Diferente do recalque (Verdrängung), que opera sobre a representação pulsional enviando-a ao inconsciente, a recusa lida com a percepção de uma realidade externa traumática. Trata-se de um mecanismo de defesa arcaico, inicialmente descrito por Sigmund Freud para explicar a gênese do fetichismo e, posteriormente, a estrutura das psicoses e dos estados limítrofes. Compreender a recusa exige mergulhar na economia do desejo, na castração e na forma como o ego se divide para sustentar, simultaneamente, duas crenças contraditórias.
O Advento da Verleugnung na Obra Freudiana e a Percepção da Castração
A gênese do conceito de recusa está intrinsecamente ligada à descoberta, pela criança, da diferença anatômica entre os sexos. Para Freud, a Verleugnung não é uma simples negação lógica (Verneinung), mas uma reação defensiva diante da percepção visual da ausência do pênis na mulher. Diante do que interpreta como uma castração consumada, o sujeito infantil sente-se ameaçado em sua própria integridade narcísica. A recusa surge como uma recusa em admitir a validade de uma percepção sensorial que traz consigo uma angústia intolerável.
Nesse processo, a criança não "esquece" o que viu (como ocorreria no recalque), nem falha em registrar a percepção. Ela registra o dado da realidade, mas retira dele a sua significação traumática. É um "não querer saber" que convive com o "saber". Freud exemplifica que o pequeno sujeito continua a agir como se a castração não existisse, mantendo a crença no falo materno, enquanto outra parte de seu ego reconhece a realidade da falta. Essa coexistência marca o nascimento da divisão do ego (Ichspaltung), um fenômeno onde o sujeito mantém duas atitudes psíquicas paralelas: uma que leva em conta a realidade e outra que, sob a pressão pulsional, a renega em favor de uma fantasia substitutiva.
Essa dinâmica é fundamental para entender o fetichismo. O fetiche é o substituto do falo que a criança atribuiu à mãe e no qual ela não quer deixar de crer. O objeto fetichista serve como um monumento que celebra a recusa da castração, permitindo ao sujeito manter o acesso ao prazer sexual sem confrontar a angústia de castração. Portanto, a recusa não apaga a realidade, mas cria um "remendo" sobre a lacuna aberta pela percepção, permitindo que o sujeito negocie com um real insuportável através de uma construção simbólico-perceptiva compensatória.
A Divisão do Ego e a Coexistência de Realidades Antagônicas
O conceito de recusa ganha contornos mais dramáticos nos textos tardios de Freud, especialmente em "A Divisão do Ego no Processo de Defesa" (1938/1940). Aqui, a Verleugnung deixa de ser um mecanismo exclusivo do fetichismo para ser entendida como uma possibilidade estruturante de diversos estados psíquicos. A divisão do ego é o resultado direto da recusa: o ego se fragmenta para não ter que escolher entre a satisfação pulsional e a exigência da realidade.
Diferente do conflito neurótico clássico, onde o ego se alia à realidade para recalcar o id, na recusa o ego se divide contra si mesmo. Uma parte do ego aceita a realidade e sofre as consequências da angústia; a outra parte recusa essa realidade e cria uma formação defensiva para substituí-la. Não há uma síntese entre essas duas partes; elas permanecem cindidas, operando em compartimentos estanques. Esse "desmentido" da realidade cria uma falha na trama da subjetividade que pode se manifestar como uma "cicatriz" psíquica permanente.
Essa dualidade explica por que indivíduos que operam sob a égide da recusa podem parecer perfeitamente lúcidos e adaptados em certos contextos, enquanto apresentam comportamentos bizarros ou convicções inabaláveis em outros. A recusa atinge o julgamento de existência. Enquanto o neurótico diz "eu sei, mas mesmo assim...", o sujeito que utiliza a recusa opera em uma lógica de "isso existe e não existe ao mesmo tempo". É uma defesa que protege o narcisismo ao custo da integridade da função sintética do ego, abrindo caminho para o que a psicanálise contemporânea classifica como patologias do vazio ou organizações limítrofes.
