasia está estruturada em torno do sofrimento ou da rejeição (como forma de manter o vínculo com um objeto primário severo), você será atraído por cenários que validem essa estrutura. É a economia libidinal em jogo: o psiquismo prefere o sofrimento conhecido à incerteza de um novo modo de satisfação. Além disso, existe a questão da Identificação Projetiva, um mecanismo de defesa onde o indivíduo projeta partes indesejadas de si mesmo no outro e, em seguida, age de forma a induzir o outro a se comportar de acordo com essa projeção. Assim, o "erro" repetido é, muitas vezes, uma profecia autorrealizável alimentada por mecanismos defensivos que visam proteger o ego de uma vulnerabilidade ainda maior.
A Pulsão de Morte e o Desamparo Primordial
Um dos conceitos mais densos para explicar a reiteração do erro é a Pulsão de Morte (Todestrieb). Enquanto a libido (Eros) busca a união e a preservação da vida, a pulsão de morte tende à desagregação e ao retorno ao estado inorgânico, manifestando-se clinicamente na autodestrutividade e no "masoquismo moral". Repetir um relacionamento abusivo ou sabotar sistematicamente vínculos saudáveis pode ser uma manifestação dessa pulsão que visa desestabilizar o equilíbrio do ego. Esse comportamento está ligado ao Desamparo Primordial (Hilflosigkeit). O ser humano nasce em um estado de total dependência e qualquer falha grave no cuidado inicial gera uma angústia aniquiladora. Para lidar com esse medo do abandono, o sujeito pode, paradoxalmente, buscar parceiros abandonadores. Por quê? Porque o controle da repetição é menos aterrorizante do que a passividade do trauma original. Ao "escolher" alguém que vai embora, o sujeito retoma um senso de agência sobre a dor: "Eu causei isso" ou "Eu sabia que isso aconteceria" é psiquicamente mais suportável do que "Fui abandonado sem entender o porquê". A análise busca transformar essa atuação (acting out) em elaboração (Durcharbeitung), permitindo que o sujeito saia do circuito fechado da pulsão e possa, enfim, fazer algo diferente com sua falta.
Referências Bibliográficas
FREUD, Sigmund. Além do princípio do prazer. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
FREUD, Sigmund. Introdução ao narcisismo, ensaios de metapsicologia e outros textos (1914-1916). Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
LACAN, Jacques. O seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1988.
LAPLANCHE, Jean; PONTALIS, Jean-Bertrand. Vocabulário da psicanálise. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
ZUPANCIC, Alenka. O que é o sexo?. Belo Horizonte: Autêntica, 2021.