Frederico Lima

Explorando as fronteiras entre a palavra e o sintoma para compreender a arquitetura do nosso mundo interno

O que a psicanálise diz sobre o ciúme excessivo e a posse?

Representação de mulher ciumenta questionando o marido.

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A psicanálise não compreende o ciúme como uma característica inata ou um simples "excesso de amor", mas sim como um fenômeno estrutural complexo que mobiliza afetos profundos, defesas inconscientes e a própria constituição do ego. Para entender o ciúme excessivo e o sentimento de posse, é imprescindível retroceder às primeiras experiências de alteridade e à formação do narcisismo, onde a criança descobre que não é o único objeto de desejo do Outro. Sigmund Freud, em sua obra seminal de 1922, Sobre alguns mecanismos neuróticos no ciúme, na homossexualidade e na paranoia, estabelece uma distinção fundamental entre o ciúme normal, o projetado e o delirante. Enquanto o ciúme dito "normal" é um luto pela perda antecipada do objeto amado, o ciúme excessivo (frequentemente associado às formas projetiva e delirante) revela uma fragilidade na economia libidinal do sujeito, onde a posse do outro torna-se uma tentativa desesperada de manter a integridade de um ego ameaçado pela fragmentação.

A Triangulação Edípica e a Origem da Rivalidade

A gênese do ciúme e da posse reside na estrutura do Complexo de Édipo. A psicanálise postula que a entrada da criança na cultura e na linguagem é mediada por uma triangulação necessária. Inicialmente, a relação entre a mãe e o bebê é marcada por uma ilusão de completude narcísica, onde o bebê acredita ser o falo da mãe, aquilo que a completa. A intervenção da função paterna, ou o Nome-do-Pai na terminologia lacaniana, introduz a castração simbólica, notificando o sujeito de que ele não é tudo para o Outro. O ciúme surge, portanto, como o afeto que sinaliza a presença de um terceiro que "rouba" a atenção do objeto primordial. O ciúme excessivo na vida adulta é, muitas vezes, uma reatualização mal resolvida dessa ferida narcísica original. O sujeito possessivo não ama o outro em sua alteridade radical, mas sim como um prolongamento de si mesmo (um objeto de satisfação narcísica). Quando o outro demonstra autonomia ou interesse por algo fora do campo de visão do sujeito, isso é experienciado como uma reedição da angústia de castração. A posse, neste contexto, serve como um mecanismo de defesa contra o desamparo (Hilflosigkeit), tentando fixar o objeto em uma posição de submissão para que a ilusão de completude não seja desfeita.

O Narcisismo e a Dialética da Inveja e da Posse

Para aprofundar a questão da posse, é necessário abordar o conceito de narcisismo. Freud explica que o ego é, antes de tudo, um ego corporal e uma projeção de superfícies. No ciúme excessivo, há uma hiperinvestidura do ego que, paradoxalmente, esconde uma profunda insegurança sobre o próprio valor. Jacques Lacan, ao formular o Estádio do Espelho, esclarece que a identidade do sujeito é construída através da imagem do outro. O ciumento excessivo vê no terceiro rival não apenas um competidor, mas alguém que possui aquilo que lhe falta. Aqui, a posse se entrelaça com a inveja. Melanie Klein, em Inveja e Gratidão, diferencia o ciúme, que envolve a preservação do objeto amado contra um terceiro, da inveja, que é o desejo destrutivo de possuir as qualidades boas do objeto ou de destruí-lo para que ninguém mais as tenha. O possessivo patológico tenta "devorar" o objeto amado (fase oral do desenvolvimento psicossexual), transformando-o em propriedade privada. A lógica da posse nega a subjetividade do parceiro; o outro deixa de ser um "tu" para se tornar um "isso", um fetiche que serve para estancar o buraco da falta constitutiva do sujeito. Se eu possuo o outro integralmente, eu controlo o desejo do outro, e se eu controlo o desejo do outro, posso evitar o encontro com a minha própria incompletude.