Recusa versus Recalque e Foraclusão: Diferenças Terminológicas Críticas
Para manter o rigor terminológico, é imperativo distinguir a recusa (Verleugnung) de outros dois grandes mecanismos de defesa: o recalque (Verdrängung) e a foraclusão (Verwerfung). O recalque é a operação pela qual o sujeito tenta repelir ou manter no inconsciente representações (pensamentos, imagens, lembranças) ligadas a uma pulsão. No recalque, o que é rejeitado é o representante psíquico, mas a realidade externa não é posta em dúvida. O neurótico reconhece a castração, mas a recalca; o conflito é interno, entre o desejo e a lei moral ou a realidade.
Já a foraclusão, termo introduzido por Jacques Lacan para traduzir a Verwerfung freudiana, refere-se à exclusão de um significante fundamental (o Nome-do-Pai) do universo simbólico do sujeito. Na foraclusão, a castração nunca foi inscrita simbolicamente, o que leva à psicose e ao retorno do rejeitado no real (alucinações). A recusa situa-se em um plano intermediário ou específico: ela lida com a realidade perceptiva. Diferente do psicótico que "não tem" o significante da falta, o sujeito que recusa "tem" a percepção, mas a desmente.
O termo "desmentido", frequentemente utilizado como sinônimo de recusa nas traduções lusófonas e francófonas (Sándor Ferenczi utilizou Verleugnung para descrever o trauma infantil), enfatiza a dimensão intersubjetiva. O desmentido ocorre quando uma percepção ou experiência do sujeito (especialmente da criança) é negada por uma figura de autoridade ou pelo ambiente. Se a criança sofre um abuso ou percebe uma tensão violenta e o adulto diz "não aconteceu nada", ocorre um desmentido da realidade vivida. Isso gera uma confusão traumática, onde o sujeito é forçado a duvidar de seus próprios sentidos para manter o vínculo com o objeto, consolidando a recusa como uma defesa contra a fragmentação psíquica.
O Trauma e a Dimensão Econômica do Desmentido na Clínica Contemporânea
A psicanálise contemporânea, influenciada por autores como Sándor Ferenczi e, posteriormente, pelos teóricos das relações de objeto e da psicossomática, expandiu o conceito de recusa para além da castração anatômica. O foco deslocou-se para a recusa de eventos traumáticos precoces e falhas ambientais. Nestes casos, o desmentido não é apenas uma recusa de um detalhe anatômico, mas uma recusa de uma dor psíquica que o ego não possui meios de processar ou simbolizar.
Quando o ambiente falha em validar a experiência do sujeito, a recusa torna-se a única forma de sobrevivência psíquica. O trauma é "desmentido", o que impede que ele seja integrado à narrativa da história do indivíduo. O resultado é um "vácuo" de representação. Na clínica, isso se manifesta como uma dificuldade de simbolização, atos impulsivos (acting out) e uma tendência à somatização. O paciente não "fala" sobre o trauma, porque o trauma, tendo sido recusado, não existe como representação; ele existe apenas como uma fenda no ego que se manifesta repetidamente no comportamento ou no corpo.
O manejo clínico da recusa exige uma técnica diferente da análise do recalque. Enquanto no recalque o analista busca levantar as censuras para que o inconsciente se revele, na recusa é necessário, muitas vezes, realizar um trabalho de "construção" (conforme proposto por Freud em 1937). O analista precisa atuar como uma testemunha que valida a realidade que foi desmentida, ajudando o paciente a ligar as partes cindidas de seu ego. Trata-se de reintegrar a percepção recusada ao tecido do sentido, permitindo que a angústia, outrora insuportável, possa ser finalmente sentida e elaborada. A recusa é uma defesa contra a aniquilação subjetiva, e sua dissolução requer extrema cautela para que o ego não seja inundado pelo real que tentou evitar.
Referências Bibliográficas
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FERENCZI, Sándor. Confusão de língua entre os adultos e a criança (1933). In: Escritos Psicanalíticos IV (1927-1939). São Paulo: Martins Fontes, 1992.
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Psicanalista, especialista em Teoria psicanalítica, com trabalhos publicados em periódicos científicos, capítulos de livros e anais de eventos.