Diferente de uma doença psicossomática contemporânea ou de uma lesão orgânica detectável por exames neurológicos, o sintoma conversivo é uma manifestação simbólica. Ele "fala" através da carne, mas segue a anatomia do desejo e da fantasia, não a anatomia dos nervos e músculos. Historicamente, a descoberta da conversão permitiu a Sigmund Freud e Josef Breuer romperem com a visão puramente fisiológica da medicina do século XIX, propondo que o corpo pode ser o palco de uma representação dramática de conteúdos recalcados que não encontraram vazão pela via da palavra ou do pensamento consciente.
A gênese da conversão reside na falha do recalque em lidar com uma representação traumática ou um desejo sexual inconciliável com o ego. Quando uma ideia é carregada de um afeto insuportável para a consciência, o psiquismo opera uma separação: o conteúdo ideativo é lançado no inconsciente (recalcado), mas a carga afetiva, o que Freud denomina quantum de afeto ou libido, permanece ativa. Na conversão, esse afeto é "convertido" em uma manifestação somática. É um salto do psíquico para a esfera somática, onde o sofrimento mental é transformado em uma paralisia, uma cegueira histérica, uma contratura ou uma anestesia. O ponto crucial é que o sintoma resultante guarda uma relação analógica ou metafórica com o conflito original. Por exemplo, uma paralisia no braço pode representar o desejo inconsciente de agredir alguém, simultaneamente punido pela impossibilidade de mover o membro. O corpo, portanto, torna-se um texto cifrado que o analista deve traduzir.
Um aspecto essencial para o rigor terminológico sobre o tema é a distinção entre a conversão e outros mecanismos de defesa, como o deslocamento observado na fobia. Enquanto na fobia o afeto é deslocado para um objeto externo (o fóbico), na conversão ele permanece no próprio corpo do sujeito. Freud descreve a "bela indiferença" (belle indifférence) de muitos pacientes histéricos, que apresentam sintomas físicos graves sem a angústia correspondente; isso ocorre porque a conversão foi bem-sucedida em sua função defensiva: a angústia psíquica foi totalmente absorvida e "calada" pelo sintoma físico. Além disso, a escolha do órgão afetado não é aleatória, mas determinada pela "solicitação somática", uma predisposição orgânica ou uma zona erógena que se presta a servir de veículo para a expressão da fantasia inconsciente. Esse processo sublinha a natureza plástica da libido, que pode abandonar os objetos externos para se investir em partes específicas do corpo, transformando-as em símbolos de um conflito subjetivo.
A evolução do conceito de conversão também perpassa a noção de "identificação". Muitas vezes, o sintoma conversivo é construído a partir da identificação com um objeto amado ou odiado, onde o sujeito reproduz no próprio corpo o sofrimento ou a característica física de outra pessoa para resolver, de forma imaginária, uma tensão edípica ou um luto não elaborado. Ao longo da obra freudiana, a conversão deixa de ser vista apenas como uma descarga de energia para ser compreendida como uma linguagem. O sintoma é um substituto de uma satisfação pulsional que foi impedida, funcionando como um compromisso entre o desejo e a defesa. O corpo histérico, marcado pela conversão, é um corpo "erógeno", distanciado do corpo biológico da medicina, pois reage a leis de significação e não apenas a estímulos reflexos ou patologias celulares. É a marca do simbólico incidindo sobre o real da carne.
A dimensão econômica e dinâmica da conversão revela a complexidade da economia libidinal. Para que a conversão ocorra, é necessário que o ego tenha uma certa porosidade em relação ao corpo, permitindo que a energia psíquica seja desviada. Nos Estudos sobre a Histeria, Freud aponta que o trauma não é necessariamente um evento externo objetivo, mas a memória de um evento que se tornou traumático pela impossibilidade de uma reação adequada (ab-reação). A conversão aparece como uma solução arcaica para esse excesso de energia que não pôde ser processado verbalmente. À medida que a psicanálise avançou para a compreensão da fantasia inconsciente, percebeu-se que o sintoma conversivo não é apenas um resto de memória, mas uma construção ativa do sujeito que condensa múltiplos significados, o que Freud chamou de "sobredeterminação". Um único tique ou dor pode estar ligado a várias cadeias associativas simultâneas, exigindo um trabalho exaustivo de decifração clínica para que o afeto retorne à representação verbal e o sintoma perca sua razão de ser.
A clínica contemporânea ainda se depara com fenômenos de conversão, embora as formas de expressão do corpo tenham mudado conforme a cultura. O rigor psicanalítico exige que não se confunda a conversão com a hipocondria ou com o transtorno somatoforme puramente neurológico. Na conversão, existe uma "escolha" inconsciente do sintoma que obedece à lógica do significante. O tratamento, portanto, não visa a cura do órgão, mas a reintegração do afeto ao discurso do sujeito. Quando o paciente consegue nomear o conflito que o corpo estava encenando, a energia investida na paralisia ou na dor é liberada para circular novamente nas vias do pensamento e da ação consciente. A conversão permanece, assim, como o testemunho máximo da impossibilidade de separar mente e corpo na experiência humana, revelando que o corpo é, antes de tudo, um território habitado pela linguagem e atravessado pelas exigências da pulsão.
Referências Bibliográficas
BREUER, Josef; FREUD, Sigmund. Estudos sobre a histeria. Tradução de Laura Teixeira Motta. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.
FREUD, Sigmund. A histeria. Tradução de Denise Bottmann. São Paulo: Penguim Classics Companhia das Letras, 2011.
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LAPLANCHE, Jean; PONTALIS, Jean-Bertrand. Vocabulário da psicanálise. Tradução de Pedro Tamen. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
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ROUDINESCO, Elisabeth; PLON, Michel. Dicionário de psicanálise. Tradução de Vera Ribeiro e Lucy Magalhães. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.
Psicanalista, especialista em Teoria psicanalítica, com trabalhos publicados em periódicos científicos, capítulos de livros e anais de eventos.