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Projeção e a Paranoia no Ciúme Patológico

Uma das contribuições mais instigantes de Freud sobre o ciúme excessivo é a identificação do mecanismo de projeção. No ciúme projetivo, o sujeito atribui ao parceiro os seus próprios impulsos de infidelidade que foram recalcados. Ao invés de lidar com a culpa de seus próprios desejos desviantes, o sujeito "limpa" sua consciência projetando-os no outro: "não sou eu quem quer trair, é você". Já no ciúme delirante, que beira a estrutura paranoide, Freud sugere uma ligação com a homossexualidade recalcada. O ciumento projeta o seu interesse pelo rival no parceiro. A frase interna "Eu o amo (ao homem rival)" é transformada pelo mecanismo de defesa em "Ela o ama". A agressividade direcionada ao parceiro é, na verdade, uma defesa contra uma corrente afetiva que o ego não consegue processar. A posse, aqui, manifesta-se como uma vigilância panóptica. O sujeito torna-se um investigador de sinais, um decifrador de rastros insignificantes, buscando na realidade provas que confirmem a sua tese interna de traição. Essa busca incessante revela que o ciumento não quer saber a verdade, mas sim confirmar o seu delírio, pois o delírio organiza o seu mundo caótico e lhe confere uma identidade, a de "vítima traída", que é preferível ao vazio de não ser nada para o Outro.

O Objeto a e a Insuportável Liberdade do Outro

Na perspectiva lacaniana, o ciúme excessivo está intrinsecamente ligado ao "objeto a", o objeto causa de desejo. O desejo humano é sempre o desejo do Outro; desejamos aquilo que o outro deseja. O ciumento fica capturado na imagem do parceiro, tentando localizar onde o parceiro esconde o seu tesouro (o agalma). A posse absoluta é uma impossibilidade estrutural porque o desejo é, por definição, fugidio e não pode ser aprisionado. Quando o sujeito tenta exercer uma posse total, ele acaba por aniquilar o desejo do outro, pois o desejo só sobrevive no espaço da falta e da liberdade. O ciumento excessivo sofre porque quer ser o único objeto que satisfaz o Outro, ignorando que, se ele fosse de fato "tudo" para o parceiro, o desejo cessaria, dando lugar ao tédio ou à psicose. A posse é uma tentativa de suturar a fenda subjetiva. O ciumento odeia a alteridade do parceiro, pois o fato de o parceiro ter pensamentos, desejos e uma vida psíquica independente significa que existe algo que o sujeito não pode controlar. Essa falta de controle é sentida como uma ameaça de aniquilação. Portanto, a psicanálise nos mostra que o tratamento do ciúme excessivo não passa por garantias de fidelidade, mas pela capacidade do sujeito de suportar a sua própria solidão e de reconhecer que o outro nunca lhe pertencerá, pois a única coisa que possuímos de fato é a nossa própria falta.

Referências Bibliográficas

ASSUNÇÃO, Cecília. O ciúme e seus destinos: uma visão psicanalítica. São Paulo: Escuta, 2012.

FREUD, Sigmund. Sobre alguns mecanismos neuróticos no ciúme, na homossexualidade e na paranoia (1922). In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, volume XVIII. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

FREUD, Sigmund. Introdução ao narcisismo (1914). In: Obras Completas, volume 12. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

KLEIN, Melanie. Inveja e gratidão e outros trabalhos (1946-1963). Rio de Janeiro: Imago, 1991.

LACAN, Jacques. O seminário, livro 4: a relação de objeto (1956-1957). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1995.

NASIO, Juan-David. O livro do amor e da dor: o ciúme. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2010.

QUINET, Antonio. Os outros em Eu: o recalque e o narcisismo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2002.

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Frederico Lima

Psicanalista, especialista em Teoria psicanalítica, com trabalhos publicados em periódicos científicos, capítulos de livros e anais de eventos.